Pop e Art

Homens trans se tornam guerreiros ancestrais em exposição fotográfica na BA; veja!


Por Neto Lucon
Fotos: Andréa Magnoni
Ilustrações: Roddolfo Carvalho

Oito homens trans foram modelos do projeto fotográfico GuerreirXs, que representam figuras místicas de guerreiros de diversas épocas e culturas. A ideia é mostrar que eles sempre existiram, lembrando da luta por dignidade, resistência e visibilidade.

As fotos foram utilizadas no trio do grupo “Famílias Pela Diversidade”, da 15ª Parada LGBT de Salvador de 2016, e são divulgadas pela primeira vez no NLUCON.

Os 8 guerreiros trans são: Théo Meireles (guerreiro viking), Diego Nascimento (Massai - tribo do Quênia), Pedro Skooby (Maori - povos da Nova Zelândia), Theo Gonçalves (Pirata), Adriel Brito (Samurai), André Andrade (Tupinambá), João Hugo (Xangô) e Bruno Santana (Shiva).

“Acredito que homens trans também foram guerreiros medievais, samurais ou até mesmo que não puderam ser tais guerreiros justamente por serem trans, mas algo é certo: eles sempre existiram e lutaram pelo direito de serem quem são”, diz a fotógrafa-ativista Andréa Magnoni.

O projeto foi criado por três militantes cis e apoiadores da causa trans de Salvador: a fotógrafa, o artista plástico Roddolfo Carvalho que fez os desenhos ora a partir das fotos, ora in loco no momento dos ensaios e a educadora Beth Dantas que ajudou na produção dos ensaios e a negociar o apoio do GGB (Grupo Gay da Bahia) para as impressões.

O trabalho levou cinco dias para ser realizado, com os figurinos do Acervo Boca de Cena e do Roupeiro do Teatro Castro Alves. 
A exposição itinerante deve também fotografar guerreiras travestis e mulheres trans, por isso a opção em nominar o ensaio com o X, de forma a abranger todas as identidades trans possíveis, sejam elas binárias ou não. 

Confira as fotos e os depoimentos dos modelos: 


Guerreiro Tupinambá: André Andrade - graduando de matemática



'Esse projeto, além de lindo é fortalecedor! É maravilhoso ver meus pares e irmãos de luta juntos e perceber o quão faz sentido dizer que juntos somos mais fortes, é sentir-se acolhido dentro de uma sociedade cis-normativa que nos exclui, nos invisibiliza e tenta nos deslegitimar, é entender que ser o guerreiro é sinônimo de resistência, resistência para ocupar todos os lugares que nos são negados, resistência para lutar as batalhas diárias. Fiquei muito contente pela iniciativa do projeto, a pintura e as fotos ficaram lindas, fotografar com a Andréa é realmente maravilhoso e mais ainda, ver como o resultado junto aos outros GuerreirXs ficou bom. Força irmãos, vocês são incríveis!"


Guerreiro Massai: Diego Nascimento - estudante do ensino técnico



'Falar sobre o que eu senti vivenciando o guerreiro massai é invocar sentimentos contraditórios, ao mesmo tempo o orgulho de ter representado um guerreiro africano e a raiva de saber que na mesma cultura que representei mulheres e homens trans eram tratados como posses desses mesmos guerreiros. Apesar de tudo isso, o sentimento ao me ver nas fotos foi de orgulho, deixando um pouco de lado a cultura na qual o guerreiro massai está inserido, representa-lo é trazer pro formato imagético o guerreiro que nós temos que ser todos os dias, o projeto Guerreirxs é maravilhoso e extremamente representativo, quanto a isso só devo agradecer a Andréa Magnoni, Beth Dantas e Roddolfo Carvalho por terem elaborado e ido atrás de montar esse projeto maravilhoso, o cuidado com as singularidades de cada um de nós ao escolher quais guerreiros íamos representar, a preocupação conosco enquanto pessoas para além dos ensaios, enfim, muito orgulho de fazer parte disso. Avante Guerreirxs!'


Guerreiro Samurai: Adriel Brito - estudante do ensino técnico



"O meu Samurai ainda não teve o direito de largar a katana e usar uma flor, não dá para descansar em guerra. Eu sou um Samurai todos os dias, porém ganhei vez e voz quando fiz parte dos GuerreirXs. Ter participado deste grande projeto foi uma honra, minha colaboração foi o máximo de mim e de tudo que luto todos os dias, afinal o segredo de um Samurai é estar pronto para tudo. Quando a ideia foi passada para mim, fiquei super empolgado. Chegado o dia do ensaio, só tenho agradecimentos a O trabalho dessa equipe foi/é indispensável pois pessoas trans não têm direito a estudo, a trabalho, a educação, a família, a respeito, nem sequer ao nome. Nos é negado o direito de existir e os GuerreirXs foi mais uma forma de lutar contra todo esse cis-tema."


