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“Podemos responder por nós mesmos”, diz radialista homem trans Valentim Félix


Por Neto Lucon

O radialista Valentim Félix – homem trans de 26 anos - levou para a Universidade Federal de Mato Grosso, no curso de Radialismo, um programa de rádio feito por pessoas trans para que pessoas cis escutem e aprendam. 

No “Escuta Trans” (escute aqui), ele aborda temas, vivências, expressões e tudo o que gira em torno das identidades trans. E tem como premissa de dar a melhor informação, com o olhar desta população, para acabar com a transfobia tão presente na sociedade.

Preconceito, este, que fez com que Valentim tivesse uma trajetória árdua e solitária até se entender (e se aceitar) homem trans. Ele chegou a passar por um convento, por outras categorias, pela autonegação, até que pudesse se olhar no espelho e se ver como uma pessoa completa.

Em entrevista ao NLUCON, ele – que também é coordenador do IBRAT no Mato Grosso - fala sobre sua vida, pelejas por universidades, reflexões sobre mídia e responde até se páginas como a nossa, feita por pessoas cis, devem acabar. Vamos lá! 

- O que te estimulou a querer cursar o curso de Comunicação Social / Radialismo Na Universidade Federal do Mato Grosso?

O curso leva o nome de Radialismo. Porém, a grade abarca estudos sobre TV também. Então a gente chama de Rádio e TV. Para eu responder esta pergunta vou ter que contar um pouco sobre minha vida.

- Estamos aqui para isso...

Quando tinha 16 anos, resolvi entrar para o convento. Motivo? Eu sabia que tinha desejos por mulheres e, vindo de uma família católica, isso era inadmissível. Foi então que achei no convento uma forma de me livrar da cobrança dos ‘namoradinhos’. Fiquei no primeiro convento até os 18 anos, quando entrei na faculdade. Com essa idade, as irmãs já tinham percebido que eu não tinha vocação, então me orientaram a seguir minha vida. O primeiro curso que entrei foi jornalismo. Cursei quatro semestres em uma universidade privada aqui em Cuiabá, a UNIC, e depois transferi para a Estácio FIB, na Bahia.
"Hoje em dia problematizo até a minha fé"

- Chegou a concluir a faculdade de Jornalismo?

Neste primeiro momento, não. Eu ainda continuava sentindo atração por mulheres e isso sempre me fez sofrer muito. Foi nesse momento que conheci outra ordem religiosa e resolvi ir para Mairiporã, em São Paulo. Passei alguns meses convivendo com elas, mas tive que sair. Desta vez, por motivo de saúde. Voltei para minha casa, em Cuiabá, e comecei a cursar Direito. Fiz um semestre e por outros motivos tive que deixar. Neste mesmo ano, conheci outra ordem religiosa e fui para Campo Grande. Uma das exigências desta ordem era que meninas fizessem pedagogia e mais uma vez fui parar em outro curso. Durante este período comecei a trabalhar em uma agência de viagens e ganhei uma viagem para Salvador. O coração bateu mais forte e voltei para Salvador para terminar o curso de jornalismo que havia trancado lá.

- Só não entendi porque você insistia em ir para instituições religiosas...

Entrei no convento querendo trabalhar para Deus, para que ele não me mandasse para o inferno por gostar de meninas.

- Como lidou com todas as questões religiosas que atravessaram a sua vida e que de certa maneira contribuíram e contribuem para a transfobia?

Ainda trago sequelas tanto físicas quanto psicológicas. Este convento que eu mencionei em Mairiporã foi bem complicado. O fundador é militar, então tudo era muito rígido e cheio de regras. Eu voltei para casa e tinha passado por uma lavagem cerebral. Foi convivendo com outras pessoas LGBTS que eu comecei a desconstruir minha forma de pensar. Hoje em dia nem católico eu me considero mais. Hoje em dia eu problematizo até a minha fé. Não sei se acredito ou se algum dia já acreditei realmente. Até que ponto foi uma imposição.

- E por qual motivo você escolheu o Radialismo?

Gosto de pensar que ele me escolheu e não o contrário. Eu tinha me mudado para Salvador dois meses antes de começarem as aulas. Neste período, fiquei sabendo por um amigo que eu tinha a possibilidade de entrar na UFMT no curso de Rádio e TV. Quando fui olhar a grade curricular do curso me encantei. Era isso que eu buscava no jornalismo. Lembro que quando cursava Jornalismo a minha matéria favorita era de radiojornalismo. Além disso, a minha vó foi cantora de rádio na Bahia, então daí que veio o meu amor pelo rádio. Quando eu me vi na oportunidade de fazer um curso em que eu pudesse explorar mais a questão radiofônica, para mim foi ótimo. Larguei tudo mais uma vez e voltei para Cuiabá. Aos 23 anos, a vontade de ficar com uma menina ainda me assolava.
"Quando me vi enquanto homem foi como me ver pela primeira vez"

- Até então você não se identificava como homem e nem havia se envolvido com nenhuma mulher?

