Pride

Morre Luana Muniz, a Rainha da Lapa que ensinou que “travesti não é bagunça”

Foto de Pedro Stephan
Por Neto Lucon

Morreu na madrugada de sábado (06) aos 56 anos Luana Muniz, a travesti que era conhecida como a Rainha da Lapa. Ela também é autora da frase “travesti não é bagunça”, dita no programa Profissão Repórter, da TV Globo, e se tornou notícia por ter sensibilizado o padre Fábio de Melo em sua transfobia.

Luana estava internada há uma semana no Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, em Acari, e teve complicações de problemas renais e de coração decorrentes de uma pneumonia bilateral.

Na Lapa, ela era dona de um casarão na rua Mem de Sá, onde funcionava a sua ong e alugava quartos para travestis e mulheres transexuais – ela cobrava pela diária, deixando que elas trouxessem clientes, mas proibia álcool, droga e roubos. Também trabalhou com quase cinco décadas como profissional do sexo e quarenta como artista.

Era amada, odiada, exigia respeito e dizia ser, assim como a cantora Cher, uma estrela há 40 anos. Salientava que seus súditos eram as pessoas em situação de rua, positivas e ajudava muitas delas com alimento e acolhimento. Era brava, dona de um humor debochado, ácido e inteligente. Era glamorosa na arte assim como não pensava duas vezes em "descer do salto".

Muitos amigos, amigas, colegas de trabalho e admiradores lamentaram a morte nas redes sociais. Alcione declarou ao jornal Extra: "Foi-se embora e nos deixou muita saudade, mas com certeza um espírito como esse, batalhador e generoso, agora está nos braços de Deus. Descanse, minha amiga". O enterro ocorreu no domingo (09), às 13h, no Cemitério de Irajá. 

TRAVESTI


A frase “Travesti não é bagunça”, dita no "Profissão Repórter" em 2010 a um transeunte que quis tirar uma foto dela - “apaga, não te dei autorização! tá pensando que travesti é bagunça?”, e a um quase-cliente que tirou ela “de lá para cá à toa” e levou um safanão, também esteve marcada em sua trajetória.

Embora reconhecesse que agiu mal ao bater no rapaz, Luana contava que aprendeu desde cedo que precisava ser forte, exigir e conquistar respeito. Sempre soube também que tinha afinidade com o gênero feminino e que isso não significava necessariamente em ser frágil, sensível e delicada. Mas corajosa, forte e destemida.
Aos 9 anos, ela já era travesti e estava na prostituição

Aos nove anos, já tinha plena convicção de que era travesti e, “como uma força da natureza que ninguém controlava”, saiu de casa de minissaia para nunca mais voltar. Sem escolaridade ou experiência, teve as portas do mercado formal de trabalho fechadas e foi catapultada para a profissão do sexo.

Em entrevista ao jornal chileno The Clinic, ela disse que os lugares onde ficou eram "os postes, cheios de urina, merda e pedras”. “Eu enfrentei isso”, contou. A precariedade também estava na transformação do corpo. Os hormônios eram proibidos e a maquiagem para pessoas que foram designadas homens também. Sobreviveu ao descaso, ao ódio, às competições, às brigas, às modificações corporais, aos clientes loucos e a expectativa baixíssima de vida de uma travesti no Brasil, 35 anos.

Ao mesmo tempo em que ser travesti era proibido, o proibido também rendia um bom dinheiro. Inicialmente, trabalhou em Tiradentes, Lapa, Copacabana, Ipanema. Em sua época de ouro, ou seja, quando conseguiu muito dinheiro, chegava a ter 50 clientes em um dia. “Me casei oito vezes, mas deixei os oito porque sou como Marilyn Monroe, valorizo mais os diamantes do que os homens. Diamonds are forever”.

NÃO É BAGUNÇA

Sua estreia como artista ocorreu nos anos 80, no musical Mimosa, no teatro Brigite Blair. 
Aos 20 anos, quando o boom da aids chegou ao Brasil e a imprensa noticiava como "câncer gay ou peste gay", Luana foi para Paris. E, além dos programas, também atuava como artista nos cabarés.
Ela se inspirava na primeira atriz que viveu a mulher-gato
Em cena de A última Ceia 

Dizia ser estrela há mais de quarenta anos e até mencionava o escritor Oscar Wilde para falar sobre suas performances. “Deus dá o talento a cada um, o que você vai fazer com esse talento é o que é importante. Existem pessoas que são talentosas e geniais, eu acredito que atendo todos esses requisitos”.

Suas performances eram ousadas, marcadas pela sensualidade, provocação, humor inteligente e referências clássicas. 
As inspirações vinham de Julie Newmar, que foi a primeira mulher-gato na década de 60, Barbra Streisand e Madonna. Ganhou muito dinheiro ao passar por 39 países, morar em 16, até que começou a guardar para sua volta ao Brasil. 

Tempos depois, em 2009, foi fotografada por Pedro Stephan no ensaio "Luana Muniz - a Rainha da Lapa", que fez parte do FotoRio e também em exposições na Itália e em Portugal. Também fez um filme ao lado de Dira Paes. E foi homenageada pelos artistas grafiteiros Marcelo Eco e Marcelo Menti em uma imagem no bairro da Lapa. 

RESPEITE AS TRAVESTIS

De volta ao Brasil, decidiu reunir algumas travestis que trabalharam ao seu lado na Europa e criou em 2002 uma associação para reivindicar melhorias na vida de travestis e transexuais no local: Agenttles - Associação das Profissionais do Sexo do Gênero Travesti, Transexuais e Transformistas do Rio de Janeiro. 

