Entrevista

Cabeleireira Dêmily Nóbrega dribla transfobia de salões e atende clientes em domicílio


Por Neto Lucon

Dêmily Nóbrega é uma cabeleireira paraibana de 48 anos que veio a São Paulo na expectativa de crescer profissionalmente, galgar novas oportunidades e ter uma vida melhor. Porém ela, que já foi proprietária de um salão na Paraíba, se deparou com algo que não esperava no ramo da beleza: a transfobia.

“Vendi tudo e vim. Mas não sabia que encontraria a transfobia até neste meio”, revela ela ao NLUCON. “Sempre dizem que, se não for na pista, o lugar de mulher transexual é no salão. Mas até em salão a porta pode estar fechada”. Dêmily afirma que procurou diversos anúncios do jornal com a procura “Precisa-se de cabeleireira com experiência”.

No contato por telefone, ela falava sobre suas habilidades ao longo de 25 anos de profissão e não mencionava o fato de ser uma mulher transexual – até porque ela já havia feito toda retificação de documentos e não era a sua vida particular que estava sendo levada em conta. Ao ter o primeiro contato com os donos dos salões, observava olhares estranhos e a rejeição.

“Teve uma vez que marquei o teste por telefone e, ao chegar para o teste, a dona falou: “Pois não?”. E eu: “Sou a Dêmily, que veio fazer o teste”. E ela: “É você? Infelizmente não vamos fazer, porque a modelo não veio”. E nunca mais a chamou para outra data. “Depois eu descobri que a modelo era a própria funcionária do salão. Ou seja, era transfobia mesmo”, diz.

Nas oportunidades que teve, ela afirma que observou um meio bastante transfóbico, hostil, competitivo e falso. “Sei que todas as profissões são assim, mas no ramo de cabeleireiro, que mexe muito com a vaidade, às vezes a implicância é por inveja e preconceito mesmo. Mas não tem problema. A gente dá um tapa na pessoa, não fisicamente, mas fazendo o trabalho direitinho. Infelizmente, como em todas as profissões, nem sempre há justiça ou reconhecimento”.

DRIBLANDO A TRANSFOBIA

Com a falta de oportunidades, Dêmily resolveu driblar a transfobia e o desemprego. Ela começou a trabalhar como cabeleireira na casa das clientes. “Como eu tenho todo o material, sou especialista em mega hair, coloração, corte masculino (...) pensei: ‘Não preciso de salão para trabalhar, é o salão que precisa de nós, cabeleireiras para trabalhar”, conta.


O trabalho conta com a divulgação de clientes e amigas pelas redes sociais. “Elas acabam vendo a postagem, me chamam, me contratam e eu vou na casa da pessoa. E a gente faz o trabalho na maior privacidade, com todo o conforto que o cliente tem em casa”, declara.

Se entre proprietários do salão a transfobia falava mais alto, a cabeleireira garante que nunca teve problema com clientes. Ao contrário, depois do primeiro corte ela diz que “virava amiga de infância”. “Às vezes umas clientes confessam tempos depois: eu fiquei ‘meio assim’ com você no começo, mas hoje eu vejo como você é maravilhosa, elegante, fina, de confiança...’. Eu só respondo: você me vê como eu sou de verdade”.

Dentre os pedidos mais comuns feitos atualmente é o corte de cabelo da Helô, personagem de Cláudia Abreu em “A Lei do Amor”, da TV Globo. É um curtinho com fios iluminados. “É o que as pessoas mais pedem: aquela cor e aquele corte. Se você reparar, tem várias repórteres da Globo com aquele mesmo corte, pois está na moda. É um corte de cabelo que te dá e que precisa muita atitude”, declara.

OUTROS PASSOS

Dêmily também é uma das participantes do projeto Transcidadania, que leva a população de travestis e transexuais de volta à escola e oferece uma bolsa de incentivo. Aliás, uma das principais fontes de renda dela. Recentemente ela prestou vestibular para Direito na Faculdade Zumbi dos Palmares e foi aprovada com 93.2.

Agora, Dêmily pretende batalhar para conseguir uma bolsa para continuar os estudos. “Me apaixonei pelo Direito depois de me tornar ativista. Hoje, ainda não sei se quero ser uma delegada ou uma juíza, quem sabe? E se eu conseguir chegar nessa área, vou lutar muito pela nossa população. Mas eu vou lutar com o diploma na mão”, declarou.


Antes de ser cabeleireira, Dêmily chegou a ficar seis anos em um convento de frades. Ela chegou aos 20, após ter uma forte presença em atos religiosos e receber o convite de um amigo que morava em Brasília e que a incentivou a entrar. "Estudei Filosofia e fiz dois anos de Teologia. Aprendi bastante coisas, conheci muita gente”, declarou.

Ela disse que sempre se percebeu mulher, porém a transexualidade não era muito debatida naquele período. “Tanto que não via outras trans lá no convento, só tinha gays e padres que se namoravam – ainda assim tudo bem escondido”, declarou. Após sair, assumiu a sua verdadeira identidade e enfrentou a transfobia no ambiente familiar e social. “Tive que me especializar para ser cabeleireira. Já pensou se eu tivesse virado padre? (risos)".

SOU TRANS E QUERO DIGNIDADE E RESPEITO

Engajada na militância, Dêmily vem acompanhando os dilemas e desafios que a população trans enfrenta. Segundo ela, uma das principais medidas a ser conquistada é a facilitação para a retificação de nome e gênero/sexo dos documentos. E também em investir em ações contra a transfobia.

“Mudar o nome já é meio caminho andado, mas não é tudo. Porque, como eu já disse, eu mesma tenho o nome retificado e já passei por situações de transfobia. De chegar em um lugar e a pessoa, mesmo vendo o nome Dêmily no documento, perguntar qual é o ‘meu nome de verdade’. Ou dela olhar e se assustar ao ver o documento com o nome feminino”, conta. Nestes casos, Dêmily aconselha reivindicar os seus direitos.

Hoje, o maior sonho dela é viver e constituir a sua própria família e "resgatar tudo que me foi roubado por essa mentalidade hostil, intolerante e que é capaz de tirar o direito de poder usufruir o convívio de nossas famílias”, revela. “Poderia falar que meu sonho seria trabalhar naquilo que amo, que é o ramo da beleza, mas isso não é sonho. É direito meu, que está sendo negado”, diz.

Assista a um corte exclusivo de Dêmily para o NLUCON:



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About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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