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Transserviços

“Precisamos falar sobre homens trans que trabalham como profissionais do sexo”


Por Neto Lucon

Estima-se que 3% dos homens trans já precisaram se prostituir. É o que diz a pesquisa “Os HomensTrans No Brasil: as políticas públicas e a luta pela afirmação de suas identidades”, de Roberto Maia, da Faculdade de psicologia Maurício de Nassau.

Em agosto de 2016, o homem trans R. entrou em contato com o NLUCON e comentou sobre a vontade particular de falar sobre a sua entrada na profissão do sexo. Ele era anunciado como a novidade de dois sites, planejava os próximos passos e queria servir de visibilidade ao tema.

Sabendo que se tratava de um assunto tabu, fizemos a entrevista pessoalmente em um parque de São Paulo, transcrevemos a gravação de quase duas horas na íntegra, mostramos a entrevista transcrita a R., que aprovou, e também aguardamos a aprovação das fotos tiradas para a matéria.

Aguardamos quatro meses até a publicação, perguntamos inúmeras vezes se R. tinha certeza de que queria a entrevista, mostrando o nome e o rosto. Ele confirmou antes, durante a entrevista e posteriormente, ao lê-la. Porém, quando estávamos prontos para publicá-la nesta terça-feira (27), R. afirmou que a namorada, uma mulher trans, estava fazendo um inferno ao saber da exposição.

É por esse motivo – e pelo trabalho realizado - que pela primeira vez na história trazemos uma entrevista sem nome ou rosto.

- Você disse para mim que homens trans precisam de voz para falar também sobre a profissão do sexo. Na sua opinião, o que é necessário falar?

Praticamente tudo, porque existe muita exclusão. Primeiro, a galera ainda não sabe nem o que é homem trans. Travesti e transexual todo mundo já ouviu falar há muitos anos. E homens trans começaram a falar agora, há uns três. Daí, quando a gente fala sobre um homem trans que trabalha como garoto de programa em um site de pessoas cis, bugou tudo. Mas apesar de as pessoas não conhecerem, esta é a minha realidade hoje em dia.

- Segundo a Antra, mais de 90% das travestis e mulheres transexuais estão na prostituição. A parte da militância briga para que não haja este estigma – que as pessoas trabalhem nesta área porque querem e não por imposição. Você não acha que falar sobre esse assunto vai dar brecha para que o estigma recaia sobre os homens trans?

Discordo, porque não falar ou jogar para debaixo do tapete não vai mudar nada. Antes, eu achava que fosse o único, mas vi no Facebook que vários já fizeram ou fazem. Até fiquei contente por saber que não era o único, mas ao mesmo tempo fiquei pensando se não estamos nessa profissão justamente porque o mercado de trabalho é fechado para nós.

- Então, você não está por opção, é por imposição também?

É por imposição. Tem gente que me envia mensagem dizendo: “você não precisa disso”. Mas por trás da minha carcaça só eu sei o quanto necessito e como essa é a forma que encontrei para ganhar dinheiro mais rápido. E é mais rápido, não mais fácil. Eu sou hétero e, imagina, como é deitar com um homem. Não é nada legal... Olha, Neto, eu não tenho ajuda da minha família. Então eu tenho que ganhar dinheiro de alguma forma. Aí eu arrumo emprego e, quando eu não sou registrado e descobrem que eu sou trans, mandam embora. E assim vai indo.

- Como você iniciou nesta profissão?

Foi por acaso. Eu tive um relacionamento aos 18 anos com uma garota de programa, mas eu não sabia que ela era. Com dois meses eu descobri e foi aquele impacto, porque eu sou de uma família tradicional, católica, em que o meu pai é maçom. Aí me separei, comecei a namorar uma trans e descobri que ela também trabalhava nessa área... E falei: “vou tentar, se você pode, eu também posso”.

- E daí foi procurar um site que traz anúncios?

Isso. Procurei o contato de um site e o dono achou muito legal, porque era novidade. Aliás, tudo o que é novidade nessa área atrai e cria curiosidade. E foi isso. O mais bacana foi que o dono do site disse que sabia a diferença de mulher trans e homem trans, sabia a diferença de orientação sexual e identidade de gênero... E ainda colocou o meu anúncio no primeiro mês de graça. Foi onde ele me ajudou, porque para anunciar num site você paga no mínimo 300 reais. Tem gente que paga 500, 600... Por enquanto, sou o único homem trans da página.

- Você anuncia em um site onde só homens cis procuram?

A maioria é, 89% é homem cis, mas também tem mulheres cis ou casais.

- Qual é o perfil?

