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Atrizes Renata Carvalho e Dandara Vital falam sobre exclusão de artistas trans na TV e no cinema: "Falta querer"


Por Neto Lucon
Foto: Rafael Sant's

Estreia nesta segunda-feira (3) a novela Força do Querer, da TV Globo, trazendo um personagem homem trans vivido por Carol Duarte. Também está em cartaz nos cinemas, o filme “A Glória e a Graça”, em que atriz Carolina Ferraz interpreta uma travesti. Ou seja, personagens trans estão em evidência, mas quase sempre protagonizado por atrizes e atores cis.


Isso gerou uma discussão sobre representatividade e mobilizou que artistas trans fizessem um movimento de artistas trans e um manifesto oficial. Nele, falam sobre a falta de oportunidade histórica dadas a artistas travestis, mulheres transexuais e homens trans, mesmo quando o personagem possui características e vivências semelhantes.

De olho nesta discussão, o NLUCON convidou duas grandes atrizes travestis e que estão com peças elogiadas pela crítica para falar sobre a questão em um bate-papo pessoal em São Paulo: a carioca Dandara Vital, da peça “Dandara Através do Espelho”, do diretor Diêgo Deleon, e a paulista Renata Carvalho, da premiada “Jesus, Rainha do Céu”, com texto de Jo Clifford e direção de Natalia Mallo.

Empoderadas, sem medos e conscientes do papel enquanto artistas, cidadãs e protagonistas travestis, elas debatem juntas sobre representatividade e explicam por que é tão importante. Algo que envolve não tão somente a arte e o direito do ator/atriz se transformar naquilo que quiser, mas também em transfobia, empregabilidade e falta de oportunidades. Vamos lá!

- Toda vez que surge um papel trans, as pessoas dizem que não há atrizes ou atores trans talentosas e talentosos para ocupar. Conhecendo inúmeros artistas trans, por que vocês acham que esse discurso ainda acontece?

Dandara: Acho que é transfobia mesmo. Na verdade, procuram a gente quando a personagem é pequena. Mas não procuram uma atriz. Procuram qualquer travesti. Certa vez, me chamaram para um teste e só queriam saber das minhas medidas. Não pediram meu currículo, DRT, nada. Fiquei revoltada. Porque personagem forte não confiam na atriz travesti. Antigamente, eu mesma achava que não existiam atrizes trans, mas é esse sistema que nos faz sentir incapazes, desacreditadas. Só quando me aprofundei no teatro é que conheci Claudia Celeste, Jane Di Castro, Renata Carvalho...

Renata: É uma questão humana. Não é que a Glória Perez não deva falar. Mas é a mesma coisa que eu, branca, querer fazer Xica da Silva. E dizer: “desculpa, eu sou do teatro amador, que fazia maquiagem, figurino, cenário, o ator não tem cor de pele...”. Não! Não vou fazer Xica da Silva. Vou chamar uma atriz negra, porque é questão de representatividade. Algo importante de destacar é: se as pessoas querem apenas falar do tema, falar de verdade sobre o tema, ou somente passar por ele. Ou até mesmo por narcisismo. A Carolina (Ferraz), por exemplo, comprou os direitos do filme para montar o filme (A Glória e a Graça) para ela mesma fazer.

- Vocês defendem que personagem trans devem ser feitos e feitas por artistas trans?

Renata: Claro que sim. Se o autor ou diretor não quer essa representatividade, temos que respeitar também. Mas é que essa pessoa saiba que está dando visibilidade, mas não da forma correta. Que a transfobia vai continuar, que nós vamos continuar morrendo, vamos continuar apanhando. Que até para falar da gente as pessoas têm vergonha e não nos colocam, colocam pessoas cis.
Mas boa sorte.

