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Quem era Dandara dos Santos, a travesti que mostrou a cara da transfobia no Brasil ao mundo


Por Neto Lucon


O assassinato da travesti cearense Dandara dos Santos, de 42 anos, morta a pauladas, espancamento e tiros no dia 15 de fevereiro de 2017 despertou algo que a sociedade fingia não perceber (ou fazia questão de ignorar) em outras reportagens: a violência em que a população trans é submetida no Brasil.

Ali, não adiantava fazer vista grossas. Dandara foi assassinada à luz do dia, em plena rua, por pelo menos oito homens. Eles a ofendiam pelo seu gênero, demonstravam ódio pela sua existência e até gravaram. Era a certeza "de que ficaria por isso mesmo". Depois, o vídeo caiu nas redes sociais. E mesmo quem rejeitava falar, viu o sangue derramado no rosto.

O crime causou revolta, gerou manifestações da sociedade civil e ongs, e o posicionamento do governador do Ceará, Camilo Santana. Não demorou e oito dos acusados fossem pegos pela polícia. Alguns com menos de 18 anos, foram para instituições de reabilitação. Outros estão em prisão temporária.

Jornais de todo o mundo, como The Mirror, BBC, The New York Times, noticiaram o assassinato, mostraram o vídeo e colocaram em pauta a pouco falada transfobia. 


QUEM FOI DANDARA?

A história de Dandara não é diferente da de muitas travestis do Brasil. Seja em vida – e na peleja pela existência trans - ou no fim trágico, pela intolerância e ódio pela identidade de gênero. Afinal, o Brasil é o país que mais mata travestis, mulheres transexuais, homens trans e outras transgeneridades no mundo, de acordo com a ong Transgender Europe.

Embora sempre se identificasse com o gênero feminino, ela teve uma vivência de homem gay e só revelou ao mundo que era travesti quando atingiu a maioridade. Aos 18 anos, mudou completamente o guarda-roupa, passou a tomar hormônios femininos (que desenvolveram os seios) e a pedir que fosse chamada de Dandara.

De blusinha e shorts, era o suficiente para que tivesse vários direitos tolhidos e conhecesse o preconceito por sua identidade de gênero: a transfobia. A mãe, Francisca Ferreira de Vasconcelos, de 74 anos, afirma que a filha foi muito humilhada durante toda a vida. “Eu sabia só de ver a carinha. Jogava verde e ele sempre caía”.

Em conversa com o NLUCONLabelle Rainbow declarou que a amiga frequentava muito o bairro onde ela mora. "Ela era alegre e era sempre notada quando estava na rua. Por conta disso, era vítima de comentários e chacotas", disse. Labelle participou da organização do ato que repudiou o crime contra Dandara e outros crimes de transfobia. 

A violência era comum. Tanto que a irmã Sônia Maria contou ao portal G1 que certa vez Dandara foi agredida por vários homens transfóbicos no Bairro Jurema e que chegou a ser levada a um hospital por conta dos golpes que sofreu. Mesmo assim, ela era exemplo de resistência, não se intimidava e continuava sendo exatamente quem era: Dandara. 


Aos 25 anos, foi tentar a sorte na conhecida cidade das oportunidades, São Paulo, destino de muitas travestis que estão no nordeste. Foi cabeleireira, mas também descobriu que as rasas oportunidades no mercado formal de trabalho para travestis. As portas estavam fechadas pelo preconceito. 

Pelejou por São Paulo até os 35 anos - a expectativa de vida de uma travesti no Brasil - quando re
tornou a Fortaleza e passou a morar com a mãe.

Apesar de não ter sido reconhecida em seu gênero feminino - Francisca ainda chama Dandara de "filho" e utiliza o nome de registro - existia um bom relacionamento entre mãe e filha, muito cuidado e cumplicidade recíproca. Todos que conviviam com as duas sabiam da relação amorosa. Talvez não houvesse entendimento, apenas amor. 


A ROTINA

Se por um lado era vítima de transfobia em Fortaleza, por outro Dandara era acolhida e admirada por muitas pessoas, sobretudo no bairro onde morava. Era alegre, bem-humorada e prestativa. Acostumava a ajudar a todos que pediam, mesmo quando estava cansada ou quando acabava de chegar em casa. 

“Fomos amigos, mas há três anos que não nos víamos. Dandara sempre foi uma pessoa alegre, respeitosa e respeitada pelas pessoas dos locais onde ela morou”, declarou Germanno Santos. Sônia diz que ela não negava um favor a ninguém.

Nos últimos anos, acostumava acordar por volta das 5h, comprava pão e às 6h já estava servindo o café-da-manhã na mesa para a mãe. Ela ajudava dona Francisca nas atividades domésticas e também vendia roupas usadas – que ganhava de várias pessoas - para complementar a renda de casa.

Francisca relata que dentro de casa, era possível vê-la bebendo café, fumando cigarro e deitada em frente à televisão. Nas ruas gostava de beber e brincar com as pessoas. O seu sonho era montar um salão para dar continuidade à carreira de cabeleireira e comprar um carro.



Uma vizinha que preferiu não se identificar disse ao jornal O POVO que no dia de sua morte viu Dandara no supermercado comprando pão. “Ela ia todas as manhãs, ajudando um senhor ali debaixo”.

