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Heymilly Maynard diz que transfobia afasta população trans de datas comemorativas em família


Por Neto Lucon
Foto: Wallace Fontenele
Diretamente de Recife a convite do Recifest

Um novo ano se aproxima e muitas pessoas começam a planejar as festividades em família: Natal, Ano Novo... Mas o que era para ser um momento de celebração e união, acaba resvalando em laços rompidos pelo desconforto e de relações familiares marcadas pelo preconceito.

Ali, ainda que brindem pela paz, pela família e pelo amor, a sua presença não é bem-vinda. E o motivo é a transfobia. Esta é a realidade de muitas mulheres transexuais, travestis, homens trans, n-b e outras transgeneridades em todo o Brasil.

A militante transexual Heymilly Maynard, de 24 anos, por exemplo, não sabe o que é ter comemorações festivas, como aniversário, Dia das Mães, Natal e Ano Novo em família há três anos. E revela dentre outros assuntos a hipocrisia e, de acordo com ela, a desumanidade de quem diz defender a “família tradicional brasileira”.

Formada em Turismo pela Faculdade Mauricio de Nassau, Heymilly é coordenadora da NATRAPE – Associação de travestis e transexuais de Pernambuco – e também filiada à Rede Trans. Ela conversou com o NLUCON durante o 4º Recifest – Festival de Cinema da Diversidade Sexual e de Gênero, em novembro deste ano em Pernambuco, e fez grandes e importantes revelações.

- Muitas pessoas me cobram para falar sobre a realidade da população de travestis, mulheres transexuais e homens trans de outros estados. Já que estou aqui em Recife, pergunto: qual é a realidade de uma pessoa trans aqui em Pernambuco?

O nordeste no geral ainda é muito conservador e é aquele conservadorismo de tradição. Aqui em Pernambuco, temos a capital, o agreste e depois o sertão. Então, temos demandas diferentes de outros estados. Eu, por exemplo, vim de uma família criada no campo e meu pai imaginava que eu me tornasse um vaqueiro, que fosse de vaquejada, que criasse cavalo. Quando revelei que sou mulher transexual, eu rompi barreiras.

- Você rompeu barreiras e foi acolhida?

Não, eu rompi barreiras e sofri uma série de violações...

- Tudo bem falar sobre isso? Como você se entendeu uma mulher transexual?

De parte de mãe, sou a filha mais velha e tenho um irmão mais novo. De parte de pai, eu tenho várias irmãs e irmãos, porque o meu pai era muito raparigueiro, então, isso já diz tudo. Descobri minha identidade de gênero aos quatro anos, quando fui urinar acocorada (agachada), igual a uma menina (cis), e minha mãe viu e me agrediu. Teve uma vez que ela me viu fazendo xixi assim e jogou formiga debaixo para eu levantar. Dizia: “menino tem que mijar em pé, bota o negócio pra fora e mija em pé”. Eu dizia: Mas mãe, eu não gosto... “Mas tem que ser assim”. Então durante um bom tempo, pela questão tradicional e cultural da minha família, do meu pai, eu vivi oprimida. Até que chegou um ponto que eu disse: “Não consigo mais viver nesse espaço de opressão, eu tenho que me libertar. Eu tenho que ser quem eu sou”.



- Você teve alguma referência de mulher transexual ou travesti durante esse período?

A primeira referência que tive foi com a Roberta Close no Programa do Ratinho, no SBT. E também no Programa do Gugu, quando ele levou uma transexual que eu não me recordo agora. Aqui em Pernambuco acabei tendo contato com algumas amigas mulheres travestis, apesar de me reconhecer como mulher transexual.

- E como foi dialogar dentro desse cenário conservador?

Com 17 anos eu me assumi para a minha família. E surgiram as violações. Foram físicas, verbais e psicológicas. Hoje em dia eu moro sozinha já tem um ano, mas não tenho mais contato com a minha família. Não tenho mais laço familiar com tia, com vó... Eu moro sozinha e só tenho visto a minha mãe uma vez por mês. Ela vem escondida da família, que não sabe que ela vem me visitar, por uma questão de desonra mesmo. O meu pai não quer saber de mim e nem saber que eu existo. Se eu fosse gay e tivesse a imagem masculina ele me aceitava. Mas pela minha identidade de gênero feminina e de ter assumido ela ele acha que é uma desonra e não quer mais contato.

- Há maior aceitação do homem cis homossexual que com a travesti ou a mulher transexual, é isso?

Boa parte do nordeste diz muito esse ditado: se você fosse homem masculino ou usasse roupa de homem eu até te aceitaria, mas se usar roupa de mulher aqui você não é bem vida, não. Não estou dizendo que gays não sofrem preconceito, pois sabemos que sofrem também, só estou dizendo o que eu escuto. Para mim, esse é um pensamento muito desumano. Deixar de reconhecer uma pessoa que está no seu vínculo familiar pelo simples fato de ter preconceito? Excluir uma pessoa que conhece desde criança por falta de informação sobre o que ela é? Isso é desumano. 

