Entrevista

Canal de homens trans binário e não-binário chega para desconstruir padrões: “Não baixamos o queixo”

Bernardo Cruz e Vick Leão

Por Neto Lucon
Diretamente do Recife, a convite do Recifest


O fotógrafo
Bernardo Cruz, de 20, e o DJ Vick Leão, de 34 anos, são os responsáveis pelo Canal Clube do Bolinha (se inscreva aqui), que visa discutir assuntos voltados para a comunidade LGBT, com foco nas identidades trans, no Youtube.

O programa, que traz o personagem Bolinha ilustrado com um binder (a faixa que comprime o peitoral), geralmente é gravado em Recife, Pernambuco. E traz, além de relatos pessoais dos dois, com muita informação e discursos atuais, a cobertura de eventos LGBT, entrevistas com pessoas trans e apoiadores.

"Querem sempre botar padrão"
Os youtubers também mostram ao público em geral que, embora sejam dois homens trans, possuem vivência diferentes e (des)ocupam outras caixas. Vick é binário, tem uma noiva (diz ser o “hétero mais gay que você respeita”) e revelou ser homem trans há menos dois anos. Bernardo é não-binário, pansexual e declarou ser homem trans há seis.

Durante o Recifest, eles convidaram o NLUCON (eu, Neto Lucon) para uma entrevista no canal, que você pode assistir aqui. Aceitei e os convidei para uma entrevista. O bate-papo foi marcado por um debate muito importante sobre construções e desconstruções de gênero. 

Vale dizer que desde a realização da entrevista no último ano, o Canal do Bolinha ganhou um novo integrante, Dylan Belo, que é cineasta, produtor e roteirista de Olinda. Ou seja, o clube tem tudo para crescer ainda mais. Afinal, nele ninguém fica de fora. 

Confira abaixo:


- Fiz essa pergunta para algumas travestis e mulheres transexuais de Pernambuco. Agora faço para vocês: Como é a realidade dos homens trans no estado?

Bernardo: A vantagem de Recife é que a gente tem Centro LGBT, SUS, CISAM, que tem atendimento para homens trans, o que não ocorre em outros lugares do estado. Por mais que não seja o melhor serviço que tem, mas tem e ajuda muito. Na questão de aceitabilidade familiar, o Nordeste em geral é um lugar muito tradicional. A gente vê muito machismo ainda.

Vick: Sou de Maceió e lá é pior que aqui em questão de aceitação, pois impera o coronelismo e não existe acolhimento para as pessoas trans. As pessoas trans saem de lá e vem para cá. São quatro horas de viagem. No meu caso, minha família sempre me tratou como lésbica, embora eu sempre fui bem masculino. Só que na minha cabeça não entrava, porque eu pensava: “não sou lésbica, mas não sabia o que era”. Demorei bastante para descobrir que sou homem trans. A ficha caiu faz pouco tempo, porque meu pai parecia um coronel e ele faleceu há dois anos. Então, só pude me assumir mesmo no início de 2016. As pessoas da minha família estão acompanhando minha transição pela internet.

- E com você, Bernardo, como foi esse processo?

Bernardo: Eu sou de Olinda e vivi aquele clichê de trans. A gente é inocente quando é criança, mas com o tempo percebe que a sociedade não nos vê como “normal” e que não nos vê como a gente é. Também me considerei lésbica por um tempo, só que com 14 anos conheci um menino trans na internet e fiquei admirado. Fiquei acompanhando os passos dele. Embora não tivesse informação, eu sempre fui muito decidido. Falei que era homem trans para minha família e a minha mãe saiu de casa – ela já estava separada do meu pai, mas isso causou a saída dela de vez. Graças a Deus tenho o meu pai, que é a pessoa mais mente aberta que existe. Botei a cara a tapa e fui sendo trans. Eu estou na transição há cinco anos e tenho uma mente totalmente diferente do que eu tinha antes.

- O que mudou na sua maneira de pensar?

Bernardo: Até no mundo trans existem pessoas que querem botar padrão, e eu não me identificava direito e não me sentia completo. Porque naquela época diziam que para ser homem trans tinha que ser hétero, gostar de mulher, ter tal comportamento... Só que eu não me sentia assim e nada além disso tinha visibilidade. Mas quando a gente começa a se entender e a confiar em quem a gente é, a gente não baixa o queixo. 

Vick: Ao contrário, levanta a cabeça. Lá na minha cidade hoje é como se eu fosse um herói. Sei que estou sendo uma porta para muitos meninos que estão entrando. Eles falam: “vem praça, vem fazer uma palestra aqui”. Eu falo: calma, calma, vou para Maceió ainda neste ano.
"Já sofri transfobia, homofobia, já fui agredido. Mas eu me levantei. Só me deixou mais forte"
Vick: "Quando pergunto 'Quem é cis?' percebo que as pessoas nem sabem quem elas são"

- É verdade que em Recife tem muita festa que pessoa trans não paga?

Bernardo: Está cheio de festa LGBT. E é LGBT mesmo, não só de gay. E a maioria das festas é trans free.

