Pride

“O que falta é oportunidade e sorte”, diz técnica de enfermagem transexual Ariela Diniz


Por Neto Lucon

Ariela Diniz teve sua vida profissional transformada há quatro meses, quando teve a oportunidade de trabalhar como técnica de enfermagem no Hospital Nelson Solon de Farias e no NHC, em Coronel Ezequiel, Rio Grande do Norte. Mulher transexual, ela se profissionalizou no curso há seis anos, mas desde que se formou ficou afastada da área.

A profissional afirma que inicialmente escolheu a enfermagem por acreditar que seria um curso mais fácil de concluir. Mas que com o tempo passou a se apaixonar pela profissão. “Estou me identificando cada vez mais”, conta ao NLUCON.

Ela diz que não sabe se não encontrou emprego antes, mesmo com o diploma na mão, pela transfobia, pela falta de experiência ou por não ter corrido tanto atrás. Ariela chegou a fazer outros cursos, como de técnica em agropecuária, na Escola Agrícola de Jundiaí, tendo que interromper o curso para iniciar a trajetória como técnica de enfermagem.

“O que falta mesmo é oportunidade e sorte. Eu tive a sorte e o privilégio por verem neste momento que sou boa, por reconhecerem o meu profissionalismo. E estou me saindo muito bem nesses quatro meses”, afirma.


Dentre as atividades que ela mais gosta do trabalho é a possibilidade de cuidar das pessoas. “É ver as pessoas chegarem fragilizadas e você poder atender, sensibilizar e mudar aquele quadro. Gosto de fazer os procedimentos, de aplicar uma injeção. O ser humano precisa desse cuidado e me sinto importante em fazer parte da sociedade desta maneira, cuidando das pessoas”.
"Gosto de cuidar das pessoas"

Ariela conta que é respeitada pelos demais colegas e sobretudo pelos pacientes – muitos deles idosos. “São sempre respeitosos comigo, assim como eu sou com eles. Eles me enxergam como profissional e eu procuro observar o lado humano de cada um. Muitas vezes me emociono com as histórias”.

SIM, ARIELA

A técnica de enfermagem diz que sabe que é uma mulher desde a infância e que iniciou a transição de gênero aos 14 anos, sendo respeitada pelos familiares. “Já me deparei com alguns preconceituosos no decorrer da vida, mas sempre soube que eram pessoas infelizes, que não conseguem ver a felicidade no próximo. Deixo eles para trás”.

Quando foi contratada no hospital, já vestiu um jaleco com o nome social. Mas houve uma denúncia anônima, dizendo que ela estava praticando crime por se identificar com um nome diferente do que tem no registro. Ela, então, acionou o Conselho Regional de Enfermagem, que por sua vez acionou o Conselho Federal de Enfermagem, que garantiu o direito ao nome social.

“Foi uma denúncia anônima, que quis fazer o mal ou que não sabe desse direito. Muitas pessoas não estão a par do direito ao nome social. E eu acho que deve haver uma campanha nacional para que todas as entidades e pessoas saibam desse direito. Hoje eu uso o nome social no jaleco e até na carteirinha”, diz ela, que se sentiu realizada com a decisão.
Ela já entrou com processo para retificar o nome e gênero da documentação

Ela também deu entrada para o processo que julgará a sua retificação de nome e gênero do registro civil. Mas, segundo Ariela, os processos tendem a demorar mais no Rio Grande do Norte que em outros estados. “Tive amigas que fizeram na Paraíba e que a decisão favorável saiu antes”, conta.

Feliz com a nova fase, a técnica de enfermagem afirma que está melhor aos 30 que aos 14 anos. “Sou uma mulher consciente dos meus direitos, deveres e corro atrás deles”.

É a prova de que, assim como ela diz, tudo começa com oportunidade e a "sorte" de cair em uma empresa sem preconceitos e que zela pelo profissional. 
Desejamos que continue tendo êxito em sua trajetória.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

0 comentários:

Tecnologia do Blogger.