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Mais da metade dos assassinatos transfóbicos são contra profissionais do sexo, diz pesquisa


Por Neto Lucon

A pesquisa da ong internacional Transgender Europe, que aponta que o Brasil é o país que mais mata travestis, transexuais e outras transgeneridades no mundo (leia aqui), também trouxe outro dado: as profissionais do sexo são o principal alvo dos ataques fatais por transfobia.

De acordo com o levantamento mundial de 2008 a 2016, mais da metade dos 2264 casos ocorreram contra profissionais do sexo. Ou seja, das vítimas cuja profissão foi divulgada, 541 eram trabalhadoras sexuais (64,32% dos casos e quase seis vezes a mais que a segunda profissão da lista).

Em 2015, pelo menos 73 travestis profissionais do sexo foram assassinadas. Em 2016, são 42 casos até o último levantamento divulgado.

As outras profissões são cabeleireira/estilista (86 casos), artista (34), ativista (25), funcionária/empregada (25), garçonete (18), comerciante (17), dona de bar/loja, salão (13), líder religiosa (9), governante/limpadora (8), outra (65). E 1423 assassinatos não teve a profissão divulgada.

A rua é o lugar onde mais ocorre a violência fatal transfóbica: correspondendo 630 casos. É seguida de residência (335), área rural (106), estrada (68), praia (45), hotel/motel/drive (44), parque/praça (44), veículo (41), edifício abandonado (41), bar/restaurante/boate (25), residência de outros (20), salão de beleza (19), prisão/delegacia (12), estação de trem (10), outra (87). E 737 casos não teve o local divulgado.



O dados trazem a tona a necessidade dos movimentos sociais e governantes em se atentarem mais do que nunca para as travestis e mulheres transexuais  que trabalham como profissionais do sexo, que correspondem a mais de 90%, de acordo com a ANTRA, seja por imposição ou escolha. Nela, estão sujeitas à vulnerabilidade, exposição, violência policial, exclusão, falta de segurança, o preconceito da própria sociedade sobre sua identidade de gênero e também da profissão que exercem...


Segundo a profissional do sexo e vereadora suplente no Rio de Janeiro, Indianara Siqueira a violência ocorre porque o "mundo da prostituição é um mundo estigmatizado como marginal, considerado ilegal, mesmo que a prostituição não seja". "Então todas as violências que as pessoas transvestigeneres* sofrem na sociedade, quando essas pessoas se prostituem esse risco aumenta e a violência é acentuada".

Para Indianara, o alto índice de pessoas trans assassinadas é um reflexo da LGBTIQfobia e da falta de opções de trabalho formal. E na prostituição, na falta de locais seguros. "Inclusive no meio da prostituição sofremos violência do próprio meio, que também nos violenta. Nas ruas, muitos seguranças e policiais permitem a permanência de mulheres cis se prostituindo, mas não a de transvestigeneres". 


"A violência sobre mulheres cis prostitutitas nada mais é que um reflexo de uma sociedade violenta que pratica essa violência sobre as mulheres fora da prostituição. Muitas sofrem a violência de companheiros e ex-companheiros. Temos, sim, mulheres cis que sofrem violência na prostituição ou são assassinadas. Mas o número é bem menor que o que temos na violência contra as mulheres cis que não se prostituem. Com as transvestigeneres isso se inverte", declara. 

Ela concorda que as mortes são facilitadas pela falta de segurança, exposição, violência policial e falta de lugares seguros para se prostituir. "Isso seria menor se pudéssemos como as mulheres cis nos prostituirmos em bares, boates, thermas, puteiros... Na Vila Mimosa, por exemplo, é proibida a prostituição de transvestigeneres ostensivamente. Tem algumas escondidas, mas se você pergunta para os seguranças e donos dos puteiros, eles dizem que não podem e não têm, só aquelas que adquirem o direito por antiguidade ou amizade".

MAIORES VÍTIMAS SÃO DE 20 A 29 ANOS

A pesquisa também mostra a idade das vítimas. A maior parte teve entre 20 e 29 anos, correspondendo 46% dos casos. De 30 a 39 são 29%. Menores de 20 anos são 11%, assim como as vítimas de 40-49 anos. De 50 a 59 anos são 3%. E acima de 60 anos, 1%.

Esse dado ajuda a entender o motivo de travestis e transexuais terem a expectativa de vida estimada em 35 anos.


A maioria das mortes ocorrem por tiro (832), esfaqueamento (458), espancamento (239), estrangulamento (93), apedrejamento (52), degolamento (37), asfixia/intoxicação por fumaça (33), corte na garganta (30), tortura (30), queimaduras (29), atropelamento por veículos (27), outra (31) e não reportada (373).

DADOS SERVEM PARA SUBSIDIAR COBRANÇAS

Muito mais que apenas números, esses dados servem de subsídio para que o movimento de travestis, mulheres transexuais e homens trans entendam as demandas, denunciem a violência transfóbica e também cobrem das autoridades ações de combate ao preconceito e a violência que essa população sofre.

"Já cansamos de ir a reuniões, conferências, congressos e posar para foto com político. Eles já sabem qual é a cara de uma travesti e nada acontece. Agora a gente quer que alguma coisa seja realmente feita contra essa violência. E, para isso, precisamos de números que não tínhamos. Com esses dados mapeados a gente terá subsídio para fazer a cobrança. Mostramos esses números, damos um choque de realidade e colocamos a responsabilidade nas mãos deles", declarou Tathiane Araújo, presidenta da Rede Trans, que ajuda a Transgender Europe a mapear os casos no Brasil. 


A professora e militante travesti Sayonara Nogueira, que auxilia no levantamento de dados por meio de reportagens que saem na mídia e redes sociais, diz que no fim de 2016 será feito um relatório final em que vai “cobrar dos organismos internacionais uma intervenção dentro do país, já que nada é feito pelos governantes brasileiros”.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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