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“Falta preparo para clubes LGBTs e funcionários receberem homens trans”


Por Neto Lucon

Dois homens trans relataram sofrer transfobia e constrangimento ao tentarem entrar no início deste mês um clube voltado para a população LGBT de São Paulo. Enquanto um não pôde entrar por não aceitarem documentos com o nome social, outro relata que tinha o nome do RG exposto para todos.


Fellipe Martinez, de 24 anos, declara que costuma frequentar o clube Freedom ao lado da esposa, uma mulher cis. Mas que sempre que chegava o recepcionista fazia questão de falar alto o seu nome do RG, que não está retificado. 

“Aguentei isso quieto por muito tempo, mas isso estava acabando comigo, então quase saí na mão com ele na recepção. Discuti feio e pedi para que ele me respeitasse, pois o meu nome é Fellipe e que exigia ser tratado como qualquer outro homem que fosse lá. Agora ele mal olha na minha cara”, diz.

Durante um show, Fellipe conta que a apresentadora perguntou se havia entre os frequentadores algum homem que gostava de mulher. “Quando eu levantei a mão, ela disse: ‘eu falei homem, não sapatão’”, fazendo todos darem risada, desrespeitando o gênero dele e confundindo orientação sexual com identidade de gênero. Ele afirma que até para usar o banheiro se sente constrangido, pois veem todos olharem desconfiados. “Até mesmo o segurança que fica na porta”.

Segundo Fellipe, há falta de preparado de clubes gays ou LGBTs em geral de lidarem com a população de homens trans. “Não sabem nos acolher nem um pouco. São extremamente despreparados. Para eles é como se nós não existíssemos”, afirmou.

"Não houve acolhimento"
Fernando Valeriano, que mora em Mogi das Cruzes, revela que recebeu um VIP de um amigo e foi no dia 4 deste mês ao clube. Ao chegar, pediram o documento na portaria. Ele, que tem 33 anos, mostrou o cartão do SUS, CPF, alegou ser homem trans e que estava retificando a documentação. Mas exigiram o RG para que ele pudesse entrar.

“Meu RG é muito antigo, eu tinha uns 13 anos e ninguém acredita que sou a mesma pessoa. É por isso e por estar em processo de troca de documento que não ando com o RG. Expliquei a situação, conversei até com o dono, mas não deixaram eu entrar. Pensei que houvesse sensibilidade para a nossa causa, que essa questão de documentação é sempre um problema para as pessoas trans, mas simplesmente fui barrado”, desabafa. 

Ele afirma que em Mogi das Cruzes nunca passou por uma situação parecida, pois quando vai a algum espaço e fala que é um homem trans, todos são bastante discretos e permitem a sua entrada respeitando o nome social e o número da documentação, apenas. “Ainda falta muito preparo para lidar com homens trans. Eu fico triste por ver ambientes que deveriam ser acolhedores com a gente fazer isso. Acabei ficando na praça”, declara.

PROPRIETÁRIO DIZ QUE ERRARAM O NOME DO CLUBE

Procurado pelo NLUCON, o responsável pela Freedom Rogério disse que os homens trans devem ter se equivocado com o nome do clube, pois se trata de um espaço que trabalha com a população trans (confirmamos com eles, mas isso também acontece em vários espaços LGBTs).

Ele frisa que a casa é voltada para o público gay, hétero e trans e que “qualquer que venha a ser o gênero dele ou dela não entra em questão”. E
 justifica dizendo que sequer difere o valor da entrada de homens e mulheres.

“Estou à disposição para prestar qualquer esclarecimento que venha ser necessário, mas desde que seja verídico. Meus funcionários são bem instruídos quanto a isso. Qualquer funcionário que venha denegrir a imagem da pessoa, seja por opção sexual (sic), cor, situação econômica, enfim, sabem que o respeito é a garantia do emprego”, afirmou.

ADVOGADA DIZ QUE NOME SOCIAL DEVE SER RESPEITADO

A advogada Carolina Gerassi, que é especialista em direitos LGBT, declara que estabelecimentos podem pedir o documento que identifique a pessoa para o controle da empresa e a entrada de menores, por exemplo. Mas que eles não podem constranger ao utilizar o nome de registro em detrimento do nome social. 

Ela orienta que quem se sentir ofendido deva ir, se possível com testemunha, à Delegacia de Polícia de Repressão aos Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) para abrir um Boletim de Ocorrência e procurar a Secretaria da Justiça, que também promove sanções administrativas em orgãos e empresas que violam o direito das pessoas LGBT e utiliza da lei 10.948, de 2001, que pune estabelecimentos comerciais da prática LGBTfóbica.

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