Não tinha nem ao menos beijado uma. Mas quando entrei na UFMT não teve como. Me deparei com LGBTs que viviam tranquilamente com sua identidade de gênero e orientação sexual. Então eu pensava que também conseguiria. Neste período eu ainda não me identificava enquanto trans. Nesse mesmo ano, conheci minha primeira namorada e foi, então, que tive coragem para contar que eu gostava de mulheres. Foi bem complicado, ainda é eu percebo. Depois que me ‘assumi lésbica’, porque até então eu não me percebia como trans, comecei a me vestir e a agir da forma que me deixava à vontade. Apesar de ter o cabelo longo, nunca tive os ‘trajeitos muito femininos’. Quando cortei meu cabelo e troquei minhas roupas, meu pai me questionou se eu estava querendo ‘trocar de sexo’. Na época, a minha concepção era que ‘troca de sexo’ envolveria genital. Nunca tive problemas com o meu, então a resposta foi negativa.

- Naquele período, pela falta de informação, você se sentia confortável em ser definido como ‘mulher lésbica’?

Eu não me compreendia como tal, essa definição nunca me representou totalmente. Tanto que não foi só meu genitor que percebeu essas mudanças em mim. A minha namorada na época era lésbica e eu percebia que era diferente até mesmo dela. Meu jeito era diferente, meu pensamento era diferente e eu não conseguia entender a razão. Certo dia, durante uma discussão, minha ex-namorada se zangou comigo e disse: “Já chega, eu sou lésbica, gosto de mulher e você é homem”. Aquilo foi um choque para mim. A partir deste momento ela começou a falar que eu era trans, mas ela dizia apenas trans e não homem. Como eu não sabia que existiam homens trans, eu achava que ela estava louca. Achava que homem era quem fez a cirurgia para se transformar em mulher.

- Como foi que caiu a ficha de que é um homem trans e que a orientação sexual poderia ser outra?

Assisti a uma entrevista no Youtube e conheci o João W Nery. Ele contava a vida dele e eu pensava: “Ele está falando sobre mim, está contando a minha vida”. No final da entrevita, eu conclui que eu era trans. Mas a partir daí começo a negação. A transexualidade sempre foi carregada de muita coisa suja. Eu era muito transfóbico e nem tinha consciência disso. Eu não queria estar no meio dessa sujeira. Era a única coisa que eu sabia. O tempo passou e eu fui pesquisando e vi o quão preconceituoso era o meu pensamento. Passei alguns meses recluso tentando me aceitar como homem trans. E na virada de 2014 para 2015 eu consegui me olhar no espelho e dizer que “eu sou, sim, um homem trans”. De fato, foram os anos que mudaram o rumo da minha história.

- O que mudou em 2014 e 2015?

Foram os anos que contribuíram para um momento de autoconhecimento para que eu pudesse ser este homem forte que hoje tem orgulho de dizer que é trans. Também no decorrer do ano de 2015, já tendo aceito minha identidade de gênero como masculina eu me vi questionando a minha sexualidade. Enquanto "mulher" e gostando de mulher eu era lésbica. Agora enquanto homem e gostando de mulher eu sou hétero ou pelo menos era. Digo “era”, porque depois que me aceitei inteiramente enquanto homem trans passei a me relacionar novamente com outros homens. O meu problema com eles antes era que eu não gostava da forma como me viam e me tratavam. Obviamente eles me viam mulher. Quando me relaciono com eles, me veem homem e me tratam como tal. A sociedade culturalmente genitaliza as pessoas. E quando eu afirmo que me relaciono com homens gays, isso causa um estranhamento. Esquecem que homens gays gostam de homens e eu, sendo um também sou contemplado por este afeto. Isso prova que gênero, orientação sexual e genital são coisas totalmente distintas.



- Como foi se perceber homem trans numa sociedade tão transfóbica?

