Header Ads

Ativista trans Ângela Lopes é contratada por rede de farmácias e reflete sobre desemprego


Por Neto Lucon

A ativista Ângela Lopes - que há um ano e três meses estava desempregada e denunciava a falta de oportunidade para a população trans no mercado de trabalho por transfobia, acaba de ser contratada pela Rosário, uma rede de farmácias que atua em São Carlos e Região. Ela anunciou a novidade no Facebook.  

“Assim que fui exonerada da Prefeitura Municipal de São Carlos (ela era gestora e também trabalhou no cartório da cidade), enviei um currículo a Rosário, mas fui informada de que não havia nenhuma vaga disponível, mas que entrariam em contato. Honestamente, não esperava retorno. Para minha surpresa, fui chamada para uma entrevista”, conta ao NLUCON.

Ângela afirma que percebeu durante a entrevista que a empresa estava interessada em suas competências e confiante em suas qualificações e trajetórias profissionais – e não avaliando o fato de ser uma mulher trans. “Vi a possibilidade de ser reinserida em uma empresa que já tinha um histórico de inclusão, sem nunca precisar fazer disso um marketing pessoal”, declarou.

Inicialmente, ela vai trabalhar como atendente de farmácia. E também terá a possibilidade de colaborar com ações paralelas de humanização e aprimoramento da rede na inclusão da diversidade. “Primeiro, conhecerei toda a estrutura e mecanismos básicos da rede. Paralelamente, ajudarei no desenvolvimento de ações, formações, capacitações, articulações com entes públicos e privados, todas direcionadas a diversidade”.

Para ela, ampliar as concepções sobre diversidade – além da LGBT, e sobretudo trans, como mulheres cis, negros, deficiente físico e outras.– será um grande desafio e a possibilidade de buscar a transversalidade de temas e abordagens.

UM ANO E TRÊS MESES DESEMPREGADA


"Não importa o quanto qualificada
ela seja, a identidade de gênero pesa"
Antes de estar reinserida no mercado formal de trabalho, Ângela passou longo um ano e três meses desempregada. Enviando currículos e tendo as portas fechadas, ela reflete que o mercado de trabalho anda resiste na contratação de pessoas trans por pura transfobia.

“Não importa o quanto qualificada ela seja. A identidade de gênero pesa mais na balança na contratação. Negativamente”, defende.

Aos 41, Ângela disse que foi difícil passar por essa realidade de busca por emprego. “Me vi as voltas dos meus 16 anos de idade, quando externei minha identidade e vi o quanto a rejeição é latente. Pude perceber o quanto o mercado de trabalho exclui pessoas trans”.

Por ironia, ela foi muito chamada para mesas e debates para falar sobre mercado de trabalho. “E o que dizer? Dizer que grande parte destas empresas que pregam o discurso de inclusiva, especialmente as mais premiadas e certificadas, fazem apenas e tão somente um marketing comercial em cima das mazelas das pessoas trans?”

QUANTAS TRANS NA EMPRESA?

Durante os debates, Angela questionou quantas pessoas trans estão nos quadros de trabalho, qual é a política de progressão de carreira, quais são as políticas internas direcionadas ao incentivos e permanências das pessoas trans nas empresas. “É fato que existem empresas que queiram fazer uma política de inclusão minimamente honesta e transparente. Mas ainda estamos muito longe disso. Essa é uma das coisas que me deixaram extremamente frustrada”.



Uma das experiências que ela relata é num encontro com empresas inclusivas em que estavam mais de 200 representantes de RH. Ela viu a possibilidade de fazer contato e conseguir a recolocação, mas recebeu apenas um retorno, uma entrevista e nenhuma oportunidade.

“Fiz a entrevista há dois meses e não tive retorno até o momento. Veja você, nenhuma destas empresas que pregam inclusão me deram oportunidade. E não estou falando em favores ou filantropias corporativas. Pois sei que estas não existem no mundo capitalista empresarial. Estou falando da contratação de uma mão de obra qualificada”.


"Desenvolverei meu trabalho com
isenção, foco e profissionalismo
VOLTAR A TRABALHAR

Prestes a voltar a trabalhar formalmente, Ângela diz que está feliz, principalmente em retornar a iniciativa privada. “Depois de três anos trabalhando para o poder público, tive aprendizado e aprimoramento do meu próprio ativismo. Mas é inegável os vícios e os entraves que dificultam a realização de um bom trabalho”.

Ela finaliza: “Desenvolverei meu trabalho com isenção, foco, profissionalismo e dialogando em todas as direções”.

Nenhum comentário

Tecnologia do Blogger.