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Assessoras parlamentares travestis e transexuais falam sobre primeiros desafios da profissão

Bárbara Aires é assessora de David Miranda

Por Neto Lucon

Bárbara Aires, Lana de Hollanda e Sayonara Nogueira tem mais uma coisa em comum além de serem mulheres transexuais e travestis. Elas são algumas das assessoras parlamentares da Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Com trajetórias distintas, elas ainda atraem alguns olhares, a mídia e até desconfianças. Até porque ainda hoje entende-se que o lugar de travesti e transexual é nas esquinas ou em profissões feminilizantes.

Lana e Marielle
A estudante de serviço social na Universidade Federal do Rio de Janeiro, Lana de Hollanda, de 26 anos, é assessora da vereadora Marielle Franco (PSOL). Ela conheceu a vereadora quando visitou a ONG Anistia Internacional, onde trabalha tema sobre a população LGBT. Logo surgiu o convite e os desafios.

Trabalhando desde janeiro deste ano (a primeira a entrar), ela enfrentou alguns constrangimentos. Recebeu o crachá com o nome civil (aquele do RG) – e não social (aquele pelo qual ela é conhecida). Além de o nome civil também ser informado na Diretoria Pessoal da Câmara e publicado nas nomeações das assessoras no Diário Oficial.

Logo, sensibilizou em relação a importância de ser chamada de Lana e resolveu a situação. Em 15 dias já estava com o novo crachá. Lana de Hollanda. 

EM UBERLÂNDIA

Sayonara é assessora de Pâmela Volp (PP), uma das poucas travestis a se elegerem, em Uberlândia, Minas Gerais. Ela resolveu mudar de partido, o PDT, depois de se sentir “um artigo de luxo para a legenda”, mas sem voz. “Abri a mão da minha pré-candidatura para apoiar a dela, pois iríamos somar forças ao invés de dividir. Ao término da eleição, ela me convidou para fazer parte de assessoria”.

Ela é professora e, como o cargo não é acumulativo, teve que exonerar o cargo e optar pelo de assessora parlamentar. “Já me encontrava descontente com a educação, pelas retaliações e assédio moral que vivi durante 15 anos”, declarou ela que diz que os anos de funcionalismo público facilitaram o novo trabalho. “Tivemos três dias de treinamento e absorvi bem as funções”.
Pâmela Volp e Sayonara Nogueira

Sayonara já conhecia Pâmela há muitos anos e deu aula para ela no projeto TransPondo o Enem. “Era uma excelente aluna na área de exatas, contudo, com as ocupações que ocorreram nas escolas estaduais, ela acabou perdendo a data do ENEM. Estamos incentivando ela fazer esse ano, pois é uma empreendedora e tenho certeza que se sairia muito bem na área de Economia ou Administração”. A vereadora também esteve muito presente quando a mãe de Sayonara faleceu.


A professora-assesssora diz que ficou com a parte técnica do gabinete, análise de projetos, recursos humanos, elaboração de requerimentos, indicações, ofícios e memorandos. “Fiquei também com a demanda LGBT da cidade, sempre atendo o segmento em nome da vereadora, agendando reuniões para solucionarmos da melhor maneira”, declara. Dentre as demandas, há trans querendo voltar a estudar, procurando emprego e querendo a retificação de nome. Em relação a documentos na Câmara de Vereadores, não teve problema nenhum, pois todos já foram retificados.

Transfobia? “Recebo olhares curiosos, pois muitos só me conheciam pelas redes sociais, mas aí adentra o nosso trabalho de educar, de falar sobre as nossas necessidades, pautas e demandas. Não tenho do que reclamar nesses quase dois meses de trabalho. Sou muito bem tratada. Tenho contato com outros assessores de outros gabinetes e acho isso importante. O trabalho se desenvolve melhor”.

MINORIAS AVANÇARAM, CONSERVADORES REAGIRAM

Já a estudante de Comunicação Social na Facha, Bárbara Aires, de 30 anos, é assessora do vereador David Miranda (PSOL). E admite que nunca pensou em trabalhar com política, apesar de dar consultoria pelo seu trabalho de militância. “Mas eu gosto de aprender, odeio rotina e o novo me conquista. É uma responsabilidade muito grande, principalmente na conjuntura política. As ditas minorias avançaram, então a ala conservadora reagiu. É o momento de mostrarmos nossa força, união e organização”, declarou ela ao NLUCON.



Bárbara afirma que sua contribuição vem do olhar sensível de quem já passou muita dificuldade enquanto LGBT e que lutou para ser assessora. “Tenho contato diário com o David, ele vem ao gabinete, interage conosco em grupos da equipe, nos envia matérias para lermos, temos reuniões semanais para discutir assuntos e os PLs. Ele é muito humilde, humano e sensível. A equipe toda é maravilhosa nesse sentido. Estou encantada”. Sem entrar em detalhes, ela fala que sofreu olhares tortos de outros funcionários, principalmente do RH e departamento médico.

Dentre suas propostas, a pauta trans e LGB estão como prioridade. “Foi ideia minha tornar projeto de lei o decreto do nome social, apresentamos dois projetos sobre banheiro e um sobre assistência LGBT, parecido com o Rio sem Homofobia do Estado. Já solicitei uma data com a CEDS para conhecer o novo Coordenador e dialogar, conhecer seus projetos, propostas ea nova gestão do Damas. E vamos buscar proximidade com outros vereadores que sejam aliados para esses e outros projetos”.

A rotina não é fácil. Ela acorda às 5h, continua a faculdade, estuda idioma, trabalha e há dias em que dorme meia noite, “mas muito feliz. “É muito satisfatório me sentir útil, incluída socialmente. Uma cidadã plena, de fato e de direito. Nós podemos ser profissionais de qualquer área, basta nos darem oportunidade. Nem todas têm dom para prostituição, cabeleireiras, maquiadora. Precisamos de trans médicas, professoras, advogadas, dentistas, políticas... Precisamos e queremos trabalhar, como todo mundo”.

Parabéns!

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