“O tempo da navalha e da faca já passou. Agora devemos lutar, falar de nossos problemas, cumprir com nossos deveres para exigir nossos direitos”, disse ela, que comprou um casarão onde funcionava a sua associação e acolhia travestis que eram expulsas de casa pela família e das que atuavam na profissão do sexo.

Ao acompanhar as notícias de assassinatos de travestis e a falta de empregabilidade no mercado formal à população trans, dizia que o Brasil tinha fama de ser democrático e sem preconceito,  mas que isso era uma grande mentira. 
Segundo Luana, em entrevista ao site Acessa.com, o país precisa investir em educação “Só a educação vai nos salvar. Vamos lutar pela educação, pois só assim virá a cultura, política e saúde”.
Luana Muniz durante reunião sobre a população trans

Luana também foi uma das fundadoras do projeto Damas, da Prefeitura do Rio, que ajuda a capacitar a população trans para o mercado formal de trabalho, no Projeto Travesti e Cidadania da CIEDS e de um abaixo-assinado pedindo o fim da violência na Lapa, que foi assinada pela cantora Alcione. Ela também frisava que a profissão do sexo lhe rendeu tudo o que tinha, sem moralismos, mas que deve ser uma opção e não uma imposição, como geralmente ocorre. 

“Para mim (ser profissional do sexo) é uma felicidade plena, um sucesso. (Mas) não faço apologia da prostituição, nem apoio a prostituição infantil. Incentivo quem queira um trabalho convencional a se preparar. Eu as incentivo para que estudem uma carreira paralela, porque em algum momento isto vai acabar. A juventude é importante em qualquer área profissional. Quando deixar, vou ser cozinheira”, declarou.

OUVIU, SEU PADRE?

Ao se tornar Rainha da Lapa, Luana conquistou muitas pessoas. E, de fato, quem passou por ela carrega uma história. “Todo mundo conhece Luana Muniz e se criaram mitos ao redor de mim. Quem me conhece profundamente sabe que tenho um bom coração, mas se me tratam mal, trato mal”, dizia.

A atriz travesti Dandara Vital lembrou o dia em que conheceu Luana: “Estava numa conferência LGBT e uma mulher cis olhava para mim e uma outra travesti que rapidamente perguntou: "Você quer uma foto?". A mulher sem jeito respondeu: "Desculpa! Vocês são tão lindas por isso estou olhando!", e a travesti retrucou: "Minha mãe me deu educação para não ficar reparando as pessoas, mas se a sua educação é assim, pode continuar olhando". Eu fiquei sem graça pela mulher, tanto que fiz a egípcia, e achei que aquela travesti havia sido exagerada. Logo depois anunciaram: LUANA MUNIZ, a rainha da Lapa, que foi loucamente aplaudida. Anos depois fui entender aquele ensinamento de Luana, que o preconceito não vem somente em forma de violência”.

Dentre as pessoas que conquistaram e foram conquistadas estava a cantora Alcione. No aniversário da artista no último, Luana foi convidada para a festa na Mangueira e teve um encontro histórico com o padre Fábio de Melo. “Boa noite, padre, o senhor tiraria uma foto com uma travesti pecadora?”, disse, provocando-o com humor. Mal sabia ela que tempos depois o padre fosse usar o contato com ela para falar sobre as próprias transfobias.

Durante uma missa, o padre admitiu que estava envergonhado por estar na presença de uma travesti e reconheceu a mesquinhez deste sentimento. Sobretudo quando a irmã de Alcione, Maria Helena, contou sobre as ações de Luana em acolher pessoas sujeitas à vulnerabilidade social na Lapa. “Quando Deus coloca essas pessoas diante de nós, é para desmoronar os castelos de ilusão que nós criamos dentro”, disse o padre.

Deste testemunho, os dois tiveram uma amizade por redes sociais e Luana afirmou que várias pessoas foram à sua associação para ajudar. “Ontem várias freiras e senhoras da paróquia vieram e ofereçam ajuda e pediram para tirar fotos”, contou. Em entrevista ao Programa Eliana, ela afirmou que ele foi uma pessoa de muita luz e que ajudou a dar uma lição de aceitação e acolhimento.
Luana Muniz e o padre Fábio de Melo
Em entrevista ao Programa Eliana

O ADEUS

Há duas semanas, Luana teve uma apresentação artística com as amigas Lorna Washington, Paulete Godard e Danny D’Avalon. Estava glamorosa e conquistou todos os aplausos do público. Ninguém poderia imaginar que uma semana depois estaria internada.

Após uma rápida melhora, foi ao Facebook avisar que continuava viva. E que não abandonaria tão facilmente a vida. Mas não resistiu aos problemas renais e de coração. Sim, a travesti forte, obstinada e corajosa também escondia um coração frágil, calejado e sensível. Deixou centenas de histórias para contarem e a sua marca neste mundo...

“Já vi muita coisa ruim e muita coisa boa. Eu prefiro falar das coisas boas. Eu não sou uma pessimista chata e nem sou uma otimista sonhadora. Eu sou uma realista consciente. Eu pisei em 39 países, morei em 16, tenho dupla cidadania e pisei em lugares que reis e rainha e grandes estrelas fizeram compras. E também presenciei mortes de pessoas. Eu sou da Lapa de outrora. Sou da Lapa do grande glamour e que depois houve a decadência”, disse a rainha daquele espaço.
"Sou uma realista consciente"

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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