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Em curta, Leo Moreira Sá vive desafio de interpretar homem trans que performa drag queen


Por Neto Lucon

Leo Moreira Sá vive um dos maiores desafios de sua carreira: o personagem Raul, da série de curtas “Ciranda”, escrita e dirigida por Ângela Coradin e Felippy Damian. Trata-se de um professor de teatro, homem trans, que vive uma personagem feminina nos palcos, a drag queen Tina Mon Amour. Na história, ele também se apaixona e se casa com uma ex-bailarina cis.

“A gente está acostumado em ver um homem cis fazer drag, né? O interessante é que aqui o homem trans também faz essa performance com expressão de gênero atribuída ao feminino. Quis fazer uma diva, sutil, cantora e com barba. Achei legal quebrar as caixas e trabalhar esse personagem”, conta ao NLUCON.

No curta, o personagem que também é ator se envolve com Larissa (Carla Tauz), uma ex-bailarina cis. Apaixonados, eles planejam oficializar os votos em uma semana de relacionamento e, neste período, trabalham os seus próprios fantasmas.“Antes de qualquer coisa é a história de duas pessoas que se amam e que decidiram comemorar isso. Falar sobre o tema nessa perspectiva é valorizar as singularidades que existem entre as pessoas e tirar as coisas das caixinhas”, afirma a diretora.

Gravado em Cuiabá, Mato Grosso, o curta-piloto promete ser o primeiro de vários que falam sobre diferentes histórias de amor, muitas delas com a população LGBT. Aliás, parte do elenco de outras histórias aparecem no casamento de Raul e Larissa. Para Fellype, o curta é uma celebração. “Ciranda é uma coisa gostosa para a gente, é algo entre o culto da beleza desses encontros que carregam toda a infinitude dos momentos únicos e esta urgência”, declara.
Leo recebe a direção de Fellipy Damião para cena de casamento

SEM DESCER DO SALTO

Sobre as preparações para viver este personagens com várias nuances, Leo conta levou mais de duas horas para montar Tina Mon Amour. E que o maior desafio de performar uma drag foi calçar e andar de sapatos de salto alto. “Durante um tempo achava que não conseguiria ficar nem de pé”, diz aos risos.

Cantora Conchita Wurst foi inspiração
O ator chegou a gravar três músicas no estúdio e dublar a própria voz, dentre elas o clássico de Roberto Carlos nos anos 70 “Para ser Só Minha”, também cantada por Otto. Na cena, ele canta para a amada. "Dar vida a esse personagem, cantar e dublar a minha própria voz foi uma experiência muito rica", frisa. Músicas de Ney Matogrosso e Belchior também devem aparecer na produção.

Ele destaca que os diretores deram liberdade para sugestões no roteiro e salienta que o texto já estava impecável. “Eles fizeram uma pesquisa bonita, responsável e não tinha nenhum termo ou situação politicamente incorreta. E isso não quer dizer que não abordem questões relevantes. Há uma cena, por exemplo, em que o Raul vai ao ginecologista e vive todo o conflito de estar no consultório e ser encarado pelas mulheres”, conta.

Feliz com o seu primeiro protagonista no audiovisual – o personagem Raul dá nome provisório ao episódio - Leo afirma que está realizado com o trabalho e com o tratamento que recebeu. “Fui tratado como um ator cis geralmente é tratado. Então isso é muito gratificante para mim como pessoa e ator”, diz. 

DIRETORES DEFENDEM INCLUSÃO DE ARTISTA TRANS

Segundo o diretor Felippy, investir na visbilidade trans vai de encontro ao processo de legitimação que toda obra audiovisual busca – apesar de muitos trabalhos não terem o cuidado e escalarem atores cis para interpretar papeis trans, quando o contrário ainda é exceção.

“Não poderíamos colocar um homem cis para interpretar o Raul em Ciranda, sendo que existem atores capacitados tecnicamente para isso. Ademais, Leo carrega muitas experiências próximas as dos personagens e, por isso, tivera liberdade em reescrever diálogos e discutir os próprios roteiros. Era o cuidado mínimo que podíamos ter. O Raul que será visto na tela respira de verdade e essa respiração só é possível por vir do Leo”, afirma.

Ângela admite que é estranho ver pessoas cisgêneros em personagens transgêneros, uma vez que há atores que, além de interpretá-los, podem emprestar muito de suas experiências de vida e de histórias pessoais a esses personagens. “Leo fez isso e acredito que tenha sido importante para ele enquanto ator e ainda mais para a construção do personagem para o qual se dedicou”. No filme, grande parte das pessoas que aparece na figuração também é trans.
Ângela, Fellipy, Leo e a atriz Carla Tauz
Produtora executiva Barbara Varela também defendeu escalação 

A diretora afirma que por meio do trabalho aprendeu ainda mais a enxergar a beleza na singularidade. “Cada vez mais desconfio de quem quer pôr o mundo nas caixinhas”, diz.

PRÓXIMOS PASSOS

O Ciranda foi premiado num edital do Estado do Mato Grosso em parceria com a ANCINE, que tem o Programa Brasil de Todas as Telas. "É um programa que contempla este tema, inclusive, em editais específicos, tem evidente viés progressista, o que ajuda a entender o ótimo momento do cinema nacional nos últimos anos", diz Felippy.

Agora, a expectativa é que por meio do piloto “Raul” outros episódios sejam produzidos e que a série ganhe futuramente espaço na TV aberta, fechada, VOD (vídeo on demand – vídeo sob demanda)... 
Em pós-produção, ainda não há previsão de estreia. Ahhh... 

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