Sempre soube que tinha algo diferente comigo, mas eu achava que era relacionado a orientação sexual. Quando me vi enquanto homem foi como me ver pela primeira vez. Eu estava diante de um desconhecido e eu estava completamente apaixonado por aquele desconhecido. Ele me fez completo, me encheu de uma paz que eu busquei em tantos lugares e o único lugar em que eu não olhei foi para dentro de mim mesmo e foi aí neste pedacinho que eu encontrei o amor da minha vida. Que sou eu mesmo (risos). Porém com este encontro vieram os tempos difíceis. Com um corpo que não conseguiam saber de primeira se era de homem ou de mulher veio o ódio. Veio o medo de ir ao banheiro. A vergonha ao mostrar os documentos. A preocupação com a camisa que marcava os seios. Após me identificar enquanto homem trans, levei sete meses para começar o tratamento hormonal.

Confesso que com o tempo eu fui ficando "invisível" e isso foi trazendo um certo conforto. O medo de ir ao banheiro foi reduzindo entre outras formas de violência que a gente sofre no dia a dia. Em junho do ano passado eu consegui fazer a minha mamoplastia masculinizadora aqui em Cuiabá mesmo e hoje me sinto mais livre em relação ao meu corpo. Apesar de não ter concordado de imediato minha mãe cuidou de mim no pós-cirúrgico. Quando um bebe é recém-nascido é natural que ele tenha um cuidado mais direto da mãe. E foi assim que eu me senti, um recém-nascido.

Valetim e o namorado, Watila Fernando

- Hoje você é um homem trans. E qual é a sua orientação sexual?

Estava falando sobre isso ontem. Eu me identificava enquanto bissexual, mas já tem um tempo que não estou mais vendo dessa forma. Acho que gay me contempla mais (aliás, acima, está a foto dele com o atual namorado, Watila Fernando). 


Você sofreu transfobia em algum momento?

Já, sim. Hoje em dia acontece mais quando vou apresentar documentos ou quando a pessoa fica sabendo que eu sou trans. Sobre a questão racial, antes de me identificar enquanto trans eu passava pelas complicações de ser uma mulher negra. Já fui extremamente objetificado, já fui humilhado. Enquanto homem negro as complicações agora são outras. Como tenho a leitura de homem cis negro, as pessoas normalmente acham que eu vou fazer algo com elas. As mulheres na rua a noite tem mas medo de mim do que um cara branco, por exemplo

- Em sua opinião, o que é que as pessoas precisam ainda hoje saber sobre a população trans?

Primeiramente que somos pessoas também. Parece besteira falar isso, mas o tratamento conosco muitas vezes beira a desumanidade. Então eu só posso entender que as pessoas não nos veem assim. O preconceito está ligado com a ausência do conhecimento, então quando a gente apresenta essas vivências de uma forma simples, de fácil entendimento, sem muita palavra rebuscada acredito que aos poucos as pessoas vão se desconstruindo. Pode ser que eu não viva para ver essas mudanças, mas se eu parar de acreditar que um dia elas virão, não tenho mais motivo para lutar.

- Sua mãe chegou a cuidar de você após a cirurgia. Como foi conversar com a família e falar sobre ser homem trans?

Consegui me assumir em junho de 2015. Escrevi uma carta onde contava toda a minha aflição, meu desejo de me hormonizar e fazer a mamoplastia masculinizadora (retirada das mamas). Essa carta eu não entreguei, reuni a família e li para eles. Meu pai na época disse que tudo que ele mais queria era ver a minha felicidade, mas que tinha receio sobre minhas decisões por saber o preconceito que me esperava no mundo lá fora. Minha mãe ficou algumas semanas chorando quando olhava para mim, mas hoje ela já consegue conversar comigo sobre o tratamento. Meu irmão aceitou e temos um convívio muito bom. Eles não me chamam de Valentim e nem me tratam no masculino, mas hoje eu consigo ter a tranquilidade de não estar escondendo nada deles.

- Durante o Radialismo, chegou a abordar a questão trans?

Desculpa ter tirar do seu roteiro com minha vida maluca (risos).

- É ótimo que você se sinta à vontade para dividir todas essas questões. Me sinto feliz e honrado...

Comecei a trazer a questão trans para este formato lá em 2015, quando me identifiquei enquanto homem. Utilizei a portaria do MEC, como argumento para solicitar o nome social, e foi tranquilo. Eu participei do Intercom e fui premiado com uma série de áudio drama chamada Transgredindo. Nesta série eu relato um pouco da experiência de um homem trans no início de sua descoberta e antes da terapia hormonal. Durante a graduação, em todos os trabalhos que eu podia colocava a transexualidade em áudio.
Com Jaqueline Gomes de Jesus, primeira entrevistada do Escuta Trans

- Como foi que surgiu o Escuta Trans?

