Pride

“Dar à luz meu filho não afetou minha masculinidade”, diz homem trans Evan Hempel


A gestação e paternidade de Evan Hempel, um homem trans de 35 anos morador de Boston, foi destaque da revista Time no último ano. Na verdade, o texto é de sua irmã Jessi Hempel, que revela todos os desafios e novidades que rondam a “nova família americana”.

No texto, ela descreve que o irmão – que foi designado mulher ao nascer, mas que se identifica com o gênero masculino e é um homem - sempre quis ser pai. Quando criança, ele brincava muito mais de boneca que qualquer outra criança. E tinha em sua agenda uma lista com nomes dos possíveis filhos: Kaya, Eleanor, Huxley.

Ele revelou aos amigos que é homem trans aos 19 anos, mudou o nome e iniciou a transformação física por meio da hormonioterapia. Mas ao contrário das expectativas, a transgeneridade não abalou os sonhos de ser pai e dar à luz seu filho. Evan teve alergia a antibióticos e preferiu não passar pela mastectomia. Além disso, ele sabia que um dia poderia amamentar um bebê.

Durante o processo de transição, a irmã chegou fazer perguntas invasivas e indiscretas em momentos familiares. Como no café da tarde, em que ela questionou se ele pensava em alterar os genitais. Ele respondeu: “Jessi, não falo sobre a sua vagina na frente da tia Rosie”, levantando uma sobrancelha e dando o seu recado. 

Evan evitou durante um bom tempo os médicos, assim como muitos homens trans. De acordo com a National Transgender Discrimination Survey, um a cada cinco homens trans já se afastou de profissionais médicos pelo medo de sofrer transfobia. E mais da metade relata que tinha que ensinar tais profissionais como deveria trata-los. Após os 30, Evan foi à clínica Fertily Solution, em Dedham, Massachusetts, e relatou que gostaria de engravidar.

COMO ENGRAVIDAR?

O Fenway Institute estima que mais de 2 mil homens trans passaram no último ano pela gravidez. Mas ainda há poucas pesquisas sobre o assunto, como um artigo médico escrito em 2015 pela Universidade da Califórnia. Dra. Juno Obedin-Maliver, de São Francisco, e Dr. Harvey Makadon, da Havard Medical School, declaram que, em forma e função, a gravidez de homens trans não é tão diferente da gravidez de mulheres cis.
Dr. Harvey Makadon e a Dra. Juno Obedin-Maliver

Na maioria das vezes, eles precisam parar de tomar testosterona e os corpos voltam a ovular novamente – a testosterona não impede necessariamente uma gravidez, pois alguns já tiveram gravidez involuntárias ao tomá-lo. E se o parceiro é um homem cis ou uma mulher trans não redesignada, homens trans podem tentar engravidar sem intervenção médica.

Como a parceira de Evan é uma mulher cis, ele teve que utilizar o esperma de um doador e fez por meio de inseminação artificial. Na primeira tentativa, há cinco anos, não deu certo. Ele fez uma pausa antes de começar novamente, há três anos. Como tinha baixos níveis de progesterona, hormônio que ajuda a manter a gravidez saudável, interrompeu a hormonioterapia com testosterona e iniciou o novo tratamento. 

Ele estima que gastou com todo o processo – medicamentos, visitas médicas, ultrassom – cerca de 12 mil dólares (ou R$ 37.667,00). Caso a inseminação não funcionasse, ele poderia tentar a fertilização in vitro.

Certo dia, Evan recebeu o telefonema do endocrinologista Ania Kowalik, contando a novidade que ele estava ansioso para receber. E logo mandou uma mensagem para a irmã: “estou grávido!”.

A TRANSFOBIA A UM HOMEM TRANS GRÁVIDO

“Eu estava animada por ele, mas também assustada. Pensei no que os estranhos poderiam dizer ao meu pequeno irmão barbado, de barriga grande, quando ele teria nove meses. E eu me perguntava, ele estaria a salvo?”, disse a irmã, salientando que sabia da violência que pessoas trans passam.

Todos os apontamentos e preconceitos da sociedade faz com que muitos homens trans grávidos tenham que se preocupar também com a saúde mental. Obedin-Maliver e Makadon diz que muitos pais trans eram solitários e questionavam seus corpos. “A gravidez pode levar os homens a reconhecer que eles ainda têm órgãos reprodutivos considerados femininos, o que para muitos pode ser difícil, no entanto gratificante pela possibilidade de engravidar”.
Evan e o filho

Em grupo no Facebook, Evan chegou a conversar com um amigo que deu à luz seu filho aos 20 anos e que a gravidez o catapultou para a depressão. “Era como se todas as coisas que eu odiava no meu corpo estivesse ressurgindo, e eu me sentia horrível comigo”, disse o rapaz. O mesmo não aconteceu com ele, que se sentia muito legal que seu corpo pudesse fazer isso, engravidar sendo um homem.

É por isso que Obedian-Maliver diz que não há uma regra para comportamentos de homens trans, tampouco em relação a masculinidade. Ele faz um comparativo. “Pegue duas mulheres cis grávidas e suas experiências serão diferentes e não atribuímos isso à sua femininilidade. Temos que ter cuidado com isso e não dizer que há uma única experiência de homens trans grávidos”, declarou.

