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Ao Fantástico, adolescente trans de 15 anos revela transfobias na escola: “Puxavam minhas calças”


O adolescente trans Bernardo Moreira, de 15 anos, esteve no segundo episódio do quadro “Quem sou Eu?”, apresentado pelo Fantástico nesse domingo (19) pela TV Globo. Nele, o estudante relatou para a jornalista cis Renata Ceribelli as várias transfobias que passou no decorrer de sua vida.

Tanto de profissionais psicólogos, que não sabiam o que fazer com uma criança/adolescente que foi designado menina ao nascer, mas se identificava com o gênero masculino e era um menino, quanto de colegas de escola que não sabiam lidar com a questão trans.

“Ninguém me entendia, muita gente vinha perguntar se eu era menino ou menina. Muita gente me empurrava, puxava a minha calça para ver o que tinha dentro. Ninguém conseguiu, mas todo mundo puxava. Tinha gente que me batia por causa disso e eu sofri muito nessa época”, declarou ele, que afirma dificilmente o bullying vai acabar porque ele vai continuar sendo quem é e as diferenças ainda causam discórdia. 

A mãe Luciana Moreira, que é professora, diz que nenhuma mãe quer ver o filho passar por uma situação de dor e angustia. E que após Bernardo dizer aos seis anos que não é uma menina, mas sim um menino, procurou ajuda. Chegou a levá-lo em vários psicólogos, mas nenhum sabia lidar com o fato de ele ser um menino trans.


Até que chegou um dia que Bernardo disse antes da consulta que passaria numa loja, pois havia prometido para a psicóloga que começaria a usar brincos. Mas a mãe estranhou essa imposição. “Eu não estou levando ele para se ‘curar’, é para entender o que está acontecendo. Então, passei a permitir que ele fosse quem ele quisesse ser”, disse.

Ela autorizou, por exemplo, que ele tivesse um moicano. Combinou: "Você vai ter que lidar com as crianças e eu vou ter que lidar com os pais”.

Porém, além do preconceito que sofria na escola e fora de casa, Bernardo sofria com a puberdade. “É difícil para um homem (trans) ver que ele está se tornando uma mulher”, contou. Há dias em que ele não consegue sequer levantar da cama. “Fico muito triste por não poder ser quem eu sou. Sair na rua e tirar uma camiseta, é muito complicado eu não ter o corpo que eu gostaria de ter”.

Hoje, a vida de Bernardo está a um passo de melhorar. Logo, ele vai começar a hormonioterapia - autorizada legalmente pelo Conselho Federal de Medicina a partir dos 16 anos - que vai ajudar a desenvolver os caracteres secundários masculinos: os pelos crescerem, a voz engrossar e aperfeiçoar as características masculinas que o corpo dele tem. 

E também vai mudar de escola, num espaço em que já será apresentado como Bernardo e com a sua verdadeira identidade de gênero. No dia da reportagem, ele estava indo pela primeira vez ao espaço e ainda não sabia como seria recebido pelos novos e novas colegas de escola. A gente torce pelo melhor possível...


A mãe afirma sentir muito orgulho do filho: 
“Ele é uma pessoa valente, muito forte, eu tenho orgulho dele ser transexual e dele ser quem ele é”, declarou.

AUTOMEDICAÇÃO

O programa também abordou os problemas da automedicação na adolescência. Ou seja, mais de 70% dos casos que aparecem no Hospital das Clínicas, em São Paulo. E que, no caso das mulheres transexuais, travestis e mulheres trans corre o risco de ter AVC, trombo embolia e risco de morte.

Andréa da Costa e Silva, musicista e monitora de telemarketing, disse que após ler os riscos, preferiu esperar. Ela viveu um grande período tentando se entender e que aos 16 anos descobriu que é uma mulher trans. “Foi um alívio, mas entrei em outra questão, porque essas pessoas eram marginalizadas e sofriam muito preconceito. Saiu a dúvida e entrou o medo”.

Somente aos 22 anos, ela decidiu passar pelo tratamento hormonal. “Até tomar o primeiro comprimido eu estava morrendo de medo, fiz toda uma cerimônia, coloquei uma música. Falei: não tem mais volta”. A endocrinologista Karen Seidel afirmou que o tratamento com acompanhamento médico pode ter êxito nas mudanças corporais em dois anos.


Com os hormônios, ela diz que sentiu diferença na suavidade na pele, a diminuição de pelos, curvas em seu corpo, aumento nos seios e no cabelo também. A psicóloga Clarice Cezar Cabral salientou que a transição de gênero não envolve só o corpo, mas toda uma mudança social de reconhecimento de si, de reconhecimento para a família e sociedade.

Andréa afirma que, ao contrário de muitas histórias, ela teve uma aceitação completa de familiares, amigos e colegas de trabalho. Ela se diz preparada até mesmo para um relacionamento. “Eu tinha algumas paixões, que não dariam certo. Mas agora eu me sinto relativamente confortável com meu corpo, estou mais parada para um relacionamento”.

O quadro também salientou no finzinho que Bernardo namorada uma garota, mas que também gosta de meninos e se define bissexual. Mais um exemplo para quem mistura identidade de gênero (como você se enxerga e é dentro das categorias de gênero ou não) e orientação sexual (por quem você se atrai afetivamente/sexualmente ou não).

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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