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Facebook ainda desrespeita nome social da população trans; petição quer mudar


Por Neto Lucon

O grupo Transdivrsidade Niterói promove um novo abaixo-assinado sobre a problemática de o Facebook não respeitar o uso do nome social de todas as pessoas trans (travestis, mulheres transexuais, homens trans, n-b...) em seus perfis. Ele ocorre no site AVAAZ (clique aqui ).

Bruna Benevides afirma que, apesar de a rede recentemente dar opções para o usuário definir a sua identidade de gênero, várias pessoas trans tiveram e continuam tendo problemas em continuar com o seu nome social na rede e sendo obrigadas a ter o nome de registro. Após denúncias anônimas, o Facebook pede a comprovação do documento e exige a troca pelo nome de registro.
Print cedido com a autorização de Cris

Entende‐se por nome social aquele pelo qual essas cidadãs travestis, mulheres transexuais, e cidadãos homens trans e pessoas transgeneras, se identificam e são reconhecidas pela sociedade. Expor o nome de registro pode gerar constrangimento e motivar outros preconceitos.

A cabeleireira Cris Calack entrou no Facebook com o nome Cristiany Kiffer. Certo dia, viu seu perfil bloqueado com uma mensagem de que recebeu uma denúncia por "falsidade ideológica."Pediram minha identidade para provar e eu relatei que sou trans e que seria um constrangimento que colocassem meu nome do RG no perfil. Não adiantou, quando o perfil voltou foi com o nome da identidade".

Como Cris tinha o Facebook há vários anos, tentou ficar com ele com o nome de registro e tentar mudar o nome para o social. "Disseram apenas que eu poderia usar Cristiany como apelido". Ela disse que toda a experiência na rede social foi horrível, "É difícil expor o nome de registro pelos constrangimentos que passamos. Vê-lo no Face é muito triste. Conheci um rapaz, namoramos e ele tinha vergonha dessa situação no Facebook, e isso me desequilibrou. Então cansei de olhar para aquele perfil e fiz outro, porque essa sou eu Cristiany".


Pediram os documentos e, quando viu,
era o nome de registro que estava no Face
Outros casos ainda HOJE mostram a falta de sensibilidade em respeitar o nome social e acontecem em outros perfis. Jakeline Boing Boing relatou que também passa pela mesma situação. "Também sou obrigada a usar o meu nome de batismo, A. L. Malachias Chieti.

Paula Darling está há 10 dias com o nome de registro (não retificado) no seu Facebook. Tentei entrar no Face e não conseguia. Depois, eles pediram o meu documento e, quando eu vi, eles colocaram o meu nome de registro. Tomei um choque, porque sou Paula desde os 17 anos. Várias pessoas me excluíram e várias pessoas pensaram que eu mesma é que quis colocar aquele nome. Enviei um e-mail tentando alguma resposta e até agora nada. Estou muito mal".

POLÊMICA ANTIGA


Em 2011, várias internautas travestis, transexuais e até drag queens tiveram que colocar o nome de registro na rede. Em 2014, a polêmica voltou com Nany People dizendo que sairia da rede (ela continua). E, agora, as mudanças continuam acontecendo mediante a denúncias.


Disseram que Facebook utilizam
identidades verdadeiras
A ativista Nicole Mahier passou pelo mesmo problema em agosto de 2016 com o perfil apagado. Enviou diversos e-mails, sempre baseando nos direitos ao uso do nome social. Quando pediram o RG para checar, colocaram o nome civil no perfil. "Isso porque antes mande milhares de documentos com o nome social e eles diziam que não valiam".

A resposta que recebeu foi "infelizmente não podemos alterar seu nome para o nome desejado. O Facebook é uma comunidade onde as pessoas usam identidades verdadeiras para que todos saibam com quem estão se conectando. Isso significa que não é permitido usar somente a primeira parte ou parte do seu nome. Pedimos desculpas pelo transtorno e agradecemos a sua compreensão".


Depois de vários e-mails, Nicole escreveu: "Vocês estão lendo o que eu estou escrevendo ou isso são somente respostas automáticas e em nada serve ou adianta esse suporte". E continuou: "Bom dia, sou Nicolle Mahier. Sou uma mulher transgênero (para melhor entendimento) em processo de redesignação e de nome, segue em anexo meu documento emitido pelo governo, peço por gentileza que possa usar meu nome social Nicolle Mahier e não meu nome civil". Enfim, eles mudaram.

Ou seja, em muitos casos ainda é preciso negociar com o suporte. 


Segundo o Facebook, perfis excluídos de pessoas da comunidade LGBT seriam restaurados para eles decidirem como gostariam de aparecer na rede social: com seus nomes de registro, com o nome social aparecendo como apelido ou criando uma fanpage (não um perfil, mas uma página de divulgação, utilizada por marcas e artistas com muitos seguidores).

Eles ainda pedem uma foto de documento para que comprove a identidade. Caso alguém não utilize o nome de registro, o Face pede para que a pessoa preencha um formulário e anexe uma imagem com algum documento com o nome social, como cartão de crédito, extrato bancário, cartão do SUS.


FALTA DE ENGAJAMENTO

Petição falta adesão: "Este é o apoio real
que temos"
A militante Bruna lamenta a falta de engajamento, uma vez que em 15 dias conseguiu coletar apenas 63 assinaturas. “Este é o apoio real que temos! Gente que ignora a importância desse tipo de ação, que boicota as ações de quem eles acham equivocadamente que é uma ameaça, nunca como aliada”, diz.

Bruna pede a colaboração de todos e diz que se alcançarem um número significativo, dentre 1.500.000 pessoas trans – estimativa da população no Brasil, segundo ela. O anterior, estava no ar desde 2014 e obteve 524 assinaturas.

Junto com a petição, a ong aborda o princípio da dignidade da pessoa humana, que assegura o pleno respeito às pessoas, independente de sua identidade de gênero, e que o objetivo da República Federativa do Brasil é constituir uma sociedade justa e que provoca o bem de todos, sem preconceitos. Além de mencionar o decreto da presidenta afastada Dilma Rousseff n 8727/2016, que versa sobre o respeito ao uso do nome social nos órgãos e administração pública.

“Desta forma, solicitamos ao Facebook respeito ao uso do nome social pelas pessoas travestis, transexuais e transgênero. Por autodeclaração em acordo com as suas Identidades de gênero. Deixando a exclusão social cotidiana fora de nossa rede social e permitindo assim que, além do respeito, possamos ser reconhecidas como cidadãos e cidadãs que somos!”.

Assine aqui.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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