Header Ads

Em evento inédito, homens trans pernambucanos debatem demandas pela saúde integral


Por Neto Lucon

O seminário “Homens trans pernambucanos na Construção da História”, que ocorreu no último mês durante a 1ª Jornada de Ações dos Homens Trans (JAHT), discutiu e apresentou as vivências da população transmasculina no estado com a finalidade de garantir a saúde integral para esta população. O evento foi realizado pela realizado pela AHTM (Associação de Homens Trans e Transmasculinidades).
 

Durante o seminário, foi lançado um cartaz informativo dos serviços de saúde que os homens trans do estado necessitam. No cartaz aparecem Victor Summers, estudante de biomedicina, Joni Souza, que é estudante e youtuber, Eric Diniz, administrador e músico, e Pierre Garret, tatuador e ilustrador, e Társio Benício, técnico em Edificações e universitário

Em Pernambuco, os serviços são oferecidos pelo Espaço Trans – Hospital das Clínicas / UFPE e a nível ambulatorial pelo CISAM / UPE (Centro Integrado de Saúde Amaury Medeiros), que foi uma conquista do movimento transmasculino de PE iniciada pelo militante Leonardo Tenório.  


Segundo Társio Benício, presidente da AHTM e coordenador estadual do IBRAT-PE, membro do comitê técnico de saúde integral LGBT-PE e conselheiro da ANOTTRANS (Associação Nordestina de Travestis e Transexuais), as demandas da população de homens trans envolvem tratamento hormonal, acompanhamento multidisciplinar e cirurgias. Ou seja, profissionais da área de assistência social, enfermagem, endocrinologia, mastologia, ginecologia, psicologia, fonoaudiologia, fisioterapia e alguns casos psiquiatria.

“Na tentativa de esconder os seios, muitos também desenvolvem a cifose ou tem problemas de respiração devido ao binder (colete ou faixa para comprimir os seios) muito apertado. Além da dificuldade que muitos têm de ir ao ginecologista, de fazer prevenção de câncer de mama, seja por vergonha ou desinformação ou desrespeito do serviço de saúde”, declara.

Társio afirma que há quase todos os serviços no Espaço Trans, mas que atualmente ele não realiza a mastectomia bilaterial, pois a médica responsável estaria de licença e não houve substituição. “Por se tratar de um órgão federal, ainda não conseguimos levar o caso a conhecimento do ministério público federal, só ao estadual”. Eles realizavam uma cirurgia por mês e a fila de acolhimento inicial está em torno de dois anos, pois o núcleo é de quatro profissionais para o primeiro acolhimento, que atende cerca de 300 pessoas.

Outros procedimentos não realizados são a histerectomia total, a cirurgia de redesignação sexual (genital), que não ocorre por ser vista como “experimental” no Brasil, sem que haja investimento para capacitação dos médicos neste procedimento. E a lipoaspiração no quadril, "que não está prevista no processo transexualizador e isso deixa muitos em disforia”.

Além de disponibilizar gratuitamente os hormônios, que atualmente custam em média R$ 550 (uma ampola de 4ml a cada 12 semanas), que está fora do orçamento de muitos homens trans, que atualmente se encontram desempregados, vivem de renda informal ou são mantidos pela família que não aceita (na maioria dos casos) a transição, e construir um protocolo de hormonização. “Ou seja, estudos, porque cada corpo reage de uma maneira. Daí precisa saber o melhor intervalo, a média. Porque um corpo trans é um corpo trans”.”.

Társio diz que já teve que explicar para psicólogo o que é homem trans

TIVE QUE EXPLICAR O QUE ERA TRANS

Társio revela que há muita desinformação em relação a população de homens trans e que, durante a ida a um psicólogo de seu plano de saúde, teve que explicar para o profissional o que era trans. Na ida ao endocrinologista para iniciar o tratamento, o profissional chegou a falar “é melhor você continuar na sua vida lésbica mesmo”. “Pedi que ele simplesmente emitisse a solicitação de exames e nunca mais voltei”.

Antes de ir para o Espaço Trans, ele tentou atendimento no Hospital Agamenon Magalhães e o agendamento demorou cinco meses. Porém, a primeira consulta foi desmarcada, pois o médico responsável estava num congresso. No Espaço Trans, o militante afirma que se sente amparado, mas que não realizou todos os procedimentos que deseja. E nem tem previsão de quando conseguirá.

“Apesar de ter cumprido toda a portaria e ser um dos quatro primeiros homens trans do estado a possuir o documento retificado, e ter todos os pareceres psicológicos e psiquiátricos, não tenho a menor previsão de quando farei esses procedimentos. O Espaço trans com a técnica das cirurgias de licença, CISAM sem previsão para oferecer além dos serviços ambulatoriais e o plano de saúde por entender que se trata de uma cirurgia estética já recusou o procedimento. Sinto-me mendigando por um direito que o movimento social nacional já alcançou”, declara.

PROCURE ACOMPANHAMENTO

Para os homens trans que ainda não passaram e desejam passar pela hormonioterapia e outros procedimentos, Társio diz que eles não devem deixar de acessar os serviços que garantam a saúde. E não deixar de reivindicar o nome social, um direito que foi negado em seu plano de saúde. Mas que após entrar no Ministério Público Estadual, o plano inseriu o campo para chamada no painel da rede própria em todos os lugares do país.

Ele aconselha também a fazer acompanhamento das taxas de hormônio a cada três meses. 
“A maioria tem algum nível de disforia e é por isso que considero essencial o apoio psicológico. Não é incomum homens trans desenvolverem ansiedade e precisarem tomar ansiolíticos. Além disso, devido ao processo da transição, principalmente com a hormonioterapia, há mudanças notáveis e nem sempre os núcleos sociais - família, emprego e escola conseguem - acolhem. Muitos se afastam ou reprimem este homem trans, o que leva ao isolamento ou comprometimento da capacidade de se auto-sustentar”, afirma.


Para receber atendimento pelo Espaço Trans do HC, os interessados podem procurar uma central de marcação de consultas em seus municípios ou contatar diretamente o setor. O Espaço está localizado no segundo andar do bloco E do HC (Av. Prof. Moraes Rego, 1235 - Cidade Universitária, Recife), na sala 236, e funciona de segunda a sexta, das 8h às 17h. O contato é (81) 2126.3587 ou espacotranshcufpe@gmail.com

O CISAM fica localizado na Rua Visconde de Mamanguape S/n - Encruzilhada, Recife - PE, 52030-000. O contato é (81) 3182-7718 (Enfermeira Ismênia Ferrer). O e-mail é ismeniaoliveira049@gmail.com

Nenhum comentário

Tecnologia do Blogger.