Vick: Não paga! É só mandar os nomes sociais por in box e ir. Ou quando não é free, trans e drags pagam meia. É só manda os nomes sociais por in box. Isso é muito bom, porque não tem mais uma festa bombada que não seja LGBT. O bom seria se esse espaço de acolhimento das festas, e dos produtores das festas que nos dão oportunidades, se convertesse para as ações diárias na sociedade.

- Como é a questão de mercado de trabalho? Vocês estão empregados atualmente?

Bernardo: Uma das coisas que me fez ir para a fotografia é que eu posso ser autônomo, então é uma coisa que eu já pensava nisso. Em questão de ir trabalhar e entrevista de emprego, nunca sofri transfobia. No meu trabalho como fotógrafo, eu tento sair da caixinha, mas tudo o que eu faço acaba envolvendo em quebrar padrões de gênero. Acho importante, porque em qualquer tipo de arte a gente pode trazer o respeito e a informação.

Vick: Eu sempre trabalhei em loja, em shopping, sempre fui masculino e ainda bem que nunca tive que mudar o meu estilo para trabalhar. Mas eu também sou autônomo hoje em dia, porque também ou DJ, estou sempre nos eventos. Desde que comecei a transição, eu não trabalhei em nenhuma loja ou para nenhum lugar fixo. Mas é porque fazer uma cirurgia e vou ter que ficar um tempo em recuperação.

Vick e a noiva, a psicóloga Laura
- Como está a vida amorosa de vocês?

Bernardo: Eu sou pan(sexual), poligâmico, tenho um namoro aberto com uma menina cis pan. Digo que sou gay, por causa do meio jeito. Mas se a pessoa me atrair intelectualmente, independente do gênero, tudo bem.

Vick: Estou noivo de uma mulher cis. Ela está comigo antes da transição de gênero, o que faz muitos homens trans machistas não entenderem isso.

- Dizem que se a parceria diz que é lésbica, ela automaticamente está dizendo que o homem trans é uma mulher...

Vick: Depende do caso. Existem casos de que ela não vê o homem trans como homem, que está com ele porque o vê como uma mulher. Então é uma ofensa. Mas os relacionamentos são construídos, o que ocorre dentro dele é muito mais complexo que as caixas. Ela está comigo antes da transição, a gente construiu esse relacionamento e agora que sou um homem trans o amor e o desejo se perderam? Ela não vai mudar a orientação sexual dela por causa de mim. Talvez eu seja a exceção que deu certo na vida dela. Tanto é que estamos noivos e ela me respeita como o homem que sou.

- Já sofreram transfobia?

Bernardo: Já sofri transfobia, homofobia, já apanhei, já fui agredido na rua. Mas eu me levantei. E isso só me deixo mais forte. Foi aí que eu cheguei para a minha família, que é enorme, e falei: “Sou assim. Quer me aceitar, aceita. Não quer me aceitar, três beijos”. No começo teve a resistência. Mas eu acho que depois que as pessoas que querem ter a mente aberta e querem respeitar e começa a conviver, e não é bicho de sete cabeça. Mas agora eu sofro mais por ser homem trans não-binário, bicha, afeminado, drag queen (risos). E eu sofro no meio.

Vick: E é por isso que isso que a gente decidiu criar o canal, para mostrar que é normal como todo mundo. A gente quer desconstruir até quem se acha desconstruído.
"Pessoas trans binárias dizem que as não-binárias não existem por reprodução"
Vick e Bernardo com o novo membro da equipe, o cineasta Dylan Belo

- E por falar no canal, como surgiu o Clube do Bolinha?

Vick: Veio da necessidade de propagar informação. Porque quando comecei a minha transição, comecei a adicionar pessoas e senti uma dificuldade muito grande de saber por onde poderia começar, quem poderia me ajudar, quais eram os médicos e até se existiam outras pessoas como eu aqui em Recife. E, depois, eu percebi que existiam vários menos perdidos e que precisavam de informação. Foi quando fui atrás do Bernardo.

Bernardo: O nosso primeiro contato foi por Whatzapp e logo o próprio Vick ficou curioso quando eu falei que era um homem trans não-binário e que era gay. Ele ainda não tinha chegado nesse universo e eu fui explicando. E como eu também tinha vontade de fazer um vídeo e informar, pensei “por que não?” E começamos. Eu também quando comecei, há seis anos, também não encontrava essas informações.

- Qual é o tipo de informação que vocês querem passar?

Bernardo: A gente não queria falar apenas sobre trans, queria falar sobre o universo LGBT em geral. Só que a gente obviamente foca mais nos trans, porque como somos dois homens trans falamos sobre nossa transição, médicos, direitos. São assuntos que a gente domina. Tem um vídeo em que a gente fala sobre alguns gêneros que muita gente não conhece, algumas orientações sexuais que muita gente não conhece. E tenta trazer essa visibilidade. Temos a proposta de fazer entrevistas com pessoas não-binárias, neutros...

- Durante muito tempo existiu – e ainda existe – certa resistência de pessoas trans binárias reconhecerem as não-binárias. Como é a convivência de vocês?

