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Menino trans do Rio, Johi Farias emociona ao falar sobre necessidade de cirurgia



Por Neto Lucon

Recentemente Johi Farias dos Santos postou o vídeo “ConfliTo”. Ele aparece com a boca tampada por uma fita, que também cobre os seus “intrusos” (a maneira como ele chama o peitoral ou as mamas). Ao som de Running With the Wolves, da Aurora, e remix de Pablo Nouvelle, ele se debate na cama, mostra desconfortável com seu corpo, faz uma performance angustiante e termina tirando a fita da boca.

Johi precisa da cirurgia que masculiniza
seu peito e precisa de ajuda

E, sem a fita, fala ao NLUCON o que não disse na obra. Johi é um lindo “menino do Rio” nascido em Duque de Caxias, tímido, inteligente e com um sorriso maroto. Hoje, talvez a característica que mais esteja presente seja o fato de ser um homem trans (pessoa que foi designada mulher ao nascer, mas que se identifica com o gênero masculino e é um homem). Na verdade, um detalhe.

Isso se ele não precisasse colocar e tirar de uma vez por todas as fitas dos intrusos e, para isso, necessitasse passar por uma cirurgia de mastectomia ou mamoplastia masculinizadora (a cirurgia que vai masculinizar o seu peitoral) e dar mais conforto para o seu cotidiano. “Costumo dizer que nasci com três braços, sendo um no peitoral e sem função alguma. Está lá, grudado, mas morto. Essa é uma das partes do meu corpo que não condiz com a forma que me idealizo”.

Para esconder o “braço” e ser lido como o homem que é, Johi já usou binder, colete e faixa ao mesmo tempo. Tudo isso no sol ardente do Rio de Janeiro. Além de esquentar, machuca a coluna e os intrusos. “Corta, sangra, dói, mas qualquer coisa é melhor do que ver que eles estão ali”, disse. Pelo uso, ele adquiriu algumas alergias, que foram piorando com o passar do tempo, e teve dermografismo (quando as marcas da faixa ficam na pele).

Para aliviar, ele usa pomadas em baixo da faixa, pasta dágua para refrescar e talco para assadura de injeções e comprimidos para diminuir o inchaço. E evita sair de casa.

“NUNCA ME VI COMO MULHER”

Nem sempre foi esse sufoco. A infância do jovem foi incrível. Ele pode experimentar a liberdade de ser o garoto que sempre foi. Como dizem, ele “não era obrigado a nada” e podia exercer o seu gênero atribuído masculino tranquilamente. Os problemas começaram na adolescência, quando “coisas” em seu corpo começaram a desenvolver. Tudo o que ele não queria, os "intrusos", por exemplo.



“Foi infernal para mim. Como eu me espelhava no meu irmão e tentava ser como ele, perceber que crescia em mim algo diferente do que ele tinha me fez bater muita tristeza”, lamenta. Johi nunca se viu como mulher. Só foi avisado por alguém que ele era socialmente era lido como uma quando o seu corpo começou a mudar. E recebeu muitas cobranças, bem como usar roupas femininas, maquiagens e ser gentil com os rapazes. A pior: usar sutiã.

“Me dá agonia só de pensar. Eu não gostava de me olhar no espelho. Não gostava de me tocar. Não ia para cachoeiras ou praias, porque não quer pensar em pôr biquíni. Ele sabia que era homem, só não entendia porque o seu corpo e o “terceiro braço” não acompanhava. Era como seu o próprio corpo estivesse o traindo.

Durante um tempo, pensou que pudesse ser drag king, vestir roupas atribuídas ao gênero masculino sem ser julgado por isso. E só foi se “descobrir transexual aos 20 anos”, quando assistiu ao programa Tabu, da TV Paga, que falava sobre transgêneros.

Comparando com a trajetória de outro homens trans e suas famílias, que sofrem violência doméstica, Johi se considera um sortudo. Sua mãe e sua avó sempre o apoiaram. Quando assistiu ao programa Tabu, caiu no choro e pediu para a mãe assistir. Ela apenas disse: “procura saber um pouco mais e depois a gente conversa”. Foi ela que acompanhou sua primeira consulta, deu sua primeira faixa e disse: “agora você vai pode sair de casa, até a gente conseguir dinheiro para a sua cirurgia”.

A CIRURGIA E A VAKINHA

Atualmente, Johi não trabalha, tem distribuído currículos pelo Rio, mas não foi chamado. Seu último trabalho foi na Casa Nem – espaço de resistência para pessoas trans, que corre o risco de ser fechado – como bartender. Ele acredita que um dos motivos de não se recolocar no mercado de trabalho é o fato de seus documentos ainda não terem sido retificados – ou seja, terem um nome considerado feminino.



“A minha mãe é costureira e uma pessoa extremamente humilde e me ensinou a ser honesto. Sempre conversamos bastante e já tínhamos passado por momentos muito complicados antes”. Já tentaram empréstimo, mas não conseguiram. Já pensou entrar na fila do SUS, mas desanimou quando soube que a espera pode demorar 10 anos. Desta forma, o valor da cirurgia – cerca de 2.500 no profissional escolhido por ele – é um problema.
Vaquinha conseguiu até agora
22%. 

Com a cirurgia, Johi pensa em fazer coisas simples da vida, como ir à praia – coisa que ele só faz quando não está muito calor e de noite – poderá trabalhar sem dores, praticar exercícios sem se preocupar-se se está escondendo tudo, usar blusas que gosta e, sobretudo, olhar no espelho e se reconhecer. “A cirurgia é extremamente significativa para uma vida saudável. É a liberdade para o meu bem-estar psicológico, de como eu sou de verdade”.

Por meio do vídeo, ele tentou dizer sem palavras o que sentia. Faltam pouco menos de 2.000 para que a cirurgia ocorra, mas ele anda aflito. “Sinceramente, parece mais um sonho que nunca chega (risos). Acredito que vou chorar por uma semana de tanta felicidade. E a primeira coisa que vou fazer será ir à praia, sentir o vento passar por mim, sem me preocupar se vai marcar ou não. E, claro, entrar na água”.

Até agora foram 22% do valor total. Quem puder colaborar com a Vakinha e fazer esse cara incrível mais feliz clique aqui. Qualquer valor será muito importante para que esse “menino do rio” possa andar de braços abertos mais confortável consigo mesmo e se sentindo ainda mais maravilhoso.

Um comentário

Johi Farias disse...

Que lindo !
Muito obrigado,Querido !

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