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Saiba o que rolou na 2ª Caminhada pela Paz – Sou Trans e Quero Dignidade e Emprego


Por Neto Lucon
Fotos: Neto Lucon

A 2ª Caminhada pela Paz – Sou Trans e Quero Dignidade e Emprego – que ocorreu no sábado (28) reuniu centenas de pessoas na Avenida Paulista para falar e reivindicar as demandas da população de travestis, mulheres transexuais, homens trans e também outras transgeneridades.

Organizada pela CAIS – Centro de Apoio e Inclusão Social de Travestis e Transexuais – o ato contou com a apresentação de da ativista travesti e negra Erika Hilton. “"Nós queremos representatividade em todas as categorias, em todas as profissões, porque travestis e transexuais também são capazes de pesquisar, de falar, de protagonizar as suas próprias lutas, as suas próprias alegrias e as suas próprias dores".

Mel e Erika: "Só o close não basta"
Vários ativistas trans também subiram no palco e fizeram seus discursos contra a transfobia (o preconceito contra a identidade de gênero de pessoas trans), empregabilidade e vivências interseccionalizadas. 

A cantora e apresentadora Mel Gonçalves afirmou a necessidade de buscar apoio e que sentiu falta de amigos cis no evento. “Quem gosta, quem apoia a população trans, deveria estar aqui. A gente não está falando só de close, a gente tá falando de vida, dignidade, espaço. É uma luta importante e volume faz a diferença. Enquanto a gente não conseguir, o close vai ser pouco”.

A produtora do SSEX BBOX, Magô Tonhon frisou que é preciso politizar o close, sair do sofá e vir marchar com o grupo. Ela reconhece a importância de todas as travestis e mulheres transexuais que foram assassinadas para que ela estivesse naquele evento falando.

“A gente precisa deixar essa ideia burguesa de sermos assimiladas e de sermos aceitas. Não buscamos aceitação, buscamos questionamento, tensionsamento. Tensionar que a cisgeneridade é coerente e a transgeneridade é uma viagem, é um sonho, é uma abstração, não somos abstradas. Não existe divergência teórica quando o Brasil é campeão de assassinatos de pessoas trans”.
Mel Gonçalves e Magô Tonhon
Renata Peron, presidenta da Cais, e a apresentadora Erika Hilton
Masao Farah
Amara Moira, Daniela Andrade, BiaMichelle Munduruku e Neon Cunha 
A atriz Renata Carvalho

LUTA É ANTIGA

Jacque Chanel, do grupo Séforas, frisou que apesar de a luta aparentar ser nova, ela é antiga. Ela declarou que, aos 52 anos, passou a se empoderar quando viu aos 20 anos travestis e transexuais serem serradas ao meio por conta do preconceito.

“Algumas pessoas podem achar que essa luta começou agora, mas essa luta é bem antiga. E hoje nós renovamos por conta de mortes desde a década de 60. Então não falamos apenas por nós, mas também por essas que já se foram e que o sangue delas escorre nessa nossa luta”.


Jacque também disse que já sofreu no mercado formal de trabalho: “Só eu sei o quanto eu já sofri e já passei fome porque eu não tinha trabalho. Então, é algo muito forte e doloroso saber que por conta da sua sexualidade você ficou para trás, não pode fazer uma faculdade, como vocês estão fazendo e brigando pelo espaço”.
Jacque Chanel diz que já viu travesti serem assassinadas

A diretora de uma escola estadual, Paula Beatriz, declarou que só teve seu emprego garantido porque prestou concurso e passou. Mas que se dependesse de trabalhar em uma escola particular ou na universidade certamente iria escutar: “a vaga já foi preenchida”. E ficaria fora do mercado formal. 

“Já fui presa na década de 80, levada no camburão, mas mostrei que tinha emprego. As outras meninas que estavam comigo também trabalhavam, mas não é um trabalho reconhecido, com carteira. E é por isso que eu sempre digo que foram elas, as travestis nas ruas, que deram visibilidade para todos os movimentos, pois elas não tinham como se esconderem”, disse.