Dandara: E quando chamam a gente é para fazer um laboratório, para sugar da nossa experiência e vivência e dar para um artista cis interpretar. Ou seja, utilizam da gente, prometem visibilidade, mas não dão a representatividade. No final, as pessoas falam que o “Cauã Reymond interpretou”, “o Rodrigo Santoro”, causa aquele burburinho, mas não fala da travesti e da transfobia. Não muda a vida da população trans e nem a vida das artistas que sobrevivem disso.

- Mas e essa defesa de que o ator não tem sexo e que deve fazer qualquer personagem?

Renata: A partir do momento em que eu ver a Dandara interpretando uma mãe de família cis, a gente para com essa reivindicação de representatividade. Mas não é isso que acontece. Voltando a falar sobre os negros, durante muito tempo eles só apareciam em massa para falar sobre escravidão ou como empregados dos protagonistas. Hoje, o tema trans aparece quando a Gloria Perez escala uma atriz cis para fazer um homem trans. E, claro, chama outras pessoas trans de verdade para fazer o contorno, para encher linguiça, para fazer uma ou duas ceninhas. Mas o tema principal, quem levanta a discussão é a pessoa cis, que não tem essa vivência e que talvez nem saiba o que é transfobia.

Dandara: O ideal seria que eu pudesse fazer uma mãe cis, que a Renata pudesse interpretar a personagem que ela quisesse, que a gente tivesse emprego e sempre trabalhando. Mas não é essa a realidade das atrizes e atores trans, que por uma questão social e de preconceito, enfrentam as portas do mercado de trabalho fechadas, até mesmo na arte. Sinceramente, até acho que essa coisa de representatividade cansativa. Ela poderia acabar desde que as coisas estivessem no seu lugar. Que reconhecessem que há travestis, mulheres transexuais e homens trans capazes de estar exercendo qualquer personagem. Mas não é o que ocorre. E da mesma forma que não aceitam que a gente faça uma personagem cis, a gente não aceita que um ator cis faça uma personagem trans.
Renata, Dandara e Neto: "Representatividade importa, sim"

- A Gloria chegou a dizer que a escolha da atriz cis em “A Força do Querer” é que pretende fazer toda a transição de gênero. E que seria difícil um ator trans transicionado passar pelo antes da transição...

Renata: É uma falta de querer. Eles conseguem envelhecer a Regina Duarte para Chiquinha Gonzaga, colocam peito no Rodrigo Santoro para Carandiru, mas para incluir um homem trans e fazer essa transformação não dá? Tenho certeza que esse ator trans faria isso pela arte. Eu, se tivesse que fazer um papel de antes da transição, como homem, para depois mostrar que sou uma travesti, não tem problema nenhum. Então, não querem mesmo. Se acham que representatividade não importa, ela importa, sim. Mas ela diz: “Ah, mas então se vou fazer um serial killer, terei que chamar um assassino?”. Não, né querida... Que comparação é essa? 

- Ela deve incluir outros artistas trans ao longo da novela...

Dandara: A Gloria está fazendo um grande laboratório, foi até no projeto Damas. Ela está sugando, mas a trans não está ganhando nada com isso. É um tipo de escravidão que nos impõe. Nós só servimos de laboratório. E eu falo isso porque temos diversas e diversos artistas que poderiam estar lá naquele lugar. Mas no caso do filme da Carolina eu acho bacana ela colocar uma trans ao lado (a Carol Marra). Acho que ela está dando representatividade.

Renata: Eu discordo um pouco. Quando colocam uma atriz cis para interpretar a personagem trans de um filme, e em volta dela colocam algumas pessoas trans, é como se falasse: “ó, querida, temos um prêmio de consolação para você”. E ainda dizem: “Olha como a gente é legal, colocamos uma trans aqui do ladinho”. Não queremos mais isso. Nós somos protagonistas, somos propositoras. É a mesma coisa de fazer um Seminário só com pessoas cis e ter a gente na plateia. É a mesma coisa. Nós precisamos estar na mesa.

- Então explica o que é representatividade?

