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Travesti leva 17 golpes de faca de outras 8 travestis. Isso é transfobia?


Por Neto Lucon
Foto: Alex Becke

Toda vez que divulgo mortes de travestis, mulheres transexuais e homens trans, várias pessoas aparecem para questionar: “isso foi mesmo transfobia?”. E se o crime foi remetido pela polícia por qualquer motivo passional ou delito, parece que a sentença já é dada a olhos nus: “não é”. Mas será que se não houvesse a transfobia institucionalizada e naturalizada vários crimes aconteceriam?

Recentemente, a travesti Paola Ferreira dos Reis, de 40 anos, foi assassinada com 17 golpes de faca e espancada, em Dourados. A mídia noticiou que o crime teria envolvido outras oito travestis, motivadas por disputa por ponto de prostituição. Quem acompanha as discussões, deve ter visto alguém, e isso envolve pessoas trans, defender que “nem tudo é transfobia”, que muitas “não se dão respeito mesmo” e que “procuram”.

Mas me atrevo a avaliar que o grande problema é a gente observar apenas o fim de uma vida, esquecendo toda a trajetória daquela vítima e daquelas algozes até aquele momento. É evidente que nem todas as travestis possuem a mesma vivência e que há exceções atualmente, mas também é evidente perceber as inúmeras exclusões, preconceitos e imposições que o grupo sofre de modo geral no decorrer da vida. E ao longo da história.

Sim, ao longo da história brasileira e de uma sociedade firmada em pilares cisnormativos (que só vê pessoas cis como normais). Ainda hoje, muitas famílias expulsam essa população de casa pelo preconceito, com 12, 13, 17 ou 20 anos. Colocadas para fora sem nenhuma estrutura ou maturidade. Muitas escolas ainda hoje contribuem com o abandono, por não discutir gênero, não respeitar o nome social ou a identidade de gênero. As igrejas tradicionais continuam demonizando esses corpos. As amizades de outrora se afastam. E o mercado de trabalho, que já é concorrido entre pessoas cis, fecham as portas por preconceito ou porque, devido as exclusões anteriores, desculpa-se pela falta de qualificação.

Para muitas, sobra o subemprego, o mercado da beleza e, claro, a profissão do sexo. Aliás, mais de 90% se prostitui segundo a ANTRA. E como a prostituição não é regulamentada, ela é alvo de preconceito, carece de direito e segurança. E aquela travesti é exposta a todo tipo de gente e situação. E, neste caso, ela pode ser a vítima que é explorada. Aquela que é obrigada a participar da agressão para não ser repreendida A algoz que um dia foi explorada e hoje explora. Aquela que se droga para aguentar a noite e luta pela sobrevivência, muitas vezes perdendo o controle. Aquela que lida com os transfóbicos, sádicos, assassinos com quem vão para os quartos, drives e mato. Aquela que pede para ter o silicone industrial injetado. E aquela que um dia foi bombada e que hoje ganha a vida bombando. Neste espaço, nem mesmo a polícia é amiga. É algoz.

Algumas até escapam disso tudo. Mas não é por acaso que as maiores vítimas são as que são profissionais do sexo (leia aqui).



Ou seja, se pararmos para observar a motivação do assassinato pode não ser transfóbica de modo literal (a pessoa pode não ter ódio da outra por ser travesti), mas a transfobia está presente em todas as trajetórias. Não é por ela ser travesti, mas é por ela ser travesti. Foi a transfobia que colocou aquelas travestis naquele espaço, com aquele comportamento, disputando o ponto e muitas vezes concorrendo e se odiando por migalhas. Foi a transfobia que as fizeram lidar com a violência, com a vida e com a morte daquela maneira. E é a transfobia que não cria compaixão e empatia da sociedade em geral e também entre pessoas trans – nem entre aquelas que disputam e aquelas que julgam tais crimes ao visualizar na internet. Afinal, nem tudo é uma questão intrínseca de índole, criação e força de vontade.

Isso não quer dizer que a travesti que mata deva ser inocentada pelo seu histórico. A gente está falando sobre a transfobia enfrentada por aquela que foi assassinada. A vítima, que durante toda a vida sofreu transfobia, e que em sua morte teria sido "libertada" deste preconceito. No caso das outras, a polícia deve apurar, ela deve ser acusada, julgada e condenada pelo que fez – assim como todas as pessoas cis que cometerem crimes. Mas, como já escrevi, a polícia historicamente é algoz. E aquela travesti que cometeu crime, acaba muitas vezes sofrendo desrespeito pela identidade de gênero, violência e assassinada.

Um ciclo que se perpetua e que evidencia que a transfobia está presente, sim. Como um grande e sangrento pano de fundo na vida e morte de uma pessoa trans.

Um comentário

Ramona disse...

Não concordo , se uma travesti rouba a outra é da índole dela
se sofre retaliação por isso não foi transfobia
pode dizer que é porque não teve oportunidades , mas pessoas cis que tem oportunidades enveredam no crime e submundo também . então não vamos tapar o sol com a peneira e dizer que trans estão sempre na posição de vítima e nunca de algoz

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