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Por onde anda Caroline Cossey, a modelo transexual que fez sucesso nos anos 80 e 90



Caroline Cossey, também conhecida como Tula, foi uma das modelos inglesas mais requisitadas dos anos 80 e 90. Tanto que chegou a ser uma bond girl em um filme do 007, posou para a Playboy e, no auge da fama, teve a vida pessoal exposta com a notícia: “Tula é uma mulher transexual (na verdade, o News of The Word publicou: Uma das Bondgirls já foi homem). E teve que lidar com a repercussão.

Aos 62 anos, Caroline quebrou o silêncio e contou porque, depois de ter ficado muito famosa e de ser uma porta-voz da população trans, preferiu se afastar da grande mídia – e fugir do Reino Unido. Segundo ela, houve uma tentativa de suicídio, momentos cruéis da imprensa, um linchamento público com perguntas pessoais e, para completar, um fã que a atacou.

“Na década de 80, ser transgênera era como uma sentença de morte – ainda pode ser em certos países. Era como se eu tivesse enganado todo mundo, fui tratada como uma criminosa, como um animal caçado. Mas não era assim. Quando fiz a cirurgia (de redesignação sexual aos 20 anos), era como ter colocado a minha mente em harmonia com a parte de baixo e começar a minha vida”, declarou ao Sunday Mirror.

A modelo afirma que chegou a sofrer violências, mas que naquele período não se sentia segura para falar a respeito. Ao contrário, seria mais um alvo. “Eu estava no banheiro quando um sujeito grande não me deixou sair. Ele disse: ‘Não se preocupe, não vou fazer nada, sou um fã. Então, para meu horror absoluto, ele me agrediu. Eu não podia fazer nada, eu estava em choque. Era devastador e me perturba até hoje falar sobre isso”.
Caroline Cossey aos 62 anos (Sunday Mirror)

Caroline defende que experiências de violência não devem acontecer e que nenhuma pessoa trans deve permitir ou se calar. Mas frisa que “naquele tempo as coisas eram diferentes”. “Não havia nada que eu pudesse fazer e minha vida estava em farrapos. Então, eu fugi. Escondi-me porque era a única maneira de me sentir segura”. Ela diz que finalmente as coisas mudaram aos olhos do público e que ela finalmente está pronta para voltar de cabeça erguida.

NÃO SOMOS ATRAÇÕES DE CIRCO

Após ter o passado revelado ao mundo, Caroline afirmou que não encontrava grandes trabalhos como anteriormente. E que todos os oferecidos tinham relação com o fato de ser uma mulher transexual. Ela frisa que desistiu de ganhar muito dinheiro por conta da abordagem caricata que queriam passar para o mundo.

“Apenas senti errado em ser tratada como uma aberração quando eu sabia que era uma garota normal. Eu andei literalmente longe de milhões para manter minha dignidade intacta”, afirma a modelo, que passou a dar entrevistas pelo mundo “tentando mostrar às pessoas que mulheres trans eram apenas mulheres normais, não atrações de circo”.

Um dos casos mais angustiantes para ela foi em uma entrevista de rádio com o ator Howard Stern, que se vestia com trajes atribuídos ao gênero feminino e fazia piadas sobre cortar o próprio pênis. Para Caroline, foi angustiante. “A Vogue tinha recebido e publicado um e-mail dizendo que eu era uma abominação. Foi quando comecei a me desligar e a recusar todo trabalho. Eu precisava da minha sanidade de volta. Mudei para Atlanta e por seis meses eu não saía de casa”.
Caroline Cossey na capa da Playboy

O AMOR A SALVOU

Caroline afirma que naquele momento foi definitivamente amor que a salvou. Mais precisamente o do programador David Finch, de 51 anos, seu segundo marido, que ela acredita ser sua alma gêmea.

“David tinha saído no ponto de ônibus errado em Londres. Ele entrou no restaurante onde eu estava e que iria encontrar meu advogado, mas eu também tinha entrado no restaurante errado. Era o destino. Quando nossos olhos se encontraram foi amor à primeira vista”, conta.

Eles se casaram na cidade de Montreal e a modelo desistiu da carreira e abriu uma loja de antiguidades, trabalhando à noite. “Cortei meu cabelo e mudei a minha imagem. Era o novo começo que eu estava esperando. Dentro de dois anos minha força interior tinha voltado”.

SEM ARREPENDIMENTOS

Apesar de todo o transtorno que viveu, a modelo afirma que sabe que sua história ajudou milhares de mulheres trans. E que é por isso que ela cogita voltar a trabalhar atualmente. “Eu tenho cartas de centenas de garotas dizendo que eu salvei a vida delas”, sorri. “Não me arrependo de ter minha transexualidade pública, lamento que não tinha sido minha escolha”.
Com o marido David Finch, sua alma gêmea

Sobre o futuro, ela diz. “Eu tenho uma lista grande de coisas para fazer. Há propostas agradáveis e eu vendi os direitos do filme sobre a minha vida. Vai ser interessante ver quem me interpreta”. Vai ser incrível!

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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