Renata: Representatividade é quando nós nos reconhecemos naquele trabalho. É quando nós nos sentimos lembradas, vistas, tendo nossas caras e nossos corpos na televisão. Quando eu era criança não entendia o que acontecia comigo, foi muito difícil. É claro que às vezes aparecia a Roberta Close, de vez em nunca a Rogéria. É por isso que luto pela normatização e humanização dos nossos corpos. Isso quer dizer que nós temos que estar em todos os lugares. E eu não falo só das pessoas trans, eu falo de todo mundo. Esse padrão televisivo, esse endeusamento das pessoas, não é legal. E isso só vai existir quando a gente se reconhecer lá dentro. Quando os negros se reconhecerem na TV, quando a travesti se reconhecer na TV, quando os pobres, as mulheres cis, a mulher negra...

Dandara: Muitas pessoas dizem que, apesar de não ser dada a oportunidade a um artista trans, o assunto está tendo visibilidade. Mas isso não é tudo. A gente tem que ser reconhecida. A sociedade nos leva a crer que a gente não é capaz, nos exclui e nos empurra para a prostituição. A gente respeita quem quer estar, mas a gente sabe que há uma imposição de achar que não somos capazes de outra coisa. Isso é tão naturalizado que, quando a gente reivindica trabalho, quando nem mesmo personagens trans nos dão, as pessoas acham que a gente está reclamando de barriga cheia. As travestis precisam de oportunidade e quem vai abordar esse tema e se sensibilizou de verdade leva isso em consideração.

- Vocês se incomodam com o rótulo "atriz trans" ou "atriz travesti"?

"Sou uma transtriz"
Renata: Não. É o que eu sou. Uso como publicidade e é importante falar, porque nós somos atrizes e travestis. A mídia às vezes muda os termos. Teve uma matéria que eu falei três vezes que sou travesti, daí no título está “Jesus vem transexual”.

Dandara: Eu prefiro falar que sou travesti. Mas também percebo que as pessoas acham que o termo travesti é agressivo. Então, para serem cuidadosas, falam que sou transexual. Foi o que aconteceu naquele texto que você leu. Na verdade, quando me anunciam eu prefiro até que falam que eu sou uma trans atriz. Uma transtriz (risos). Acho que o problema é fazer como algumas fazem. Não querer falar. Ou quando falam, dizem que “o travesti tem que ser inteligente para saber que é um homem”. Isso conta o próprio grupo. É um tiro no pé.

- Você está falando de uma recente declaração da Rogéria?

Renata: Acho que devemos muito à Rogéria, assim como a Claudia Wonder, Claudia Celeste, Phedra de Córdoba... Mas o que a Rogéria tem que saber é que quando ela se coloca como ‘a travesti da família brasileira’, ela tem que saber que a família brasileira quer expulsá-la, que acha que ela é um ‘viado’, querem ela longe de casa, querem ela só para fazer rir. E só para retomar, a gente tem atriz travesti há muito tempo!

Dandara: Somente no projeto Damas, que eu faço parte, somos em cinco travestis e um homem trans. A Claudia Celeste esteve na televisão em 1973. E a mulher, canta, interpreta, dança, poderia fazer um musical, por exemplo. Poderia ser a Ramona na época da Claudia Raia (em As Filhas da Mãe). Mas o que eu falo é que a gente precisa se unir. Quando a Claudia Celeste estava, houve quem questionasse a presença dela. Assim como o movimento negro se uniu para que conseguissem direitos, a gente precisa se unir.

- Quando vocês se perceberam artistas? Tiveram alguma referência? 

Dandara: O meu sonho sempre foi ser paquita na década de 80. Mas a minha grande referência enquanto artista e travesti é a Claudia Chocolate, que fazia shows. Eu me encantava, mas ao mesmo tempo não entendia. Até achei que estivesse apaixonada pela Claudia. Mas para você ter uma ideia, eu me transicionei aos 24 anos. Ela não é uma pessoa conhecida da mídia, mas marcou a minha vida como artista e trans. E ela é minha vizinha. Na minha peça eu falo sobre ela, e cheguei a convidar, mas ela nunca me respondeu.