Mas uma coisa é certa, d
urante a prescrição de hormônios, muitos médicos começam a receber perguntas de pacientes sobre reprodução. “Querem saber sobre a criopreservação”, afirma Obedin-Maliver, referindo-se ao processo de congelamento de óvulos saudáveis, antes de iniciarem a hormonioterapia com testosterona. “Os homens trans querem saber quais são suas opções”.

A GESTAÇÃO

Durante o primeiro trimestre, Evan trabalhou toda a semana e não comunicou ninguém sobre nada. Mas seu corpo às 20h30, não importava onde ele estivesse, adormecia. Em novembro o supervisor começou a perguntar porque ele estava “relaxando” e Evan teve que dizer ao empregador que é um homem trans e que estava grávido.

Ele conversou com a mulher do RH, logo que acabou de vomitar no banheiro. Disse à mulher que queria compartilhar algumas informações pessoais e comunicou que é homem trans. Ela perguntou por qual motivo ele estava trazendo aquela informação. “Bem, eu estou grávido”. O rosto da mulher se quebrou em um sorriso ela disse: “Isso é inesperado, mas é ótimo”. E trocou informações sobre suas filhas.
RH sorriu quando ele contou que era homem trans e estava grávido

Evan preferiu não falar para muitas pessoas que não conhecia bem. “Ele não precisava, pois nunca parecia grávido. Era um cara com barriga de cerveja. Usava camisas largas para trabalhar, às vezes com coletes. Quando suas calças pararam de abotoar, ele usou mais baixas e aderiu aos suspensórios”, contou a irmã.

Para ele foi ótimo que ninguém se atentasse ao seu corpo, mas ao mesmo tempo reconhecesse a perda de não ter ninguém acariciando a barriga e participando daquele momento tão especial.

SEGURO NÃO COBRIA GRAVIDEZ DE UM HOMEM

A parteira de Evan foi Clare Storck, que trabalhava no Hospital Mount Auburn, em Cambridge, e também atendia como doula. Evan foi o primeiro homem grávido que ela acompanhou o parto. O único problema foi que ele descobriu que a recepcionista não poderia inserir gênero masculino para abrir um registro obstétrico para ele.

O seguro de saúde se recusava a cobrir seu teste de gravidez porque ele era do sexo masculino. “Meu sexo é feminino, e meu gênero é masculino”, dizia ele. Ele conseguiu ter o dinheiro reembolsado, porém tinha que explicar toda vez que voltava. Ele teve que chegar sua seguradora e pedir para que seu sexo fosse mudado temporariamente para feminino.

“Quando recebo cartas de seguro, eles não dizem ‘senhor’ ou ‘senhora’. Eles dizem: ‘Querido Evan Hempel’, e isso é muito bom. No final do dia, foi apenas frustrante para obter a negação dos serviços”. Apesar da limitação inicial do software, ele afirma que teve excelentes cuidados no hospital, que tinham recebido treinamento de Makadon.

O parto ocorreu no dia agendado. Evan e a companheira chegaram ao hospital depois da meia noite, indo direto para a recepção. Uma enfermeira passou por eles. “Você pode imaginar o que ela deve ter pensado?”, perguntou ele. Uma mulher com malas, uma mochila e uma pasta de papelada, e um homem que não carregava nada além de uma bola de parto de ioga roxa, que empurrava contra a parede, inclinava-se sobre ela e gemia. O bebê nasceu.

O BEBÊ

Seis dias depois do parto, Jessi e seu parceiro foram visitar Evan e o pequeno filho. “Quando chegamos, Evan acabava de dar de mamar. Ele atendeu a porta de pijama com o bebê no colo. Evan entregou meu sobrinho para mim, e imediatamente, o bebê começou a gritar. Entreguei-o de volta ao meu irmão, que fez um gesto para que todos nós sentássemos na grande mesa de madeira da cozinha e então começasse a dar de novo o peito”, contou a irmã.

O bebê se alimentou, dormiu e voltou a se alimentar.
"Eu sempre fui Evan, sempre tive essas partes, eu sempre me senti como eu"

Jessi questionou o irmão se o parto havia mudado como ele pensava sobre o próprio gênero, se ele não questionava a própria masculinidade, se o discurso de que “é um homem preso no corpo de uma garota” é real. Ele apenas respondeu: “Meus amigos não costumam falar isso. Eu sempre fui Evan, sempre tive essas partes, eu sempre me senti como eu, e eu sou um cara”.

Talvez a informação tenha ficado mais há vários cavalos-marinhos, com desenhos costurados em cobertores. O cavalo-marinho macho dá à luz depois de carregar ovos em uma bolsa protetora em sua barriga. A masculinidade do cavalo-marinho não é ameaçada pela gestação, ela é reforçada.

A irmã finaliza: “Evan continuará amamentando por um tempo. Depois, vai começar a tomar testosterona novamente. Sua barba se encherá, seu peito vai diminuir ao ponto que ele vai se sentir mais confortável. Para os estranhos, sua família será como qualquer outra: um grupo de crianças e adultos que se juntaram um ao outro. À noite, meu irmão vai saber o que todos os pais sabem: este bebê é um milagre”.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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