Header Ads

Transserviços

(+18) Pessoa não binária Juno Cipolla posa nu e desconstrói masculinidades no Chicos


Por Neto Lucon
Foto: Chicos

O projeto de fotos Chicos – que tem como premissa mostrar a beleza diversa do homem e de suas masculinidades – trouxe o modelo Juno Cipolla entre os homens desnudos. O ensaio rolou no final de 2015, mas ainda hoje rende muitos comentários, elogios, discussões. Ele se define pessoa trans não binária, agênero, dentre outras categorias.

Juno já está acostumado a ficar nu, apesar de já ter tido amarras com o corpo, e não fez nenhuma exigência para as fotos. Anteriormente, posou para uma amiga, para uns amigos e participou do documentário O Corpo Nu – do diretor Diego Carvalho Sá, que o convidou para o Chicos.

Mas foi a primeira vez que ficou sem roupa para fotos no início da hormonioterapia (com a aplicação da testosterona). Elas foram realizadas em apartamento em Pinheiros, em São Paulo. “Ainda não era muito lido como homem, nem me relacionada muito com viados. Foi um jeito de consolidar minha imagem naquele momento, e achei isso importante. As fotos tiveram uma boa recepção, fiquei feliz”.

Nos bastidores, ele diz que foi ótimo. “Não me senti nenhum pouco desconfortável. Ao contrário. Foram bem profissionais e me trataram de igual para igual”, declarou. O fotógrafo Fábio Lamounier concorda: “Ficamos basicamente conversando e rindo antes, durante e depois do ensaio. Contando casos, dividindo histórias. Por se tratar de ensaio de nu, parece que adquirimos uma certa intimidade mútua muito rápido. É uma pessoa incrível”.

Fabio diz que o projeto teve o intuito de alcançar pessoas com diferentes vivências de corpo, identidade e sexualidade. E que o ensaio com os homens trans e não binários contribuíram muito. "Muitas pessoas ficaram felizes, ampliaram os discursos e corpos no projeto, trouxeram uma discussão importantíssima ali para dentro. Algumas pessoas questionaram, e felizmente muitos leitores estavam dispostos a desconstruir preconceitos."


MAIS QUE ESTEREÓTIPOS

Na entrevista que deu ao Chicos, Juno falou sobre os processos de descobertas e transições. Foi criado para ser mulher cis e hétero. Mas daí "vi que gostava de mulheres e pensei que era lésbica". Ao mesmo tempo ele não se sentia representado. "Até que descobri que era na verdade trans". E trans não binário.

"Então, por não ser nem homem nem mulher, nenhuma sexualidade que parte de um gênero para consolidar - pra ser gay você 'tem' que ser homem, para ser lésbica você 'tem' que ser mulher - nenhuma dela me cabia mais. Fiquei um tempo pensando no que me contemplava", lembra.

Ele falou também como 
lidava com o próprio corpo e os efeitos quase que experimentais da testosterona. "Esteticamente eu me identifico com um corpo sem peitos, mas não é uma coisa que me faça odiar o meu corpo. Eles estão murchando pela testosterona, e estão nascendo muitos pelos, então isso só vai ajustando muito". 

Ao NLUCON, Juno diz o ensaio mostra que a masculinidade é mais do que a construção dos estereótipos cisgêneros-héteros-monogâmicos de homem e corpo masculino. “Que os corpos têm uma trajetória e uma fluidez, e que qualquer estado de corpo é válido e tem que se fazer presente”. As fotos foram muito elogiadas e muitos o consideraram um exemplo.

O QUE MUDOU EM UM ANO?

Atualmente, aos 25 anos, Juno revela ao NLUCON que faz freelas para editora FTD, de revisão e edição, mas entrega que não tem nada fixo. “Cheguei a trabalhar lá um tempo e foi super tranquilo porque tem várias pessoas LGBT na equipe”. Ele diz que não teve problema com nome social. Foi demitido por corte de funcionários.

Ele também trabalha com artesanato e pretende criar uma página para vender pela internet em breve.



Juno lembra com nostalgia do ensaio e diz que gostou de ter participado: “Marca do que já fui, posso eventualmente ser de novo e que ainda posso viver muita coisa”. 

Esteticamente, apesar da não binaridade, ele está sendo bastante lido como homem. “Mudou muita coisa. Sou uma pessoa que transita muito, vejo minha vida como vários ciclos que se somam e intercalam. Não só por causa da transição, mas também, e pelas pessoas e espaços que isso me trouxe. Não parei com o tratamento hormonal porque é algo que me deixa bem com o meu corpo, menos pela aparência, e mais pela sensação que traz”, diz.

Ele defende que a hormonioterapia muda o jeito como ele se sente em seu corpo e em como se relaciona com o mundo, de dentro para fora. “Ao mesmo tempo, tenho sido mais lido como homem, o que faz com que eu passe a caber melhor em espaços para viados, e bem menos em espaços para mulheres. Eu gosto do meu corpo, mas é difícil lidar com o que a masculinidade representa e com a maneira que é lida”, declara.

AFETO E DESEJO

Ele frisa sempre será uma pessoa não-binária, mas que seu corpo vai sempre ser empurrado para um lado ou para o outro. “Os termos sapatão e viado também me contemplam com relação à gênero, expressão e espaços aos quais meu corpo pertence”.

Afetivamente, ele é não monogâmico, pansexual, e tem identificação dentro da comunidade “ace”, “demi” e “gray”. Vamos entender melhor essas definições, segundo Juno:



“Ace” é abreviação de assexual: pessoas que não gostam ou não ligam muito para sexo. “Não quer dizer que nunca façam, mas não tem isso como prioridade na vida. Algumas não gostam mesmo e consideram situações sexuais violentas. Tem vários jeitos de ser assexual”, explica.

“Demi” é quem se apaixona ou desenvolve atração depois que conhece as pessoas, “porque não fico com pessoas pelas quais não sente carinho, com quem não tenho proximidade”.

“Gray” é a pessoa que é sexual em parte, tem situações em que isso não ativa. Ou não quer ou não consegue transar sempre. “Eu demorei para achar uma definição que me contemplasse, exatamente porque fluo muito”, diz.

Para chegar em todas essas definições e construções foi um processo longo e doloroso, afinal durante muitos anos fizeram acreditar que nada disso era válido e que ele só seria feliz sendo cis, hétero e constituindo família com base no amor romântico monogâmico. Foi difícil ter segurança para enfrentar tudo isso e muito demorado para achar uma comunidade de pessoas que me contemplasse. Foi difícil chegar aqui, mas é acolhedor”

Acolhido, admirado e desejado!
Veja mais fotos incríveis clicando aqui. 

Nenhum comentário

Tecnologia do Blogger.