Bernardo: A gente se dá bem porque temos a mesma ideia: “pessoas são pessoas, cada um tem seu gênero e deve ser bem resolvido com você mesmo”.

Vick: Eu mesmo, que sou binário, me estresso quando dizem que pessoas não-binárias não existem. Mas eu tenho um amigo não-binário, ele existe, eu toco nele, ele fala (risos). O que eu observo é que muitas pessoas binárias querem se passar por cis.

Bernardo: Pode ser que muitas pessoas trans não aceitam as pessoas não-binárias por uma reprodução do que acontece com elas. A sociedade diz o tempo todo que pessoas trans não existem, que eles são uma farsa e que merecem ser rejeitados. Então, essas mesmas pessoas que vivem nesse binarismo, acabam negando a existência de outras que se sentem diferentes. Mas se elas pararem para pensar, não é porque não concorda com todas as regras de gênero, que ela não existe ou que ela não é trans. O básico é você respeitar e saber que o gênero é uma autoidentificação. Não tem isso de existe ou não existe. Cada um sabe o que sente.

- Quando a gente pensa em luta política, com demandas e nomenclaturas, parece ser binário ou não-binário se divergem. Me corrija se eu estiver errado. Mas enquanto uma pessoa binária quer o se integrar ao sistema binário, o respeito ao nome social, o banheiro de acordo com o gênero, as pessoas não-binárias rejeitam e querem questionar tudo isso, não é?

Bernardo: Na minha opinião, a diferença é que as pessoas não-binárias são mais desconstruídas de estereótipos. E o que é isso? Se você sair cavando para saber o que é “masculino” ou “feminino” e tirar o estereótipo, não vai restar nada, não vai ficar o que é de homem ou o que é de mulher. Está entendendo? Parte das pessoas binárias dizem que “isso é de menino”, “isso é de menina”, mas eu mesmo não sei identificar o que é de homem ou de mulher.

- E como se dá a sua vivência não-binária?

Bernardo: Eu não me sinto totalmente nem em um e nem em outro, mas o gênero masculino é o que vem a frente, por isso sou um homem trans não binário e não simplesmente um não binário. Muitos dizem que não existe isso de homem ou mulher trans não binário, mas assim como muitos acredito que para ser homem não tenho que me identificar simplesmente nesses 100% homem, afinal, o que que é ser homem além de um padrão social? O que é ser homem? O que é ser mulher? Por isso é complicado falar sobre isso. Quando tiramos esteriótipos não sobra mais nada para distinguir um gênero de outro. Por isso digo que devemos respeitar o gênero de todos mesmo que seja complicado para você de entender, não devemos reproduzir o preconceito que acontece com outro, chega de "isso não existe". 
Momentos do canal Clube do Bolinha: "Queremos desconstruir"

- Qual é o retorno que vocês estão tendo dos vídeos?

Vick: Sinto que as pessoas ainda têm resistência. Não as pessoas trans, mas as pessoas em geral. Elas não entendem e não querem entender, o que é pior. Então, a gente tenta passar da maneira mais suável possível para entrar na casa das pessoas. A gente não procura agredir, procura mostrar o bê-á-bá bem simples, para que o assunto seja discutido em qualquer lugar. A gente está caminhando. E estamos sendo convidados para palestrar em universidades, turma de psicologia, direito.

Benardo: Já teve gente que veio falar comigo. “Olha, aquele vídeo foi muito esclarecedor”. Teve uma vez que uma menina disse em uma palestra que não sabia o que era ser pan, mas que havia se identificado.

Vick: Quando somos convidados para falar, a primeira coisa que falo é: “Sou um homem trans, hétero, quem é trans aqui?”. E ninguém levanta a mão. Daí eu pergunto: “Quem é cis aqui?”. E ninguém levanta a mão. Ou seja, nem as pessoas sabem o que elas são. Daí a gente fala “cis” vem de “cisgênero”, é a pessoa que foi designada homem e que se identifica como homem. Daí as pessoas ficam “ahhh” e é esclarecedor. O foco da gente é passar a informação que não chegou na gente fácil.

- Viver querendo quebrar estereótipos é algo que provoca qual tipo de sentimento?

Bernardo: É importante, fortalecedor, mas eu tenho medo, mais pela agressão que sofri. Foi uma agressão tão forte que eu comecei a ter transtorno de ansiedade. Quando estou com crise de ansiedade, eu não saio da rua, acho que todo mundo vai ficar me olhando, e que vão bater. A gente vive no país que mais mata transexual e travesti, mas a gente tem que viver. Eu já sofri tanta coisa no meio da rua, mas temos que levar a vida. É uma questão de lugar e até de sorte. Eu tenho amigos que trabalham que as empresas aceitam o nome social e tem outros que não tem esse mesmo respeito.

Vick: Tem gente que nem sabe o que é homem trans, quanto mais respeitar. Mas a gente está aqui para isso. Para resistir, mostrar visibilidade e que a diversidade é normal.

Gostou? Se inscreva no Canal Clube do Bolinha clicando aqui. E acompanhe os vídeos. 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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