Pride

Ativistas trans mostram força para derrubar a transfobia da mídia no caso Mirella de Carmo


Por Neto Lucon

Quando a travesti Mirella de Carmo foi assassinada no último domingo (19), um dos principais veículos de notícia, o G1, desrespeitou a sua identidade feminina e a chamou apenas de “garoto de programa”, usando artigos e pronomes masculinos. Mas algo mudou e mostrou a forças das redes sociais.

Após uma comoção na internet, sobretudo de amigas do mundo Mundo T-Girl e outros, diversos comentários apontaram a transfobia da nota. Afinal, Mirella era uma cidadã travesti ou transexual - ou seja, uma pessoa do gênero feminino - e merecia, em vida ou em morte, ser tratada como tal.

No site, a ativista travesti Duda Barreto escreveu: “Respeite o gênero (feminino) da vítima, não custa tanto assim”. A ativista travesti Kimberly Luciana também afirmou: “Respeite ela no feminino, que faculdade esse(a) jornalista estudou? Precisa matar a vítima duas vezes?”.



Outros comentários continuaram: "Falta de respeito com a vítima! Ela era do gênero feminino”, escreveu Marcia Jaekel. “Repudio a essa jornalismo! Isso é morte simbólica da vítima”, disse”. Iza Cadillac comentou: “Transexual, essa palavra não morde”. Ana Borges continuou: “Transfobia Mata”.

Diferente do que acontecia há alguns anos, cujos portais simplesmente ignoravam os apontamentos, a força das redes sociais surtiu efeito. Além de ter mudado o título e toda a escrita, o G1 enviou a nota de correção: “O G1 errou ao publicar que a vítima era um garoto de programa. Na verdade era uma travesti. A informação foi corrigida às 21h32). O portal não especificou se o erro foi da redação ou das informações repassadas pela polícia.

Após a mudança, diversas travestis e mulheres transexuais comemoraram temporariamente a mudança: Sandy Rios disse que a "união faz a força e que juntas são mais fortes". Julia Aguilera comentou:  "Verdade, na marra ensinamos a forma correta de nos tratar, mas infelizmente por uma notícia triste". Valerya França reforçou a importância da união: "Viu como unidas conseguimos as coisas, então vamos nos unir mais meninas, deixa as competições e intrigas de lado".



A IMPORTÂNCIA DO RESPEITO

Evidente que a mudança não muda a morte de Mirella, mas mostra que o jornalismo preconceituoso ou desavisado vem mudando com as redes sociais. E ajuda a contabilizar os crimes de transfobia, que são feitos por casos divulgados na mídia. Muitas vezes tais casos de transfobia foram contabilizados como mortes de gays cisgêneros e dificultava os dados para acabar com essa violência específica.

A presidenta da Rede Trans, que iniciou a contagem de mortes transfóbicas, Thatiane Araújo disse: "Antes, a gente ia lá ver a matéria contabilizada como homossexual e estava lá: 'morreu rapaz de 18 anos em Pernambuco... E depois de ter falado a desgraça toda, estava lá no fim: 'estava com roupas femininas e tinha o codinome de Gretchen'. E a gente ia olhar a foto e a pessoa tinha quadris largos, o peito na bandeija. Ou seja, prejudicaram a população trans por um bom tempo. Agora, estamos fazendo a nossa lição de casa".

Ela diz que isso prejudica porque quando gestores pegam os dados, pensam que quem está morrendo mais é o gênero masculino. "E nem cogita que a travesti está no meio, porque elas se reivindicam do gênero feminino. E ninguém se atenta que a travesti está morrendo". Ela afirma que, tendo os dados, pode fazer cobranças a gestores públicos.


Nas redes sociais, o grupo comemorou nas rede sociais a informação corrigida e pede justiça pelos responsáveis pela morte de Mirella de Carmo.
Algumas das homenagens feitas para a Mirella

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Anônimo disse...

Correçao: quem disse "Repudio a esse jornalismo. Isso é morte simbolica da vitima foi a mulher trans Fran Nepomuceno.

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