Renata: Eu comecei no teatro em 1996, eu tinha muito de ver cenas e inventar em frente ao espelho. Então a minha transição ocorreu no teatro. E o engraçado é que eu tenho prêmio de melhor ator, melhor diretor, melhor atriz e melhor diretora. E foi muito natural, porque eu não tinha ideia do que era travesti, gay, porque na minha casa era muito velado. O meu pai xingava o Miguel Falabella no Vídeo Show e eu não entendia. Era muito bobinha. A primeira vez que eu vi uma travesti, eu saí correndo. Mas ao mesmo tempo feminino fez parte da minha vida inteira.

Dandara: Já eu caí de paraquedas no teatro, porque fazia parte do projeto Damas, do Rio de Janeiro, de inclusão social. Eu tinha uma visão completamente diferente de teatro, porque eu queria ser vedete, fazer musical (risos). E quando eu me vi, estava numa companhia que não tinha financiamento e estava limpando todo o chão do teatro. E eu ficava me perguntando: cadê a diva, né? (risos).

- (risos) De alguma maneira a arte te ajudou a lidar com as questões envolvendo gênero?

Renata: Não precisei de psicólogo, analista, nada, porque o teatro resolveu tudo. Primeiro em me descobri gay, depois veio a drag queen, daí falei: “Que interessante usar salto e saia”. Daí eu chegava em casa e demorava horas para tirar aquela roupa e voltar para a realidade. Eu lembro que uma drag falou: “Você vai ser travesti”. E eu me benzia: “não vou ser, jamais”. E eu sou de uma época de drag, que eram as top drags, uma geração mais feminina, a Raphaella Faria. Aí eu me achei em algum momento que eu era mulher trans, porque eu achei que travesti era muito pejorativo. Então eu precisava de uma boceta. Então, eu fui atrás dessa boceta. Boceta, boceta, boceta... (risos) Eu fiz uma peça e o teatro salvou a minha vida diversas vezes. Hoje eu entendo que sou uma travesti, entendo o meu papel como artista, o que isso faz, o que eu posso devolver para o mundo.

- De qual maneira a travestilidade atravessa a sua arte?

Dandara: Quando eu comecei a fazer teatro, eu não queria fazer personagem trans de jeito algum. Tanto é que no ano passado é que fiz a minha primeira travesti no teatro, que foi a Pedra de Sueli, que eu gostei. E a questão não é só ser atriz, é o poder da transformação do próximo. Mas até eu me transformar, demorou também. E foi nessa peça que eu descobri que o meu teatro é trans. Depois eu amadureci muito. Escrevi um blog, e por meio dele, usei no teatro. Hoje eu digo que a minha arte é trans. Se eu puder, vou sempre interpretar uma travesti. Se você dizer: Eu tenho uma personagem cis ou uma travesti, eu vou escolher a travesti. Mas não é uma zona de conforto.

Renata: Eu virei “diretor” de teatro no período de transição, porque eu era muito pintosa, num nível de me chamarem de sapatão na rua. E quando você está nesta transição ninguém te chama para nada. Daí fui de “diretor” para diretora. E quando fui voltar para o palco, parece que eu queria uma autoafirmação para mim mesma, sabe? “Ai, eu queria tanto fazer uma Julieta”. Mas ninguém me chamava para fazer a Julieta. Mas me chamava para fazer a prostituta da esquina. Eu comecei a minha transição em 2007, e desde então todas as minhas peças o tema de travestis e transexual está inerente, porque está em mim. E todas as peças que eu faço são completamente diferentes: uma eu faço Jesus, outra eu faço todas as putas travestis de todos os tempos, outra eu fazia uma princesa que nasceu menino... Então não é uma zona de conforto, porque você pode criar. Você pode ter uma travesti de direita, anarquista, prostituta, médica, advogada, Jesus, Maria Madalena.

