Pride

Universitária trans Tiffany González faz história ao ter identidade de gênero respeitada em formatura na Nicarágua


A universitária Tiffany Mercado González, de 22 anos, emocionou e fez história em sua formatura de Sistema de Engenharia da Universidade Autônoma da Nicarágua, que ocorreu no dia 10 de março deste ano. Tudo porque ela venceu a batalha para ser chamada pelo seu nome social num país mega conservador.

De acordo com a mídia, que cobriu a formatura, ela foi a primeira mulher trans do país a receber um diploma de bacharelado com sua identidade de gênero respeitada.

No momento, Tiffant foi acompanhada pela avó materna, Rosa Teodolinda Ortiz, responsável por sua educação. E dedicou o certificado à sua mãe, que morreu quando ela tinha oito meses. Os colegas de sala aplaudiram e a avó caiu em lágrimas.

“Quando ouvi o meu nome, me senti alegre e feliz porque quebrei um paradigma. Queria que respeitassem a minha identidade e dignidade e que, assim, representasse a minha comunidade trans”, disse ela ao El Nuevo Diário.

O vice-chanceler da universidade, Jaime López Lowery, diz que apesar do ineditismo a intenção foi respeitar a dignidade da aluna. “Para nós foi uma estudante. A universidade não faz distinção nem política, credo religioso, orientação sexual... Respeitamos a dignidade de cada aluno e a única coisa que queremos que mostrem o seu mérito acadêmico e que desenvolva a sua carreira com qualidade”.
"Quando ouvi o meu nome, me senti alegre e feliz. Quebrei um paradigma"

SER UMA UNIVERSITÁRIA TRANS

Tiffany decidiu passar pela transição de gênero aos 17 anos, mesmo assim evitava compartilhar com muitas pessoas, com receio de ser discriminada pela sociedade e rejeitada pela família. Quando entrou na faculdade, em 2012, ainda não havia revelado que era uma mulher trans.

Foi só 2013, durante uma competição chamada Miss Top Model Trans, que ela teve a oportunidade de participar e dizer como realmente se sentia e é. E de quebra ganhou o concurso.

No início, teve que escutar alguns comentários negativos de colegas e professores, mas depois ela conseguiu ir mostrando que ser uma pessoa trans não é um problema e que é apenas uma de suas várias características. Tanto que nos últimos anos foi acolhida e incentivada pela maioria.

Sua última vitória acadêmica, além de conseguir se formar, foi de ser chamada pelo nome social o durante a formatura. E de ser reconhecida por sua identidade de gênero feminina perante os demais alunos, professores e familiares.

LEI DE IDENTIDADE DE GÊNERO

Apesar da vitória, no título de Engenharia de Sistemas ainda consta o nome de registro. E evidenciou a necessidade de uma lei de identidade de gênero, que facilita a retificação do documento. É o que diz a advogada dos direitos da diversidade sexual e gênero na Nicarágua, Samira Montiel.

“O que aconteceu na UNAN é um sinal de que é interesse político real e genuíno de ir para frente nos reconhecimento dos direitos da população trans. Ocorreu algo histórico de reconhecer pela primeira vez perante a sociedade uma menina trans. Eu acho que essas questões devem ser discutidas, sobretudo uma lei de identidade de gênero”, afirmou.

De acordo com a reportagem, existe um projeto de Lei de Identidade de Gênero na Nicarágua, desenvolvida por organizações da diversidade sexual e de gênero. Mas ele ainda não foi levado a Assembleia Nacional porque ainda passa por avaliações.

MERCADO DE TRABALHO

Ludwika Vega, presidenta da Associação Nicaraguense de Trans, diz que a aprovação de um projeto de lei de identidade de gênero pode garantir  outros direitos básicos, como acesso saúde, educação e sobretudo emprego.

"Aqui, se queremos trabalhar, temos que voltar a ter uma aparência masculina. Não há mulheres trans trabalhando em um escritório. Elas trabalham em mercados, salões e restaurantes, mas devem conter a identidade feminina para trabalhar”, lamenta.


Após a formatura, Tiffany planeja os próximos passos e espera conseguir se inserir no mercado formal de trabalho. “Espero que a sociedade não vá me julgar pela aparência, mas pela minha capacidade. E eu sei que tenho”, declarou. 

O pai Omar Mercado, que esteve presente na cerimônia, é só elogios para a filha: “Ela é muito dedicada e inteligente. Conhece as técnicas e, agora, tem a esperança de que o diploma vai abrir oportunidades na carreira”. Também estamos na torcida!

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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