Pride

Afastada por 20 anos, mulher transexual Analia Pasantino volta a trabalhar na polícia


Há 20 anos, a argentina Analia Pasantino teve que se afastar da Polícia Federal argentina por conta de sua transexualidade, vista na época como uma “doença irrecuperável”. Agora, com avanços dos direitos da população trans no país, ela retorna à profissão como chefe.

Aos 49 anos, Analia é subcomissária da área de Comunicações Judiciais e dá assessoria em temas de diversidade no departamento.

“O mundo mudou. Você pode viver sua identidade de gênero e não precisa passar por tudo o que passei, por uma vida dupla. Esse é um marco. Eu sou a primeira chefe trans em toda a América Latina. Isso é algo que nunca tinha acontecido e é um passo importante para demonstrar à América Latina e ao mundo que somos uma instituição aberta”, afirmou Associated Press.

A Argentina tornou-se referência na luta pelos direitos da população trans, quando em 2012 aprovou a Lei de Identidade de Gênero. Ela deu autonomia para que a população trans pudesse retificar seu nome e seu gênero da documentação, sem precisar de entrar com ações judiciais ou laudos psiquiátricos ou médicos. A lei inspira a PL brasileira 5002/2013, conhecida como lei João Nery, que não tem avanços.
Analia posa para Natacha Pisarenko, da AP

"FELIZ EM CONTAR ESSA HISTÓRIA"

Analía conta que entrou para a polícia em 1988 e que, como homem, tornou-se agente condecorada, porta-voz respeitada do departamento e líder de uma equipe antinarcóticos. Porém, quando passou a se identificar como mulher transexual, em 2008, foi forçada a tirar licença do departamento de polícia.

Ela passava a cada três meses por uma avaliação psiquiátrica, que sempre lhe dava uma licença, baseada no diagnóstico de “transtorno de identidade de gênero”. “Sempre foi catalogado como doença”, afirma ela, que ao mesmo tempo recebia o apoio de sua esposa, a advogada Silvia Mauro. Elas vivem juntas há 31 anos e, segundo a policial, sempre foi o seu pilar.

Tanto que ela lembra que a esposa chegava a encorajar a sair de casa e "colocar a cara no sol". “Um momento culminante foi quando uma vez me disse: ‘ou você sai (do carro), ou não sai mais de casa assim. Te esperei por três horas para se maquiar, se vestir e se enfeitar. Agora desça, se anime. Por isso digo que foi algo que vivemos juntas”.

Após 20 anos afastada do trabalho e diante de uma mudança na cúpula da polícia federal, Analia conseguiu se reintegrar à corporação. A readmissão ocorreu com a presença da imprensa e da ministra da Segurança o chefe da Polícia Federal. Agora, ela recebe inúmeras mensagens positivas sobre sua volta à polícia. “Em um momento me senti superada. Mas estou orgulhosa de contar essa história”.
Analia e a esposa, Silvia, advogada e seu pilar

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

0 comentários:

Tecnologia do Blogger.