- Ser travesti é apenas mais uma característica da personagem...

Renata: É o mesmo que falarem: Tenho o papel de uma mulher. Ok, mas como é essa mulher? E falarem: Tenho o papel de uma travesti. Ok, mas como é essa travesti. Porque se eu for contar a minha história, vai ser de uma forma, se eu for contar a história da Dandara vai ser de outra. Porque por mais que sejamos travestis, somos completamente diferentes.
"Por mais que sejamos travestis somos completamente diferentes"

- Em “Dandara Através do Espelho” e “Dentro de mim Mora Outra” vocês contam as suas próprias vidas. Foi difícil mexer nessas feridas?

Dandara: Até um tempo atrás se eu tivesse que falar de família, abria o berreiro. O teatro me ajudou na minha vida. Às vezes eu ia em uma entrevista de emprego e dizia: “Ai, eu tenho a aparência feminina, mas a voz é tão grossa”. Aí quando eu chegava no lugar eu não abria a boca. No teatro, ao mesmo tempo em que eu estudo um personagem, eu comecei a me estudar, fez com que eu me aceitasse mais do jeito que eu sou. Isso é interessante, porque essa transformação que o teatro trouxe foi para mim e até para os meus pais. Quando eu saí do emprego, eu tive muita dificuldade de arrumar outro emprego, fui arrumar três ou quatro anos depois, e nunca arrumei em empresa privada, sempre em projeto social, em ong. E a minha família passou a me aceitar melhor quando eles viram que eu tinha uma profissão. “Minha filha é atriz”. A minha mãe foi assistir Dandara Através do Espelho e graças a Deus eu vi só no final. Fiquei muito surpresa, porque ela falou que está muito orgulhosa de mim, que amou o trabalho.

Renata: Nesta peça, as pessoas diziam muito: “Nossa, Renata, você é muito boa, maravilhosa, é diferente das travestis, né?”. E isso começou a me incomodar de uma profundidade que eu comecei a falar: “Não, eu sou igual a elas”. Em Santos, tem uma rua de prostituição que chama Amador Bueno, que começa com o teatro e no meio. Eu digo que só não estou lá porque sou magrinha, bateu um vento e me jogou para dentro do teatro. Porque se o vento fosse para o outro lado, eu estava na esquina. Então eu me dei conta que não estava passando a mensagem correta, que precisava falar de outras travestis e mulheres trans. Porque parece que nós somos as melhores travestis do mundo, as travestis da família brasileira, e que as outras não se esforçaram. Foi muita sorte, mesmo. Se a Natália não tivesse me chamado para fazer Jesus, se ela tivesse chamado uma atriz cis para este debate aqui em São Paulo, o que aconteceria? É por isso que vou escrever a peça “Eu Travesti”, que vai contar a vida de outras.

- Agora, que está em cartaz com Jesus, Rainha do Céu, gostaria de saber de qual maneira esse texto mexeu com você?

Dandara: Posso falar uma coisa antes? Eu nunca tive vontade de chorar em uma peça. E na sua eu tive vontade de chorar loucamente. Me senti representada.

Renata: A Natalia Mallo, que é diretora da peça, sempre fala: “Não adianta a gente falar, a gente tem que fazer o que a gente fala”. Então toda vez que acontece alguma coisa, ela fala: “O que Jesus faria?”. Para a gente tentar ter essa compaixão também. Acho que essa paciência, a compaixão, o perdão, eu estou me perdoando e perdoando as pessoas muito mais. E eu acho que esse espetáculo tem uma função. Sinto as mulheres cis participativas, balançando a cabeça, os LGBTs em geral se emocionam porque a catarse acontece. É uma peça transfeminista. E a coisa que eu mais gosto de escutar numa crítica, é o que a Dandara falou para mim: eu me sinto representada pelo espetáculo. Para mim já é um grande ponto.

