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Quem viu? Homem trans amamentando seu filho no "Fantástico" foi poderoso e lindo


A série “Quem Sou Eu?”, que se encerrou no último domingo (02) no Fantástico, da TV Globo, trouxe uma das cenas mais poderosas, lindas e inédita na TV brasileira entre uma família composta por pessoas trans e seu filho. E que pouca gente comentou: um homem trans amamentando o seu filho.

A cena ocorreu durante a entrevista do gari Anderson Cunha, que é um homem trans, e a operadora de telemarketing Helena Freitas, que é uma travesti. Eles falavam sobre a família e do filho biológico de ambos, Gregório, cuja gravidez foi do pai, e que estava inquieto durante o bate-papo.

A jornalista cis Renata Ceribelli diz: “Os cabelos e olhos claros vem da família do Anderson. A agitação, isso é fome mesmo”. E Anderson levanta a camiseta, amamenta o filho, que tem um aninho, e continua a entrevista tranquilamente. Como deve ser!

A jornalista pergunta: “Quando as pessoas veem você, um homem amamentando, elas ficam assustadas?” e, depois, "Como é para você, se sentir um homem, e viver esse momento tão feminino?". 
E Anderson responde: “Não, elas ficam cuidando de mim. Quando eu o levei no posto e dei ‘mamá’ para ele, veio uma mulher e disse: ‘eu nunca vi um homem dar ‘mamá’”. Helena diz que algumas pessoas ficam impressionadas. 





A amamentação de filhos de homens trans é vista com frequência em reportagens internacionais (veja aqui, aqui e aqui) e, apesar de não ser algo inédito, ainda causam bastante alarde – e comentários preconceituosos, que nós do NLUCON temos que remover. 

Desta vez, é a primeira vez que a televisão brasileira aberta se atenta para um caso e um momento como o de Anderson e seu filho. E não demonizou o corpo e nem a atitude - como geralmente ocorre até mesmo entre mulheres cis que amamentam em público. E que em SP precisaram até de um lei para que fossem amparadas.

Apesar das perguntas da jornalista e dos papeis de gênero quase engessados pela cisnormatividade, Anderson e Helena não foram desrespeitados em sua identidade de gênero. Ele
 continua sendo o pai, pois ele é homem. Helena continua sendo a mãe, pois é uma pessoa que se identifica com o gênero feminino e é uma travesti. E Gregório continua sendo filho de ambos, essa criança esperta e que mostrou para o Brasil que a amamentação não é feia, errada ou tabu. 

Ao contrário, que é necessária, linda, importante e natural!

(Obs: vale ressaltar que nem todo homem trans pode ou gostaria de engravidar. E que nem todo homem trans que gera seu filho tem a mesma afinidade com a amamentação que Anderson. Isso varia de pessoa para pessoa, assim como todas cujo corpo traz essa possibilidade de gravidez).

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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