- Como é comemorar o Natal, uma data em que muita gente passa com a família, para você?

É a parte mais difícil para mim. Todos os anos eu choro bastante por esse rompimento motivado pelo preconceito deles. Não só no Natal, mas também no Ano Novo, no Dia das Mães, que eu não posso ter contato com a minha mãe. Aniversário também já passei sozinha. São coisas que ainda me chocam, mas que ao mesmo tempo eu tento me superar e entender que eu não sou a única a passar por isso. Eu tenho várias amigas que passaram por isso aos 12 anos, que foram estupradas na rua, que a família nunca entendeu e que até hoje não entende. Isso continua acontecendo até hoje e é muito triste saber que a falta de amor acaba prevalecendo nas casas. Eu tento superar, mas é bem difícil, porque as lágrimas e o sofrimento aparecem. O sofrimento lá de dentro acaba sendo bem maior.

- Como você pretende passar esse ano o Natal e a virada do ano?

Neste ano devo passar dormindo ou com amigos. Ainda não sei.



- Você namora?

Acho que sou até misândrica (risos). Estou brincando. Mas pelo que eu já sofri na vida, não consigo sentir o afeto dos homens. Pelo fato de ter sido criada por um pai muito machista, que agrediu muito a minha mãe, eu até hoje nunca tive relação com um companheiro. Isso me trouxe uma repulsa de ter alguém como companheiro. Eu até converso, tento, mas daí penso nos traumas que tive na infância e prefiro evitar. Eu sou heterossexual e não me descobri lésbica ou bissexual. Quem sabe, né?

- O que a gente precisa falar sobre as travestis e mulheres transexuais que a sociedade ainda precisa saber?

Que eles precisam reconhecer a nossa identidade de gênero. Que não somos homens que se vestem de mulheres, que não somos pessoas que se vestem dessa forma para atrair mais homens, que não somos pessoas que nos vestimos assim porque queremos ganhar dinheiro fácil – até porque não é um dinheiro fácil. Nós simplesmente somos essa pessoa que você está vendo: mulheres travestis, mulheres transexuais e homens trans.

- Estou começando a escutar falar “mulher travesti” com o “mulher” na frente. Quando e como rolou essa mudança? Conheço inúmeras travestis que querem ser definidas apenas como travestis...

No 1º Workshop Nacional da Rede Trans, em 2015, ocorreu uma definição de como utilizaria o termo: se falaria mulher travesti ou se falaria somente travesti. Mas como muitas vezes no movimento feminista há uma visão excludente e de opressão de não reconhecer a travesti como mulher chegou-se numa definição em assembleia para reconhecer a travesti como mulher travesti. É baseado no reconhecimento da identidade de gênero feminina delas.

- Mas estou falando besteira quando digo que tem muitas travestis rejeitam essa definição?

Tem muitas que questionam, sim, principalmente aqui no nordeste. “Não, não tem nada de mulher travesti, sou travesti e pronto”. A gente respeita a individualidade de cada uma, claro. Mas existe um porquê da Rede Trans colocar o mulher na frente.

- Uma das formas de você ter sobrevivido a todas essas adversidades e preconceitos foi ter entrado para a militância?

Com certeza. Ela transformou a minha vida e me deixou renovada para tentar mudar o padrão preconceituoso que as pessoas vivem. Até mesmo para trazer essas pessoas à luta, para unificar e chegar mais próximo à diversidade e ao respeito. A militância chegou até mim em 2012, e na época eu era uma pessoa que só militava na internet. Mas após escutar pessoas com mais de 80 anos, inclusive que a transfobia já levou, me fez despertar e a lutar na vida.

- O que elas falavam?

A Flávia, que tinha 78 anos, certa vez me disse: “Eu vou morrer e nunca vou entrar no banheiro feminino de um shopping”. Aquilo me fez despertar: “será que não vai mesmo?”. Infelizmente ela se foi vítima de câncer, mas hoje eu vejo que muitas meninas conseguem entrar e usar o banheiro feminino do shopping. Então, eu vejo que a militância ajuda a transformar. Até pouco tempo as meninas eram apedrejadas na rua, levavam tomatadas na feira e a única visão que você poderia ter de uma travesti no centro da cidade era de noite. Então eu vejo que as meninas estão lutando para mudar essa realidade. Às vezes eu escuto uma gracinha onde eu moro, daí volto e bato de frente. E as pessoas se calam.



- Hoje, você é coordenadora geral da NATRAPE – Associação de travestis e transexuais de Pernambuco. Como está sendo esta experiência?

A NATRAP foi criada em 2013 e no ano de 2014 eu tomei posse da direção. Estamos lutando por um estado de Pernambuco melhor, mais acessível e incluso da população trans. Porque vemos ainda um número restrito de meninas que ocupam a universidade, por exemplo. Nos últimos dois anos, esse número vem aumentando significativamente. Mas ainda existe esta dificuldade. Tenho amigas minhas que de manhã vão para a faculdade, de tarde vão para o estágio e de noite se mantém da avenida. É uma dificuldade muito grande dessas meninas estarem em um lugar que seja realmente acolhedor. Muitas chegam a desistir do seu curso porque não conseguem se manter nessa rotina.