Dandara: Teve uma mulher que ficou a peça toda com a vela e o cálice levantado. Parecia que ela estava numa missa.

- O que ainda hoje as pessoas precisam desmistificar da travesti?

Dandara: A travesti é celebridade mesmo sem ser famosa. Qualquer lugar que a travesti vai, as pessoas querem ver, falar, cutucar, paquerar, coçar o pau... Acho que a gente tem que humanizar a travesti.

Renata: Bem, a gente ainda carrega muita coisa da ditadura. As pessoas têm uma visão errada de esquerda, as travestis eram presas só de andar na rua. Comecei a perceber os estigmas a partir do momento em que me tornei travesti, porque para as pessoas eu me tornei puta, soropositiva, marginal, que anda pelada e bate nas pessoas. E ainda mais por ser magra e agende de prevenção. Assumi o que chamava e entendia de homossexualidade aos 20, mas minha vida virou um inferno. Além de me expulsarem de casa, e eu fazer a louca e não sair, minha mãe roubava minhas roupas e eu pegava de volta. Era uma briga silenciosa. Até que um dia eu falei: “Gata, se a você continuar roubando, eu vou ter que continuar comprando, vamos parar esse jogo? (risos)”. Aí com 23 eu fui expulsa de casa mesmo. Fico pensando o que teria acontecido comigo se eu fosse expulsa aos 12, 14 anos. Nem sei se estaria viva hoje.

Dandara: É interessante a Renata falar isso porque eu fui expulsa de casa com 25 anos. E se eu tivesse transicionado antes, como eu viveria? Ia cair na mão de pessoas com todo tipo de índole, ia se envolver com droga para suportar tanta dor, sem cabeça nenhuma. Isso explica muito do que vemos e sabemos das travestis no Brasil.

- Com carreira no teatro, vocês sentem vontade de estar na TV ou no cinema?

Renata: A sétima arte é o meu maior sonho. Mas espero realiza-lo em breve. Posso ser chata, mas quero fazer um longa bem feito, com uma diretora foda... Primeiro, porque a gente conhece o mundo por meio do cinema, isso é um fato, né? Mas por exemplo, Pedro Almodóvar, David Linche, adoro Fernando Meirelles, Anna Muylaert ... Mas vou fazer um curta em Santos e me chamaram para um curta hoje.

Dandara: Eu já fiz um curta e um média. Mas eu queria fazer um filme que ficasse no cinema para as pessoas assistirem. Pensou nós duas juntas num filme?

Renata: Ai, que delícia! Ia fazer igual o pessoal dos 10 Mandamentos. Comprava todos os ingressos e dizia: LOTADO, SUCESSO! (risos).


Um comentário

Leticia Lanz disse...

Essa é uma luta que assumi há muito tempo e é muito bom que pessoas conscientes como essas duas excelentes artistas estejam agora na proa desse navio que esteve quase afundando. Quando eu comecei a falar de que representatividade na população trans é tão importante fui duramente criticada, como sempre, por beldades de dentro do gueto que, definitivamente, não parecem pensar com a cabeça... Elas diziam (e continuam a dizer), contaminadas pela injeção "dopante" da mídia que ator e atriz foram feitos para representar e que, portanto, não devem ser limitados por questão de gênero. Ora, deputados e senadores também foram feitos para representar (aff...) portanto também não precisamos de mulheres, gays ou pessoas transgêneras no Congresso porque os homens acham que nos representam muito bem.
PS - Apenas uma correção: a atriz cis vai representar um homem trans e não uma travesti, o que só serve para entornar ainda mais o caldo da nossa representatividade roubada. E no mais desejo que essa novela da dona Perez que, além de tudo, mistura transgeneridade com lenda do boto, passe muito bem e passe muito rápido.

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