Entrevista

“Poder de oxigenar esse mundo LGBTfóbico é nosso”, diz Maria Clara de Sena, que combate tortura


Por Neto Lucon
Diretamente de Recife, a convite do Recifest
Fotos: Bianca Vasconcellos
Revisão: Iara Delacruz

A pernambucana Maria Clara de Sena, 37 anos, é a primeira mulher travesti (ela é da Natrape e Rede Trans, que utilizam o termo "mulher travesti) no mundo a assumir um cargo em um Mecanismo de Prevenção e Combate à Tortura, órgão que atua em parceria com a ONU. Título que não a envaidece, mas a faz questionar a falta de oportunidade para a população trans.

Com 1,92m, ela emana muita energia, garra e disposição. Faz reuniões e visitas em unidades prisionais de Pernambuco – estado com superlotação carcerária no Brasil - com a finalidade de combater os maus-tratos e tortura a qualquer pessoa que esteja em situação de privação de liberdade. 

"Pensar mais naquilo que nos une
que naquilo que nos segrega"
Já passou por momentos tensos e até uma tentativa de homicídio por um policial dentro do trabalho.

Maria Clara tem história de luta, preconceito e superação, que se assemelha a de muitas mulheres transexuais e travestis do Brasil. E a violência começou aos sete anos, quando levou uma surra ao ser flagrada com gestos delicados. Hoje, ela se dá bem com todos. Aos 19, conheceu uma travesti e recebeu uma proposta de emprego em João Pessoa. Era cilada e ela acabou tornando-se profissional do sexo.

Foi lá que descobriu à fórceps o descaso da sociedade e do poder público. Desde a hormonioterapia sem acompanhamento médico, cirurgias em clínicas clandestinas até a violência. Por meio do Grupo de Trabalhos em Prevenção, que auxilia profissionais do sexo, se alinhou aos temas de direitos humanos. Descobriu um problema constante: quase todas as pessoas que tinha contato eram presas.

No projeto Fortalecer para Superar Preconceitos, atuou dentro dos presídios. Conseguiu uma ala exclusiva para travestis, com a finalidade de deixa-las livres da exploração sexual praticada pelos homens. Até que se candidatou a uma vaga (e entrou!) no Mecanismo de Prevenção de Combate à tortura. Faz faculdade de serviço social e, hoje verifica, as condições de locais onde maus-tratos são comuns, como presídios, asilos, delegacias e clínicas de reabilitação para dependentes químicos.

O NLUCON conversou pessoalmente com Maria Clara em Recife, durante os bastidores do Recifest. Foi um bate-papo rápido de exatos 6 minutos, mas que vale conferir.

- Há uma amiga que eu encontraria hoje, mas ela disse que não sai de dia. A transfobia é tão forte aqui em Recife mesmo ao ponto de cidadãs travestis e transexuais só poderem saírem a noite?

Sair é realmente um processo dolorido para muita gente. Porque o Nordeste tem esse peso do machismo, essa história do cangaço e as meninas ainda preferem sair do finalzinho da tarde para a noite. Mas a gente já vê muitas travestis trabalhando durante o dia, passeando, vivendo... Esses dias tivemos um workshop, em que a Xica do Leite, que viveu a ditadura, relatou para a gente que neste período tinha que lavar cadáver, tinha que comer papel higiênico, tinha o cabelo cortado... Xica do Leite é o nome dela, tem uma história magnífica. Então, a gente conseguiu fazer a ligação com o tempo de lá para agora.

(A entrevista é interrompida por um amigo que quis cumprimentar Maria Clara).

- E melhorou, em sua opinião?

A gente conseguiu avançar muito, mas ainda é pouco. Tem muita menina morrendo, tem muita gente morrendo. Existem instituições, como as igrejas fundamentalistas, que perseguem a gente e a gente está morrendo por conta delas.

- O que as pessoas ainda hoje precisam saber das cidadãs travestis e transexuais?

Primeiramente, que nós temos sangue em nossas veias, que somos constituídas de pele, osso, sentimentos... Que podemos pensar. Que podemos amar. Que podemos odiar também, mas preferimos amar (risos). Que nos permitam ter família, que não digam para a nossa família que nós somos um erro, porque eu sou prova disso (Maria Clara ficou muito tempo afastada pelo preconceito local e hoje é respeitada) E outras pessoas provam isso, que o amor é incondicional e fortalece pessoas. As pessoas precisam saber que podemos ser quem somos, desde que não atrapalhemos a vida do outro. E o que elas esquecem é que elas é que estão atrapalhando as nossas vidas, as nossas famílias, os nossos relacionamentos, impedindo a gente de ser quem é. Então, quem é o errado? Quem é o problema?


- Eu gostaria que você falasse um pouco do seu trabalho de Mecanismo de Prevenção e Combate à Tortura. Me explica o que ele é?

O mecanismo é um protocolo internacional de todos os países que são signatários (Panamá, Colômbia, Argentina e Chile) desse acordo. Ele tem por obrigação implementar e criar o comitê e o mecanismo de combate à tortura. Eu me inscrevi para a seleção para me integrar ao mecanismo, fui aprovada, a ONU fez um mapeamento e viu que eu sou única mulher travesti a compor esse órgão no mundo. Existem 57 mecanismos e eu sou a única. Mas isso não me envaidece.

- Por que você não fica feliz por ser pioneira em estar nesse Mecanismo?