Ela havia pegado carona em uma moto e foi deixada no Conjunto Ceará, onde cresceu, fez amigos, distribuiu favores, cuidou da mãe e foi assassinada. 
Na última imagem que foi vista antes do espancamento ela deu tchau e sorriu para quem estava ao seu redor. Esta era a Dandara. 

O ASSASSINATO

No vídeo divulgado nas redes sociais, a vítima aparece caída no chão enquanto sofre a violência de vários homens. Ela não ofende e nem retribui as pauladas, pedradas e chutes. Derramando sangue, é chamada de “viado sem peito”, “imundiça” de calcinha e tudo” e é ordenada a subir em uma carriola.

Ao ser colocada em cima, as agressões continuam. Dandara apresentava sinais de agressão na cabeça e por todo o corpo. A pessoa que filma diz em tom de deboche: “Eles vão matar o viado”. Depois, ela recebeu um tiro, que culminou em sua morte.  

Embora o vídeo seja chocante, foi por meio dele que os policias do 32º DP conseguiram identificar e prender sete acusados. As prisões só foram feitas dois dias após a divulgação do vídeo e 18 dias após a morte de Dandara.

O irmão Ricardo Vasconcelos, de 39 anos, destaca a demora em apurar o caso e também a demora da polícia em chegar para conter os assassinos no dia da violência. Ele afirma que fizeram várias denúncias por meio do 190, mas a PM-CE só chegou depois que a irmã estava morta.


TRANSFOBIA MATA

Em encontro com o governador, na sala de reunião do Palácio da Abolição, a mãe de Dandara desabafou: “Açoitaram meu filho, governador. Fizeram tanta coisa ruim com ele... O senhor sabia que o sangue dele escorria pelo rosto, e ele ia limpando com a mãozinha assim? Minha maior dor é que ele chamou por mim. Enquanto batiam nele, ele dizia: ‘Eu quero minha mãe. Cadê a minha mãe?’ E eu não estava lá”.

Após o assassinato, a Delegacia da Mulher do Ceará passou a receber e acolher as denúncias de travestis e transexuais, reconhecendo a identidade de gênero desta população. E o tema começou a ser falado com grande alcance na mídia. Francisca cogita: “Será que foi uma missão que Deus deu para meu filho? Dele ser sacrificado para ter essa repercussão internacional toda e mudar essa situação?". 

Preferíamos que Dandara estivesse viva e alegre, como sempre foi – bem como todas as travestis e pessoas trans vítimas de crime de ódio - e que outras ações de sensibilização fossem feitas para que a transfobia cessasse e esta situação de vulnerabilidade ao grupo não ocorresse nunca mais. Para os amigos, colegas e familiares ficam apenas a sensação de tristeza, saudade, revolta, sede por justiça e mudança.

Pelo caso e a repercussão, Dandara deixou de ser apenas estatística, um número, um triste dado. Mostrou a cara da transfobia do Brasil ao mundo. Despertou a vontade de que os acusados de crimes transfóbicos sejam punidos, que os direitos da população sejam reconhecidos. E evidenciou que há muita gente na luta (conforme anuncia a campanha) #PelaVidaDasPessoasTrans.

8 comentários

charles ramos disse...

Materia ta de parabéns! Lamentável essa situação. Até onde vai a maldade do ser humano.

Professor Edi Santana disse...

Primeiro quero parabenizar o jornalista About Neto Lucon, pela bela matéria, triste mais verdadeira.
Esse é o retrato da minorias no Brasil, todas as minorias no Brasil sofre todo tipo de abuso até a sentença de morte.
A intolerância as diferenças no País é assustador e não vemos ações dos nossos governantes e parlamentares pra que isso amenize.

diasisaias disse...

Falta Respeito
Falta humanidade
Isso é um absurdo cara..
):

NEFELIBATA disse...

É uma enormidade de sentimentos e emoções . Vergonha , raiva , ódio , pena , revolta ...o que leva um ser humano a achar que pode simplesmente tirar a vida de outra pessoa por ela ser diferente ?
Até quando Donas Franciscas terão de chorar pelos seus filhos/filhas mortos .
Existe a Lei : MATAR É CRIME . MATAR É CRIME . MATAR É CRIME .
Não importa quem seja a vítima .

gloria disse...

Alguns homens pensam q são donos da vida das pessoas diferentes deles. Matam as mulheres e os trans por se acharem melhores, são nossos inimigos declarados.Pra eles nós não pertencemos a raça humana, só eles, então tem nos exterminarem. Os homens q não pensam dessa maneira precisam nos ajudar a mudar isso!

Carlos Eduardo disse...

#Justiça pela vida. Parabéns pela matéria.

Anônimo disse...

Eu sou hétero e tenho amigos homossexuais. Amizade e Respeito são exercícios de amor que nada têm a ver com gênero ou sexualidade. Sinceramente não pude deixar de sofrer e me indignar com essa podridão brasileira: é abuso de criança, é incêndio em índio, paulada em morador de rua e tortura a LGBTs, além da inegável violência racial ou contra a mulher ou o professor,contra o idoso... o policial...até quando crimes assim serão comuns???Todo o meu respeito e sentimento à dona Francisca, mãe de Dandara. Muito triste é saber que a mente humana consegue ser tão desumana...perdão pelo desabafo.

Anônimo disse...

Justiça!

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