Os homens sempre dizem que eu que eu reúno o útil ao agradável. E tem muitos que eu percebo que não se aceitam gays, então acabam se permitindo sair comigo. Eles falam: “Eu não consigo me aceitar, eu tento ficar com mulher, mas....”. E tem aqueles que me procuram pelo órgão genital. É o que eu falo: tem homens que gostam de homens, tem homens que gostam de genitais. E eu acho que a gente não pode fugir dessa realidade.

- Explica melhor...

Tem homem que gosta do gênero masculino, independente se ele tem um pinto pequeno, grande, médio ou se ele não tem um pênis. E já tem aquele que visa o que o cara tem no meio das pernas, seja uma vagina ou um pênis. É o que vejo no dia a dia, principalmente na prostituição... Mas falando do corpo do homem trans ele é visto como um fetiche. A galera fala: “é meu fetiche, sempre quis realizar”.

- Você consegue observar a diferença de um elogio para alguém que esteja te objetificando?

Tem pessoas que eu vejo que tem só curiosidade mesmo de sair comigo. Tem pessoas que acham super bacana e que dizem: “Você tem um corpo lindo, que lindo”, elogiando o meu corpo de uma maneira bem positiva, como se fosse uma arte. Mas também tem gente que fala “Estou de pau duro só de te ver com uma vagina e pelo no rosto”. Às vezes eu consigo diferenciar até pelo tom de voz no telefone.

- Como foi atender o primeiro cliente?

Fiquei roxo, verde... Não foi fácil. Eu já tive disforia com meu genital e, para mim, quando me envolvi com uma mulher trans, foi um processo de desconstrução. Deixei de ser machista, ainda sou, mas já fui mais. E daí pensei: “como vou deitar com um homem agora?”. O meu problema maior não é com o órgão genital, mas com os outros aspectos do meu corpo e do que poderia rolar. Foi terrível e, depois, fiquei me lavando, “não acredito que fiz isso”, “que nojo”. Mas pensei no dinheiro no momento, e priorizei aquilo que eu precisava.

- Do primeiro para o segundo cliente demorou quanto tempo?

Demorou uma semana para conseguir o primeiro, porque vieram uns caras que não me agradavam nem um pouco. Do tipo “esse cara eu não vou conseguir MESMO”.. Aí, demoraram uns dois dias para o segundo. Fui encarando mais de boa, mais tranquilamente... Quer dizer, ainda é pesado, é como se fosse o primeiro dia. Eu fico com vergonha, às vezes me dá dor de barriga, fico nervoso, apreensivo, fico olhando no olho mágico do apartamento para ver se o cara vai me agradar ou não. Eu priorizo o dinheiro. A minha namorada fala que tem gente que nasceu para a profissão, mas que tem gente que não nasceu com o dom. E eu acho que não tenho. Eu faço pelo dinheiro mesmo.

- Você chega a curtir? Entenda, eu sou jornalista e curto o meu trabalho, o que não seria nenhum problema se você curtisse também...

Mas não... Depois do hormônio eu não tenho mais orgasmo. Quer dizer, só se eu me tocar, coisa que eu não faço. Todo mundo pensa que eu sou ligado muito a sexo. Mas hoje é como se eu não tivesse libido. Eu tenho, mas não consigo ter orgasmo. Em relação ao meu corpo, eu estou aprendendo a lidar com ele, mas ao mesmo tempo eu não quero. Apenas tento aceitar para não cair em uma depressão ou ficar mal todos os dias. Eu tento levar a vida numa boa. Se hoje eu consegui lidar bem, então amanhã eu vou acordar e conseguir lidar bem também.

- Tem alguma história que tenha te marcado durante os programas?

Não tem história, mas tem o fato de eu me sentir muito diferenciado pelo fato de eu não ter tido nenhum transfóbico. Muita gente procurou se informar ao ver o anúncio antes de me procurar. Todos me respeitam, não me chamam de “ela” em momento algum, não indagou nada sobre meu corpo... Isso é que me fez continuar fazendo. Eu não tenho nenhuma cirurgia, não sei se passo pela passibilidade, porém estão me respeitando como tal. E tudo rola conforme o combinado. Eu não faço oral sem camisinha, por exemplo. Aliás, não transo sem camisinha, independente do dinheiro. Beijo na boca só se o cara tiver com bom hálito. Eu não vou me submeter a fazer coisas que eu não quero só porque o cara está me dando dinheiro.

- Já conversei com algumas travestis e mulheres transexuais que disseram que a prostituição ofereceu, além do dinheiro, autoestima e o reconhecimento pela identidade feminina. Isso de alguma forma rola com você?

Rola e isso inacreditavelmente me deixa bem. A gente está falando de corpos, eu odiava o meu corpo e agora estão pagando por ele. Então quer dizer que o meu corpo também é importante para alguém. É o ego, me diga qual ser humano não tem ego e que não precise ser elogiado?