Paula também destacou que tudo começa na escola e que muitas travestis, mulheres transexuais e homens trans não conseguem concluir os estudos pela discriminação.” Então temos que garantir que o primeiro espaço em que se vive em conjunto se garanta a discussão da identidade de gênero, orientação sexual e de gênero para que nós consigamos mudar esse Brasil".
Diretora Paula diz que seria muito mais difícil entrar em escola particular

HOMENS TRANS

Para falar pelos homens trans, Lam Matos, coordenador nacional do Ibrat (Instituto Brasilero de Transmasculinidades) parabenizou a luta das travestis e mulheres transexuais e disse que o movimento de homens trans está se fortalecendo. “O Ibrat luta por dignidade e respeito para homens trans, pessoas transmasculinas e não-binárias. Ele soma a outros movimentos para tentar minimizar o tamanho da mancha vermelha que a nossa bandeira carrega”.

Ele diz ainda que quando uma pessoa trans é agredida, a culpa não é dela – ao contrário do que muitas pessoas tentam empregar. “Porque quando a gente está indo para a escola, para o trabalho e somos alvo de preconceito, nós não fizemos nada, a não ser existir e cumprir com as nossas obrigações como cidadãos. Sofremos com o suicídio, abandono escolar, falta de emprego e saúde integral”.
Alexandre Peixe dos Santos e Lam Matos

Ariel Nobre, da Revolta da Lâmpada, diz que toda essa culpa é transmitida porque a sociedade encara pessoas trans como perigo. “Nas empresas da Avenida Paulista nós não somos contratados porque nós representamos perigo. Mas a realidade é que nós é que estamos em perigo”, declarou.

E frisou que ações como a Caminhada desafiam o perigo que tentam aplicar. “Desses homens engravatados que trabalham aqui quantos são homens trans? Quantos sabem o que são homens trans? Porque os homens trans são invisíveis ao estado brasileiro. Porque eu posso ser morto como uma bicha e ser enterrado como uma mulher, mas quem vai lutar por mim, por nós? Nós. Nós vamos lutar por nós".

E pediu um coro “Trans Vivo, Trans Vivo”...
Ariel Nobre: Transviado e TransVivo
Os youtubers trans Kaito´Felipe e Guilherme Góes
Étory Gonzaga, da Rede Trans

INTERSEXOS E NÃO-BINÁRIOS

Pela primeira vez, a caminhada trouxe a forte presença de pessoas que se denominam intersexos e não binários. Amiel Modesto – que já foi entrevistado pelo NLUCON aqui - subiu ao palco e fez um discurso pela visibilidade das pessoas intersexo.

“Intersexos existem, resistem e insistem para sobreviver em meio dessa sociedade cisnormativa. E nós estamos aqui com pessoas trans e intersexo não binários, reclamando pela nossa existência e resistência. Essa é a nossa transrevolução e interrevolução”, declarou ele, sendo bastante aplaudido.

No chão, várias pessoas carregavam cartazes reivindicando a identidade não-binária e queer. 

Amiel, intersexo, chega de segredo
Pessoas não binárias também marcaram presença
Pri Bertucchi, do SSEX BBOX, é gênero queer

A CAMINHADA

A caminhada seguiu a avenida Paulista debaixo de chuva e música eletrônica. Com um número menor em relação ao ano passado (a organização estima 1.300 pessoas), pessoas trans, cis e de outras identidades políticas marchavam com o mesmo propósito: o fim do preconceito.

Em frente ao Center 3, Erika Hilton lembrou o episódio em que uma travesti foi impedida de usar o banheiro.


Depois, desceu a Rua Augusta e seguiu até a Câmara dos Vereadores, onde várias pessoas trans fizeram um desfile simbólico. Um documento foi encaminhado ao vereador Toninho Vespoli para que haja cotas para travestis, mulheres transexuais, homens trans e outras transgeneridades.

“Não queremos nivelar por baixo. O negócio é a gente ter dignidade e respeitar o trabalho de cada uma delas. Se a menina é formada em pedagogia, ela tem que ser contratada para exercer a sua função como pedagoga e não para servir cafezinho, por exemplo”, diz Renata Peron, presidente da CAIS. A luta continua...

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