Ao contrário, isso mostra uma estatística doente. Nós, que temos tanta capacidade, porque não estamos em outro mecanismo? Haja visto que as mulheres travestis e mulheres transexuais, e a população LGBT, somos as vulneráveis das vulneráveis onde tem instituições privadas e em liberdade. E só nós LGBT podemos saber onde está a deficiência, as perseguições, ou seja, as práticas de tortura, o tratamento cruel e degradante como rege a lei. Ou seja, só quem sofre sabe onde está o sofrimento. Não adianta colocar quem está cheio de privilégios para ver um problema, sendo que ele não sente na pele esse problema, entende? Temos que despertar a lei.

- Como se identifica a tortura?

Para poder caracterizar tortura são processos: local insalubre, tratamento desumano, mas se juntar fatores a gente pode caracterizar tortura. Por exemplo: se houver um quarto escuro onde essa pessoa passe mais de 30 dias, isso é uma tortura. 

(Alguém chama Maria Clara para ir embora. Ela pede para esperar)

Se um agente penitenciário ou um diretor bater ou torturar um menino para obter informações isso também é tortura. Porque não tem a delegacia para olhar. Tem que ser nós dos direitos humanos para olhar para esses casos, um olhar bem aprofundado, com cuidado.

- E o que poderia falar das travestis e os casos de tortura?

Existem muitos casos, você não faz ideia. Relatos de meninas que foram esquartejadas em rebelião. Contraíram HIV nesse processo...

(Maria Clara é chamada e o assunto é desviado por outra pessoa)

Eu mesma sofri uma tentativa de homicídio de um policial durante uma visita. Ou seja, eu estou trabalhando e um policial quase me mata? Isso é muito grave. E é isso que acontece.

- Diante dessa violência, você recebe o Prêmio Claudia, de uma revista feminina... O que ele representa?

O prêmio Claudia chega em minha vida para provar para mim que eu não estou no caminho errado. Que como todo mundo relatou aí, que desde a nossa infância a gente é perseguida pelo erro. As pessoas dizem: “você está errada por isso, você está errada por aquilo, você está errada por existir”. Nunca falam que a gente acerta. E num momento que eu estava refletindo, depois de ter passado por essa tentativa de homicídio no meu trabalho (clique aqui e lembre), esse prêmio veio dizer: o caminho é esse mesmo, as pessoas passam por turbulência, violência e temos que enfrentar... E as pessoas agora me parabenizando, as oportunidades aparecendo, a gente falando de vidas, fortalecendo meninas, empoderando pessoas, isso é muito importante.


- Você costuma participar de eventos que tem a premissa de discutir direitos humanos?

Basta me chamar que eu vou. É importante que as pessoas se espelhem em uma travesti que sai de uma situação de alta vulnerabilidade e está agora podendo falar para o mundo a sua vivência e as vivências das outras pessoas. E as pessoas estão se despertando e percebendo que a gente pode ser mais, que pode unir forças, caminhar para um lado melhor da coisa.

- No Recifest desse ano, cada dia foi uma apresentadora trans. Você participou de todos os dias. O que acha de iniciativas como essa?

É importantíssimo a gente participar de todos esses movimentos, sobretudo nesse momento de retrocesso, de conservadorismo. E momentos como esse, que lotam a casa e tão significativa para Pernambuco, que é o Cinema São Luiz, que vem de um período histórico. E a gente ver a casa lotada nos três dias de evento, com a população LGBT e os nossos amigos e familiares, eu acho importantíssimo. E ver as meninas apresentando também: Fabi, Robeyoncé, Giu e eu. É mostrar que o caminho é esse, que a gente tem que insistir, que todas essas questões nos unem. Que temos tantas coisas em comum, que parece que estamos mais preocupados com as coisas que nos separa e que nos segrega. Eu acho que nesse momento a gente tem que ter essa força, o companheirismo e a união para poder passar por esse momento turbulento.

- O que você falaria para as cidadãs travestis e transexuais?

Vou falar para a sigla LGBT em geral. Eu tenho certeza que nós, que carregamos a sigla LGBT nas nossas costas, temos a obrigação sobrenatural de nos unir. Nós sabemos quem somos. Nós não podemos receber tanta influência de fora para dentro para não nos contaminarmos com o preconceito também. Somos tão semelhantes e as pessoas em geral querem nos separar. A gente ainda vê, por exemplo, um gay não querer andar com uma travesti ao lado. Uma travesti não querer andar com um gay afeminado para não ser confundida. Uma transexual operada se achar melhor que... Um gay machudo olhar torto... Ou o contrário. A gente não se reconhece. A gente ainda recebe influência preconceituosa de fora para dentro. Acho que a gente precisa emanar tudo o que tem de bom. Olhar o nosso irmão como irmão, MESMO, ou como irmã, sem questionar, sem ter dúvida. Acho que a gente tem esse potencial de mudar tudo. A gente tem que ter a consciência de que o PODER DE OXIGENAR ESSE MUNDO LGBTFÓBICO É NOSSO”.

(Maria Clara Sena sai e eu fico com mais um monte de perguntas, sobre negritude, vivências e muito mais. Acho que ficou pelo menos uma boa mensagem a todas as pessoas). 
Crédito: Recifest

O mecanismo recebe denúncias da sociedade civil sobre casos relacionados à tortura e maus tratos em ambientes de privação de liberdade através do telefone 3183-3161 ou do e-mail mepctpe@gmail.com.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

roberta siqueira campos disse...

Belíssimo trabalho lucon, Maria Clara sempre com as respostas na ponta da língua parabéns a todos!!!!

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