- O que as pessoas precisam saber ao se envolver com um homem trans?

Que ele é uma pessoa e que não está preso ao estereótipo. Tem gente que diz: “ai, são mais românticos”. Claro que não, tem homem trans que é machista. Que veja a pessoa e não a identidade trans. Eu não fico indo nos lugares e me apresentando como homem trans, porque isso não tem a ver com as outras pessoas. Ninguém se apresenta ou se envolve assim.

- De alguma maneira a sua profissão mudou a sua sexualidade?

De nenhuma forma, só confirmou. Eu não gosto de homem. Mas tem gente que fala que eu me relaciono com uma mulher trans que têm um genital masculino... E? Ela tem pele de mulher, ela se comporta como a mulher que é, ela pensa como mulher, tem cheiro de mulher, tem o gênero feminino... Então ela é uma mulher e eu, que sou um homem, sou heterossexual por me relacionar com ela. Quanto ao trabalho, eu consigo separar o que sou no trabalho e o que sou na minha vida privada.

- Mudou muito a visão que você tinha antes da profissão do sexo para agora?

Muito. Olha, tudo o que eu falava não ia fazer estou fazendo. Não gostava de travesti e transexual, achava que era tudo um bando de gay montado, e hoje eu paguei com a minha língua. Sou totalmente apaixonado por uma. E a prostituição, eu achava que era tudo puta, desocupada... E hoje estou fazendo. Então eu acho que a prostituição e principalmente me envolver com meninas trans me deixou um ser humano muito melhor. Foi o que abriu a minha mente e tem me feito aprender muitas coisas, como a não aprender a julgar.

- Para onde acaba indo o dinheiro que você ganha?

É para me manter. Agora eu vou estudar, voltar para a faculdade, faz quatro meses que eu tranquei e vou voltar. E quero levar uma vida dita comum pela sociedade. Eu me vejo tirando o passaporte, viajando para fora do Brasil, quero morar fora, quero casar, quero ter um filho biológico com minha namorada.

- Você faria um filme erótico?

Não, porque o que você faz entre quatro paredes ninguém vê. Se a pessoa falar, a boca fala o que quiser, mas ninguém viu. Mas e o filme? Não sei se vou me arrepender daqui um ano ou dois ou um dia. E o filme já rodou. Eu também penso o que estou fazendo hoje daqui um ano. Se eu vou olhar para trás e discordar do que eu faço hoje, eu tenho enxergar além do que eu vivo hoje. E se eu tiver um filho daqui seis meses, o que vou falar para o moleque? Por dinheiro eu faria, não vou mentir. Tem gente que oferece 15 a 30 mil, mas dinheiro não compra tudo. A gente quer o dinheiro para se manter, não quer passar fome, quer se vestir bem, mas não é tudo.

- Você disse que teve muita disforia, mas pelas imagens que você posta aparenta que você sempre se entendeu muito bem com o seu corpo....

É que eu me desconstruí muito. Eu descobri a minha transexualidade aos 11 anos graças ao João Nery. E a minha mãe é muito jovem, ela tem hoje 39 anos, então estava envolvida em Orkut e MSN desde muito tempo. E foi ela que me ajudou. Tanto que ela diz que me enviou ao psicólogo com três ou quatro anos, porque eu fazia xixi em pé e dizia querer ser como os meus primos. Eu nunca tive uma boneca. Para falar que eu nunca tive, eu tive uma Polly. Então, ela sempre soube que eu era diferente, mas não entendia direito. Na cabeça dela era: “É lésbica, mas porque quer ser homem?”. E como eu só convivia com homem cis, isso me deixava disfórico.

- De qual maneira essa convivência incentivava a disforia? E o que mudou?

Eu pensava: por que todos faziam xixi em pé e eu não podia fazer? Por que eles podiam jogar sem camisa no futebol e eu, que joguei no profissional até os 16 anos, não podia? Por que eu tinha que jogar no feminino? Por que eu tinha que me aceitar daquele jeito se eu não queria ser daquele jeito? Então eu era muito disfórico e desconfortável com o meu corpo. Então quando eu me envolvi com a minha ex, que é trans, foi quando eu me desconstruí totalmente. Foi onde eu conheci o mundo da militância, rodas de conversas, comecei a ler... Foi quando vi que garotos como eu também se envolviam com uma pessoa trans e também se tornam uma pessoa melhor. Então isso me desconstruiu e vem me desconstruindo muito. Essa é a segunda pessoa que eu estou que é trans. Apesar de eu me olhar no espelho e pensar: “Ainda não estou do jeito que eu quero”, estou contente. Eu estou aqui no mundo para tentar ser uma pessoa melhor, apesar de já ter dado mancada muita galera já.

