Header Ads

Transserviços

“Não devemos nos esconder no CIStema”, diz estudante trans Dante Olivier


Por Neto Lucon
Diretamente de Recife, a convite do Recifest

Dante Olivier, 20 anos, é estudante de Artes Visuais da Universidade Federal de Pernambuco, militante homem trans e estrela do premiado curta-metragem “Transexualidade Masculina”, de Bianca Pereira, Emannuel Bento, Lúcio Souza e Giselle Cahú.

A obra foi eleita pelo público o “melhor curta pernambucano” e ganhou menção honrosa do júri oficial na quarta edição do Recifest, Festival da Diversidade Sexual e de Gênero, que ocorreu no último mês, em Recife.
"Penso nos homens trans que
estão por vir"

A vitória se dá sobretudo pelo tema e pela escolha de Dante como personagem, que havia acabado de se revelar homem trans. E que, cheio de sinceridade e carisma,  fala sobre sua trajetória e diz intuitivamente as pelejas e bandeiras que iria levantar e enfrentar.

Contou, por exemplo, sobre o apoio do pai ao conversar com a família. “A minha mãe começou a chorar e a dizer: ‘eu tive uma filha menina’. E o meu pai olhou para ela e disse: ‘A gente nunca teve uma filha menina’. Isso para mim foi incrível”.

O NLUCON conversou com ele logo após a exibição do filme:

- Você gravou esse curta antes de iniciar o processo transexualizador e, hoje, está bastante diferente aqui no Recifest. Você se reconhece na obra?

Eu me reconheço, mas é como se visse uma fase que passei. É como se tivesse vendo uma foto de criança ou de adolescente. E é engraçado porque não faz nem um ano. Atualmente estou fazendo vídeos todos os meses para notar as mudanças que estão ocorrendo com o meu corpo. Eu estou gravando e quando completar um ano daí eu lanço no Youtube. Ainda não tinha me visto falando antes de tomar hormônio, então eu vejo e penso: “Meu Deus, minha voz!”, “Meu Deus, meu discurso”, “Meu Deus, meu ombro”.

- Você percebe que algumas das coisas que você falou no curta no início da transição realmente estão acontecendo? 

É curioso porque vejo que, sim, muitas coisas que eu achava que aconteceria realmente vem acontecendo comigo. Tipo, os pelinhos faciais nascendo e eu comemorando. Todos os dias eu vou ao banheiro, acendo a luz e fico: “nasceu um” (risos). Em relação ao pensamento e o discurso, vejo que estou amadurecendo e tendo mais propriedade para falar. Eu poderia falar aquele mesmo conteúdo que falei, mas dizendo de outra maneira.


- Como foi se ver na telona do Cinema São Luiz e em um curta que foi premiado pelo público?

É incrível e bem estranho. Eu vim para o cinema pensando que a minha cara estaria lá enorme na tela por 20 minutos. Mas é tão louco que ao mesmo tempo em que eu estava muito nervoso eu também estava querendo. Medo de ter falado algumas coisas erradas para um público tão grande. E com vontade porque é importante que a gente tenha um trabalho que representasse os homens trans. Fiquei bem impressionado com a premiação porque havia outros docs incríveis e curtas muito lindos. Não querendo desmerecer o trabalho que participei, mas a gente não espera esse retorno. Foi uma empolgação muito grande, difícil de expressar. Mas eu queria me expor, tirar cada vez mais os homens trans da invisibilidade. E foi um passo importante.

- Por falar em filmes, tem algum com temática trans que tenha te tocado?

Acredito que ainda carecemos de representatividade nas obras. Nós homens trans, de modo geral, carecemos. Mas um filme que me marcou muito foi Tomboy (drama francês de 2011 escrito e dirigido por Céline Sciamma, que conta a história de uma criança designada mulher ao nascer, mas que se identifica com o gênero masculino e afirma se chamar Mickael para os amigos). Vi minha infância ali e isso bateu forte em mim.


- Em sua opinião, qual é a bandeira que os homens trans devem levantar atualmente?

A gente precisa levantar algumas bandeiras ainda. Mas atualmente a principal é a da nossa existência. Tenho amigos e conheço outros homens trans que depois que começam a terapia hormonal, que depois que as pessoas param de apontar eles na rua, que depois que mudam o nome, eles param de militar. Param de dizer que são homens trans ou de deixar isso transparecer. Eles se escondem no CIStema. E a gente não pode deixar isso acontecer, porque isso nos invisibiliza, prejudica a luta e as novas gerações.

- Você acha que daqui uns cinco anos você não vai pedir para eu apagar essa entrevista?

Não vou pedir para você apagar. Posso até falar: “Meu Deus, como eu estava falando feio”, mas não vou pedir para você apagar (risos). Eu posso estar barbado, posso estar com a voz grossa, mas tenho que sempre lutar pelos direitos dos homens trans. Porque depois de mim vem outros caras. E eu já estive na situação daqueles outros caras no início da transição e eu fiquei totalmente perdido sem saber se era possível ser quem eu quero ser.

- Você disse no filme que suas primeiras referências foram Tereza Brant, Thammy Miranda e que precisava ler o livro "Viagem Solitária", de João Nery. Chegou a ler o livro?

(risos). Ainda não li, mas porque a faculdade ainda não me permitiu. Mas eu já comprei o livro, foi um passo. Agora falta ler. Ah! E é importante dizer que depois do curta eu fui entrando na militância também, fui tendo contato com mulheres trans e com esse mundo. Fui me fortalecendo e conhecendo mais.


- Como se dá a sua militância?

Ela é mais individual. Eu vou para algumas reuniões do Ibrat (Instituto Brasileiro de Transmasculinidades), mas ainda eu não consegui me conectar com eles. Não é um problema dos meninos, que são muito legais, mas ainda não consegui me encaixar dentro do instituto, dentro da forma institucionalizada deles militar. Enquanto isso, vou construindo a minha militância. Converso muito com as pessoas. Também já fui chamado para falar em universidades, para em outros documentários e também fiz um bazar.

- Conta como foi o bazar...

Fiz em janeiro, quando quis vender as minhas roupas antigas femininas para comprar um guarda-roupa novo. Foi muito bacana e me ajudou muito. Agora, estou querendo fazer de novo. Mas a grana que eu levantar agora não vai ser mais para mim. Será para outros caras trans, que foram expulsos de casa e estão numa situação financeira muito difícil e eu quero ajudar muito nisso. Eu queria que esse TransBazar fosse dando certo, que virasse um evento anual e que todos os anos eu pudesse ajudar mais e mais gente.

- Querendo divulgar o TransBazar, conta com a gente! Tem algo que você queira acrescentar?

Gostaria de dizer que nós, homem trans ou transexual, também devemos levantar a bandeira do feminismo. Observo que muitas vezes os homens trans, até para se firmarem enquanto homens, reproduzem aqueles velhos machismos. Mas que devemos lembrar que a gente passa ou passou por tudo o que as mulheres cis passam, então sabemos de qual forma o machismo é prejudicial. Então, baseado em nossas próprias vivências, a gente tem que se levantar contra o machismo, em prol do feminismo e não deixar que essas opressões ocorram a mais ninguém. Até porque ninguém precisa ser machista para ser homem. Ao contrário...

Assista ao doc:

Nenhum comentário

Tecnologia do Blogger.