Apesar do amor pelo rádio no TCC eu pensei em sair da minha zona de conforto. A princípio a ideia era fazer uma documentário audiovisual fazendo recorte ao universo transmasculino. Utilizando como fio condutor a genitalização. Quando fui expor minha ideia para a professora ela não entendeu nem metade dos termos e conceitos que estavam sendo dispostos ali. Foi aí que eu percebi que meu trabalho deveria "retornar algumas casas". Só que neste momento eu comecei a problematizar o motivo destes termos e conceitos não estarem sendo acessados pela maioria da população e tentei achar uma forma de viabilizar isso. Foi aí que surgiu a ideia de uma entrevista radiofônica.

A princípio não era nem um programa. E nesta entrevista eu queria alguém que fosse trans para falar sobre os termos e conceitos. Então pensei em pedir para que alguém me entrevistasse. Porém durante a pesquisa bibliográfica eu me deparei com um e-book da professora Jaqueline Gomes de Jesus intitulado Orientações sobre Identidade de Gênero: termos e conceitos. Fiquei fascinado com o material e resolvi que teria que ser ela para a entrevista. A partir disso foi que surgiu de fato a ideia do programa efetivamente.


- Qual é o objetivo do programa?

As vozes das pessoas trans e travestis são silenciadas em diferentes momentos então pensei em criar um espaço para que essas vozes pudessem ser ouvidas. No programa piloto a Jaqueline desmistifica os termos e conceitos e também fala sobre sua vivencia enquanto professora universitária. As outras entrevistas abordaram outros temas diferentes, mas sempre exigindo que os entrevistados não sejam pessoas cis. Até os intervalos musicais foram pensados para divulgar o trabalho das pessoas trans e travestis. O Escuta Trans é um espaço onde trans fala e cis escuta.

- Você acha que em muitos programas que se fala sobre pessoas trans, as pessoas cis e a visão dessas pessoas acabam prevalecendo? Qual é a importância de deixar a voz na boca das pessoas trans?

As pessoas cis nos tutelam o tempo todo. Atualmente tem se visto mais pessoas trans falando por elas, mas ainda é bastante complicado, porque uma pessoa cis pode até entender e ter empatia pelo o que a gente passa, porém jamais vai saber como é. E além disso tem toda a questão relacionada a patologização das identidades trans. Afinal como vão dar voz para um doente, não é mesmo? Então ao meu ver esse silenciamento também perpassa por essa questão. E a nossa luta é para provar exatamente o contrário. Que podemos, sim, responder por nós mesmos.

- O que você acha da mídia quando aborda a população trans?

Ultimamente temos ganhado visibilidade, o que de certa forma é bom quando ela é de forma positiva. Porém a necessidade de se atentar aos pronomes corretos quando vão se referir a nós. A desinformação sobre a diferença de orientação sexual e identidade de gênero. A corriqueira questão de achar que pessoas trans sofrem homofobia.

- Você acha que eu devo parar de escrever, por exemplo,Valentim? Ė o que as pessoas cis falam para mim, quando abordo a importância dessa questão.

Não, a diferença é a forma com que se fala. Você utiliza seu privilégio cis para nos dar voz. Acontece que essa não é a regra. Você conhece o Itallon (Lourenço), né? Ele é meu melhor amigo e ele muitas vezes faz isso. Utiliza do privilégio cis para me tirar de algumas situações. Eu queria não ter que passar por isso. Queria não precisar que alguém me tirasse, mas às vezes é necessário. Muitas vezes eu gritei por ser machucado e as pessoas não entenderam. Mas bastou o Itallon “traduzir” para a linguagem cis, outros cis entenderam.

- O que a banca de TCC achou do Escuta Trans?

O trabalho foi muito elogiado pelo ineditismo, pela ousadia e principalmente pela iniciativa de tentar acessibilizar esse assunto.

- E quais são os próximos passos, Valentim?

Eu pretendo fazer mestrado, quero seguir carreira acadêmica com professor, mas sem deixar o Escuta Trans de lado. Vejo que posso ajudar muita gente com essa ferramenta. Além de amar o rádio, eu também tenho meu amor pela militância. Sou coordenador estadual do IBRAT aqui no Mato Grosso.
Valentim com os pais durante o TCC

Escuta  Trans #1

Um comentário

hvc disse...

Muito bonita a sua história, Valentim. Continue forte na sua luta por uma sociedade melhor, com menos ódio e mais amor. Talvez você não chegue a vê-la, mas com certeza estará na história por sua dedicação e perseverança.

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