- Como é a relação ao mercado de trabalho aqui para a população trans?

A sorte vai para cada uma. Há oportunidades em multinacional, supermercado, call center, mas não tão acessíveis para a gente que é trans. Eu, por exemplo, estou há um ano desempregada. Eu trabalhava numa empresa de call center, sou formada em turismo e durante esse um ano venho buscando outras alternativas de emprego. Sinceramente, não estou psicologicamente preparada para lutar mais uma vez pelo nome social, pelo uso do nome no banheiro e pela maneira que quero ser tratada nas empresas. Sinceramente, não tenho mais psicológico neste momento para comprar essas brigas por respeito a minha identidade. Hoje eu me coloco como profissional do sexo, não pela questão de falta de oportunidade, mas por ainda não tem uma empresa realmente acessível para eu trabalhar.

- Quais são os principais direitos que a população trans deve ir atrás?

O principal foco do movimento trans e do movimento LGBT é uma lei a nível estadual que seja proibida qualquer discriminação por orientação sexual ou identidade de gênero. Temos uma que fala somente no município de Recife, então no Estado de Pernambuco. Então, se alguma menina sofrer transfobia lá no sertão ela não tem a quem recorrer na prefeitura local. Então ela tem que fazer a denúncia para o disque 100 e tentar dialogar com a delegacia local. É uma burocracia muito grande, que se torna ao mesmo tempo lenta. Comparando com ações de outros estados, sinto que algumas meninas ficam perdidas: “isso não acontece aqui, mas acontece lá”. Por exemplo, não temos um centro de acolhimento ou um projeto como o Transcidadania por aqui, e seria muito bom que tivesse.

- Sempre que falamos sobre prostituição na região nordeste surgem as denúncias de exploração e tráfico de pessoas. Isso ainda ocorre hoje?

Principalmente a questão do tráfico de pessoas que ainda existe muito, principalmente aqui no nordeste que serve de ponto principal de cafetinas do sul do país. Elas pegam meninas daqui com a ilusão de seguir para a Europa, com a ilusão de oportunidades. Há pessoas do interior, que muitas vezes são homens gays cis, que foram expulsos de casa por sua orientação sexual e que quando chegam na capital tem a sua mente deturpada para colocar prótese ou silicone, achando que aquilo ali é temporário. Mas que aquilo ali traz a obrigação de pagar a cafetina e de ficar presa a ela. São pessoas que tiveram a sua alma retirada, porque não possuem a sua verdadeira identidade de gênero e que usam a aquilo para se manter. E não só se manter, mas também para manter a cafetina.

- É uma realidade isso mesmo?

É uma realidade. A gente vai para a BR e conhece meninas que estão lá se prostituindo por 5 ou por 10 reais só para pagar o pão e o ovo para comer e o restante pagar para a cafetina, que dá um lugar para ele morar. Isso continua acontecendo, mas quem vai se preocupar?

- Diante disso que me falou, qual é a sua opinião sobre a prostituição?

O problema não é a prostituição. O problema é o preconceito e o tabu em cima da prostituição, do sexo e em cima da travesti ou da transexual que está na prostituição. Como é algo que as pessoas não reconhecem, não querem falar e não se importam, estamos sujeitas a tudo. Minha opinião é que ela seja regularizada e que seja formal como profissão. Regularizando ajudaria muito a acabar com esse tipo de prática, porque tudo isso seria mais discutido. Entendo que muitas estão nessa profissão porque foi imposta. E outras querem seguir esse caminho e que tem orgulho de exercer essa profissão. Que ela seja feita apenas por quem quer.




- Quando você era pequena, qual era o seu sonho?

Não só de construir a minha felicidade, mas de ser feliz naquilo que eu sou. E isso foi tirado de mim. Apesar de ser o que eu sou hoje e de ser uma pessoa formada, eu não tive um sonho completo como as outras pessoas (cis). O sonho de exercer a profissão feliz e de ser reconhecida igualmente como qualquer outra pessoa.

- E qual é o seu sonho hoje?

Para 2017, primeiramente Fora Temer... E espero que os caminhos estejam abertos. Pretendo cursar ciências sociais E penso um estado do Pernambuco mais acessível para pessoas trans, que a gente seja mais respeitada, valorizada, que a gente possa ter uma luta do movimento trans a nível Brasil. Eu vejo o movimento, mas que ele não é unido. Aliás, acho que a gente deve se unir com vários movimentos, negro, com deficiência, LGBT, todos os movimentos que são vistos como minoria que realmente se abraçasse e lutasse para que leis em prol dos nossos direitos fossem aprovadas.

- Gostaria de deixar algum recado para as meninas?

Eu acredito realmente que o movimento trans deve se unir e lutar na base, unificar a nossa força e a nossa população. E chegar no nosso país como um todo. Vendo o que vem acontecendo na política só podemos esperar o retrocesso. Então é mais importante que nunca que a gente se ajude e se fortaleça.

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