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Conheça Erik Schinegger, o 1º homem trans intersexo a ser campeão do mundo no esqui


Por Neto Lucon

Resgatar histórias é uma maneira de ascender a chama do orgulho e promover referências que nunca deveriam ser esquecidas. É com esse objetivo que o NLUCON traz mais um perfil de uma pessoa trans: o esquiador austríaco Erik Schinegger, um homem trans intersexo que faz história desde a década de 60.

O ex-atleta nasceu no dia 19 de junho de 1948 em Agsdorf, na Caríntia. E durante toda a infância e adolescência foi criado como uma mulher cis, sendo obrigado a passar por todas exigências e amarras de gênero. A identificação com o gênero masculino era duramente criticada pelos pais.

“Eu nunca tinha permissão para conduzir um trator, por exemplo. Só podia lavar, fazer crochê, tricô, limpar as coisas. Todos estes trabalhos para ser uma dona-de-casa. Meus pais faziam de tudo para suavizar minhas características”, revelou em entrevista ao Krone.at.

Na adolescência, se via diferente e se considerava sem um lugar no mundo ao observar que não se desenvolvia como as mulheres. Acabou suprimindo esses dilemas e sofrimentos ao se dedicar ao máximo ao esporte, o esqui, desta vez sendo incentivado pelos pais. Logo se ingressou em grupos, em competições e começou a chamar atenção pelo bom desenvolvimento. 

Neste período, ele competia ao lado de mulheres cis e chegou a ser diversas vezes eleito “a (sic) melhor esportista da Áustria”. Ele não questionava o tratamento, uma vez que nem imaginava a possibilidade de ser um homem. Nos anos 60 foi quando começou a ser discutida a questão de gênero. 

A REVELAÇÃO

Erik foi a surpresa de 1966, tornando-se campeão do mundo no esqui alpino, tendo o seu nome como um dos favoritos da categoria feminina. Porém, dois anos depois, em 1968, a sua identidade foi questionada pelos comitês esportivos. E nos Jogos Olímpicos de Inverno de Grenoble de 1968 ele passou por um teste que mudaria para sempre a sua concepção de genital, gênero e identidade.
Erik no período em que era identificado como mulher

Por meio do exame do Comitê Olímpico Internacional (COI), descobriu-se que, devido à uma formação genital dúbia, a pessoa que fez seu parto preferiu o designar mulher. Descobriu-se também que ele possuía órgãos internos atribuídos ao masculino. O COI resolveu, então, desclassifica-lo por entender que ele obtém vantagens nas competições com mulheres cis.

O segredo revelado foi um choque para o atleta no início, que confirmou o teste ao ir conversar com a mãe e vê-la chorar copiosamente. “Isso tudo poderia ter sido evitado se tivessem me dito desde o início. Eu sequer tive acesso a uma assistência psicológica. De repente, as pessoas estavam com medo de me conhecer. Ei, a Erika e o Erik é o mesmo ser humano. De repente, eu tinha que mudar o meu lado na igreja. Mulheres à esquerda e homens à direta”.

Ao mesmo tempo foi determinante para que ele finalmente pudesse se identificar com o gênero que sempre se reconheceu e que sempre foi reprimido. Isso somente aos 20 anos. Erik define-se homem trans (por ter sido designado mulher ao nascer e se identificar com o gênero masculino) e intersexo (pela questão biológica). Lembrando que, caso ele se identificasse com o gênero feminino, toda a especulação biológica em cima de sua identidade seria mais uma forma de opressão – como acontece com outros e outras atletas.

“Antes, eu não tinha permissão mais para dirigir esqui e o mundo entrou em colapso. Eu poderia viver minha gloriosa medalha de ouro como Erika e os hormônios e cirurgias plásticas poderiam me ajudar. Mas pensei: quero saber e viver como realmente sou. Eu saberia que era o caminho mais difícil, mas não desisti”, contou. Em 1972, já vivendo a sua real identidade, retomou a vida esportiva e participou da edição dos jogos de Sapporo com a equipe nacional da Áustria. Sim, na equipe masculina.

MOMENTOS DE VISIBILIDADE

Em 1988, o ex-atleta contou a sua trajetória para o escritor Marco Schenz, que o ajudou a publicar o livro autobiográfico “Mein Sieg über mich. Der Mann, der Weltmeisterin wurde ("Minha vitória sobre mim mesmo: o homem que se tornou um campeão do mundo feminino"), cuja tradução foi sucesso também na França.
Erik e o cartaz do filme Erik (a)

Em 2005, foi tema de um documentário de Kurt Mayer, “Erik (a)”, que participou da Trento Film Festival 53 e ganhou a genciada de prata. Para o diretor, a história de Erik pode ajudar muitas pessoas que passam pelas mesmas questões e dar visibilidade para as questões trans e intersexo. 

Em 1988, Erik se tornou novamente notícia e marcou mais uma vez a sua história. Ele participou de um programa de televisão transmitido pela rede ORF austríaca e deu sua medalha de ouro de 1966 para a segunda colocada, Marielle Goitschel. Declarou que já que ele é um homem, nada mais justo que entregar o troféu à verdadeira mulher que venceu a competição. 

Há três anos, ele surpreendeu ao participar do Dancing Whit the Stars – a Dança dos Famosos da Áustria. Ele era um dos favoritos, mas sofreu uma lesão e teve que abandonar a competição. Erik disse que a sensação foi a mesma de quando foi desclassificado dos Jogos Olímpicos. “Era como se alguém tivesse tirado o carinho que recebia”. Disse, todavia, que conseguiu mostrar o que queria: “Estou vivo e posso dançar tanto qualquer um dos que ainda estão na competição”.

VIDA PESSOAL

Na vida pessoal, Erik casou com uma mulher, tornou-se pai de uma garota, Claire, separou e se casou novamente. Ele voltou a viver no lugar de seu nascimento e passou a dirigir uma escola de esqui para crianças e também administra duas pousadas. Neste ano, ocorreu um incêndio na escola de Erik, mas apesar do prejuízo ninguém se feriu.




Erik, que está prestes a completar 69 anos no próximo, fala o que aprendeu durante toda a trajetória: “Primeiro, a entender a importância da tolerância. E que todo mundo tem que ser feliz sozinho, sem precisar ser feliz para os outros". 

Ele continua: "o importante é encontrar a si mesmo e ficar com você mesmo. Mesmo que o ambiente não queira admitir isso e que todos façam comentários sobre você. Quando você está feliz de dentro para fora com a sua vida, os outros vão começar a gostar de quem é”.

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