Pop e Art

“População trans não é de Marte nem de Vênus. É de Plutão”, diz pedagoga Wescla Vasconcelos

Wescla Vasconcelos

O programa UniDiversidade, exibido pelo Canal Fio Cruz, trouxe em sua última edição o tema “Vozes Trans”, com travestis, mulheres transexuais e homens trans. E discutiu no espaço Centro Cultural Banco do Brasil os problemas da sociedade cisnormativa, transfobia, mercado de trabalho, mídia e novas possibilidades.

A pedagoga e assessora parlamentar Wescla Vasconcelos, que é travesti, declarou que a população tras “não é de Marte nem de Vênus” – como o ditado coloca as pessoas cis – “mas de Plutão”.

“Faço parte do coletivo Casa Nem, que é uma casa de passagem e abrigo LGBT, que veio à tona por causa da Indianara Siqueira. Essa frase veio de lá, porque enquanto todos os planetas estão conectados e interligados, Plutão estava lá, no cantinho dele e foi excluído. E nós nos identificamos como Plutão porque também estamos à margem da sociedade”, declarou.

Lembrando que Plutão - até então era o mais distante dos planetas - foi rebaixado de planeta para “planeta anão”.


A atriz e assessora parlamentar Bárbara Aires, que é uma mulher transexual, diz que a exclusão da população de travestis, mulheres transexuais e homens trans começa desde a concepção do que é ser homem ou mulher numa sociedade cisnormativa. “Quando viemos dos primórdios, não veio definido o que era homem ou mulher. Isso foi uma construção social que o homem criou. E a partir do genital, dizem se é homem ou mulher. Daí nasce toda a expectativa social em cima de você, mas pode dar errado”, frisa.

Bernardo de Castro Gomes, que se define como trans negro e mãe, declara que desde pequeno escuta as expectativas em cima do gênero atribuído no nascimento e que ao mesmo tempo, quando começa a se entender, sente medo de desapontar. “A família é fundamental. No meu caso, em específico, a minha família está ouvindo o meu nome social pela primeira vez. É importante que o empoderamento não venha só da rua, mas também dentro de casa, pois esse é o primeiro poder”, afirma ele, que tem um filho biológico.
Bernardo levou a madrinha, que soube pela primeira vez seu nome socia
Bárbara Aires fala sobre transfobia e diz que mercado de trabalho ainda é fechado

Ele afirma que sente que, assim que revelou ser um homem trans, deixou de ser lido como uma mulher objeto para ser lido pela sociedade como uma ameaça. “O racismo é escrachado, não é velado. Mas temos que estar em todos os espaços para mostrar que corpos são apenas corpos”.

PORTAS FECHADAS

O guarda municipal do Rio e graduando de Serviço Social, Jordhan Lessa, que é homem trans, afirma que a falta de reconhecimento da identidade impede que a população trans viva uma vida tranquila. “O exercício da cidadania deixa de existir a partir do momento em que a gente deixa de ser reconhecido”.

Wescla diz que é por isso que a militância é importante, pois debate a forma como essas identidades se constroem, surgem e constrói coletivamente o saber, com a perspectiva de melhorias. “A gente luta por uma sociedade mais justa, igualitária, porque somos marginalizadas. Tidas como pervertidas e pessoas loucas”.

Bárbara e Jordhan contam que chegaram a ser crianças em situação de rua devido ao preconceito. E Bárbara afirma que sofreu bullying na escola, tendo vivido situações constrangedoras no banheiro. Ela afirma que durante as várias violações que uma pessoa trans sofre no decorrer da vida, ela acaba não tendo oportunidade no mercado formal de trabalho.
Jordhan Lessa diz que importância de ser reconhecido repercute na cidadania
Natasha afirma que desistiu da vida profissional e amorosa; hoje está em um mochilão

“Temos uma perspectiva de que 90% das travestis trabalham na prostituição e foi feita uma pesquisa no Rio de que 90% declararam essa vontade de sair. Eu mesmo sou uma dessas pessoas. Mas o problema não é se prostituir, é se prostituir forçadamente, por imposição”, defende Bárbara.

Natasha Roxy, que chegou durante o programa, afirmou que sua percepção de gênero começou na infância e adolescência. Mas que foi conhecer mais sobre travestilidade e transexualidade aos 16 anos. Logo, soube que teria que carregar vários estigmas, como a profissional do sexo, da solidão e de ser soropositiva.

“Desisti do mercado de trabalho, desisti da minha amorosa. E agora decidi trabalhar por conta própria, vou fazer um mochilão em abril para o Paraguai e Argentina e, quem sabe lá, eu tento a sorte e consigo alguma coisa lá”, revelou. Atualmente, ela realmente está no mochilão. Boa sorte Natasha e a todas as pessoas trans!


Página do site exibida no programa
NLUCON

O site NLUCON foi mencionado pelo programa como um espaço de informação para quem quer saber mais sobre as pessoas de travestis, mulheres transexuais, homens trans, n-bs e outras transgeneridades.

Agradecemos o reconhecimento e a visibilidade ao trabalho!


Você pode assistir o programa na íntegra clicando aqui

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

0 comentários:

Tecnologia do Blogger.