- Os homens trans Buck Angel e Victor Belmont, que são ícones do pornô, têm corpos dentro daquele padrão imposto... Você também tenta buscar esse padrão?

Não vou mentir, eu tento. Estou fazendo academia há um mês, tento não tomar ou comer muita besteira. Antes eu não tinha esse anseio, só não queria ter o peito e a vagina. Agora eu já penso em ficar forte e tal. Continuo não querendo ter o peito e o genital, mas consigo lidar no meu dia a dia. Quero entrar nesse padrão porque eu sei que isso vai diminuir o meu peito. Hoje algumas pessoas falam que não buscam a passabilidade, mas a gente sabe que quando consegue a passabilidade você consegue respeito ou pelo menos não sofrer preconceito. Eu não vou ser hipócrita contigo e dizer que não quero ser passável. Eu quero. Cortei o meu cabelo de 11 para 12 anos, eu sempre me vesti como um gurizinho. Sempre fui muito passável desde que eu não abrisse a boca. Hoje em dia é mais tranquilo. As pessoas sempre perguntam: “Você é gay, né?”. Eu tiro onde, mas eu prefiro ser chamado de gay que de lésbica, pelo menos estou sendo encarado como homem.

- A família sabe da sua profissão?

Nem sonha. O meu pai é muito machista, acha que eu sou uma mulher e a minha namorada um homem, e que se era para eu ficar com um homem que ficasse com um “homem de verdade”. Com a minha mãe tem alguma aceitação de eu ser homem trans, mas na última briga que tivemos ela disse: “Não suporto ouvir a voz dele, não sei se é voz de homem ou de mulher”. Ok, não falei mais com ela nem por áudio ou pessoalmente. Faz três meses que eu não mando um áudio para a minha mãe. Só whatzapp que eu falo.

- Mas como você acha que ela vai lidar ao ler essa entrevista?

Como eu disse, eles não me dão nada. Eu acho que a gente só pode optar por dar palpite na vida de alguém se a gente te ajuda de alguma forma. “Tô aqui um gole de café e um pedaço de pão, estou te ajudando”. Ela vai optar na minha vida por qual motivo? Vai me ajudar? Se for me ajudar, eu estou total aberto... Caso contrário, eu tenho que me virar com o meu esforço, eu preciso comer, eu preciso me vestir, eu preciso tomar banho, eu preciso ser gente.

- Durante o seu namoro com uma mulher trans, você chegou a ir ao programa Superpop, da RedeTV!. O que achou dessa experiência?

Super me arrependo da primeira participação. Não pelo dinheiro, mas por ter ficado com medo de me impor. Me deixei levar pela inexperiência. A Luciana Gimenez falou: “dá um passo para frente quem é mulher”. E eu dei. Porra, eu não sou mulher, porque fui dar um passo para frente? Eu sou R. masculino, sou homem. Mas aquele monte de câmera, plateia, tudo junto me intimidou. Cheguei em casa chorando. Daí fui convidado pela segunda vez e fui procurando todas as pessoas que me ajudassem com informação. E daí nós já rebatíamos essas questões transfóbicas. Quando a Luciana perguntou, por exemplo, se eu seria mãe, caso gerasse um filho, a ex questionou: “por que mãe, se ele se vê como homem? Ele é o pai”. Enfim, é um programa sensacionalista, que não tem a intenção de explicar. É só sensacionalismo. E a Luciana não tem nada de ignorante. Ela é bem inteligente e sabe o que está fazendo.

- Se convidassem hoje para falar sobre o seu trabalho como profissional do sexo, você iria?

Puts, não sei. E a minha família? Eu não ligo, mas eu amo a minha mãe. Não quero decepcioná-la.

- R., eu entendo, claro... E é por isso que pergunto se você tem certeza dessa entrevista...

Não vou pedir para você apagar. Estou falando contigo porque eu te vejo um cara que apoia a causa LGBT, que ajuda as mulheres e homens trans, a galera gosta de você. Então, é diferente de ir em um programa sensacionalista, que vai me dar de 500 a mil reais, sendo que programa vai faturar um monte em cima do sensacionalismo. Bem, não vou me arrepender. Homens trans existem. Homens trans que trabalham como profissionais do sexo existem. E acho que a gente tem que estar aberto para falar, e não tapar o sol com a peneira.

Um comentário

Rafael Araujo disse...

Mto boa a entrevista. Outro dia tava até me questionando como é a vida dos homens trans, pq as mulheres trans a gnt sabe que acabam aderindo a prostituição por falta de oportunidade. Mas estava na dúvida se os homens trans recebiam mais apoio e menos preconceito por eu n ter ouvido falar, até então, deles envolvidos na prostituição.

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