Guerreiro Pirata: Theo Gonçalves - graduando em Ciência da Computação



'Ser um integrante GuerreirXs foi, de longe, uma experiência incrível pra mim! Me remeteu, dentre outras coisas, a minha infância, quando costumava ir para as festas de São João e minha mãe fantasiava eu e meu irmão, e eu nunca pude usar a aparência do Caipira, o tão sonhado "bigodinho" rs. Ver que hoje eu posso/tenho força pra reivindicar o que visto, o que sou, é maravilhoso, e melhor ainda, é ver que, agora, tem pessoas que ouvem e se sensibilizam/compreendem esses anseios e que os tornam possíveis. O pirata que fizemos não é qualquer um. Nosso pirata é forte, sabe o que quer, como e quando quer, e sabe que pode conseguir, ele brinca com as dificuldades que aparecem, é sagaz (algumas vezes sarcástico), sente o peso da sua existência, e segue seu caminho sabendo do seu potencial. Sabe, também, dar valor a cada uma de suas conquistas e seus amigos que estão sempre por perto a cada "homem ao mar", porque, afinal, tudo por aqui foi conquistado na ponta da espada. Não sei mais identificar o que me separa desse pirata, eu sou ele, ele sou eu, nós sobrevivemos, nós resistimos. Foram momentos deliciosamente vividos, cada detalhe, que só foram possíveis graças ao trabalho dessa equipe linda, parabenizo também a todos os meus irmãos Homens Trans GuerreirXs, seja os envolvidos no projeto ou os que estão representando na vida, e desejo força para todos nós em nossa caminhada.'


Guerreiro Xangô: João Hugo - vendedor



"Foi muito gratificante ter sido convidado para um ensaio tão potente e tão sensível ao mesmo tempo. Sensível pela intenção que se dá ao projeto, potente pelo que ele de fato retrata, que somos guerreiros! Guerreiros de diferentes épocas, aspectos, corpos e fé! Fazer Xangô é de uma total responsabilidade, mas como bom virginiano, bom filho de Xangô, missão dada é missão cumprida! Incrível me vestir de Xangô, correu uma energia sensacional pelo meu corpo, acho que consegui passar isso nas fotos... Amei também o desenho que Rodolfo fez, o cara é um monstro nos desenhos! "


Guerreiro Shiva: Bruno Santana - professor de Educação Física


 

'Shiva, o Guerreiro mítico que destrói tudo aquilo que não é sólido, a divindade hindu que promove a renovação pela destruição. A sensação foi de transcendência, potência e luta.. fazer o Shiva só potencializou o Guerreiro que habito. Sou esse guerreiro que trava batalhas diárias e luta contra o cis-tema opressor que invisibiliza, violenta, silencia e mata nossas existências. Minha luta é pela destruição desse Cis-tema. Me identifiquei muito com a personalidade do Shiva, ao mesmo tempo que ele traz a serenidade ele é destemido e firme. E é nesse movimento de destruição e renovação que todos os dias me desconstruo e me reconstruo na luta, para continuar existindo e lutando para que o mundo seja um lugar habitável para todas as pessoas.'


Guerreiro Maori: Pedro Scooby - graduando em Veterinária



"Nós vivemos em uma sociedade cercada por tabus e preconceitos, acredito que diante disso decidir assumir minha identidade de gênero foi a melhor forma que encontrei para ter forças de lutar contra essa cultura impiedosa. Pra mim ser um guerreiro é isso, é uma guerra com batalhas diárias. E eu quero poder passar isso pra outros guerreiros, como uma forma de incentivo a não desistir mesmo enfrentando todas essas questões que nos rondam por conta da sociedade. Recebi como um enorme desafio a ideia de interpretar um guerreiro Maori, de inicio achei uma ótima ideia mesmo sabendo que sou péssimo para fotos e extremamente restrito na arte de fazer fotos com caras e bocas, porém com o passar do tempo fui estudando o dia a dia dos guerreirxs, a cultura, e fui me apaixonando por cada coisa que pra mim era novo, e foi uma experiencia tão gratificante por estar representando um guerreiro que tem uma cultura passada de geração em geração, ter uma equipe que te faça se sentir bem, pois acredito que seja o ponto "X" da questão, acredito que me senti muito mais a vontade com a equipe das fotos, talvez mais do que a equipe que trabalho no dia a dia, me senti literalmente em casa. Enorme gratidão a equipe que produziu o projeto e as fotos: Andréa Magnoni, Roddolfo Carvalho, Beth Dantas e a impecável maquiagem de Ingridy Carvalho."


Guerreiro viking: Théo Meireles - graduando em Jornalismo



'Foi uma experiência engrandecedora e de fato determinante nesse meu processo de transição. Encarar as lentes talentosas de Andréa Magnoni - Fotos com Alma, sob sua direção altruísta me transmitiu segurança para revelar as expressões de um verdadeiro viking. Ainda no campo dos privilégios, estive diante de Roddolfo Carvalho, sob seu olhar concentrado e o registro dos seus traços que traduziam meus detalhes com perfeição, isso sem falar nos cuidados e carinho da produção primorosa de Beth Dantas! Achei a escolha do meu personagem fruto de um claro trabalho de pesquisa, e, definitivamente, o guerreiro viking foi pensado com cuidado para mim. Não tem como não se sentir acolhido por um projeto como esse, por todo esse carinho com a gente, respeito às nossas necessidades e soma de forças pela nossa causa. A palavra de ordem é gratidão!'

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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