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“Já fui presa só por estar maquiada”, diz Jane Di Castro em entrevista a Pedro Bial


Jane Di Castro, Rogéria e Leandra Leal estiveram nesta última semana no programa “Conversa com o Bial”, da TV Globo, e divulgaram o filme Divinas Divas, que estreia no cinema nacional no dia 22 de junho de 2017. A obra, dirigida por Leandra, conta a história de uma das primeiras gerações de artistas transformistas, travestis e transexuais do país.

Na entrevista sincera, franca e bem-humorada, Jane falou sobre as mazelas que viveu nos tempos de ditadura militar (1964-1985) e afirmou que as artistas travestis e transexuais da sua geração que estão vivas atualmente são, na verdade, sobreviventes de um tsunami.

Ao relembrar os anos 60 e 70, ela revelou que a população trans era presa somente pelo fato de andar maquiada. “Aos 19 anos, peguei um taxi, estava com a peruca na mão e estava indo para uma boate lá no Beco das Garrafas, quando a polícia me olhou, me tirou do taxi e me levaram presa no camburão. Eu fui em cana”, disse. Ela conta que foi libertada meia hora depois por um empresário, mas que voltou a ser ameaçada de ser presa por mais tempo.

A artista aponta diferenças no preconceito de antes ara agora. “Antes os policiais eram autorizados a bater na gente, a prender a gente. Hoje eles não são autorizados, mas vão lá e matam”.

Na entrevista, ela afirma que o sucesso das travestis de sua época como artistas ocorreu porque, como o teatro de revista havia sido extinto pela ditadura, as pessoas iam para os teatros pensando que fossem ver palhaços ou homens vestidos de mulher. “Mas eles chegam e se deparavam com grandes artistas. Eu sempre gostei de copiar as hollywoodianas: cabelo platino, peito deste tamanho”, disse ela, destacando que sua geração foi cobaia nos hormônios e no silicone.


Ela disse também que o palco foi o grande palanque desta população e que vários preconceitos foram desfigurados por meio dele. “Não precisávamos gritar em trio elétrico para fazer discurso. O nosso discurso sempre foi com a nossa arte. Nós derrubamos o preconceito, tanto que sou síndica de um prédio há 10 anos. As pessoas se assustam: ‘Mas como?’. Eu só estou mostrando que nós podemos ser capazes de acabar com o preconceito, com essa ideia de que travesti só é prostituta. Eu sou síndica, atriz, cantora, ativista e trabalho em uma ong”.

ME DESCOBRI TRANSEXUAL AGORA

Durante a entrevista, Rogéria voltou a soltar alguns dos discursos que ainda incomodam a atual militância trans. Bem como dizer que é “gay e artista”, soltar diversas vezes “o” travesti (e não “a” travesti, em respeito a identidade de gênero delas), que ama ser Astolfo Barroso Pinto e que o fato ser Rogéria é apenas uma grande homenagem às mulheres cis.

“As mulheres (cis) nos adoram. Um (sic) travesti  que não for amado pelas mulheres (cis) está perdido (sic) Falo isso por Rogéria. Então estou aqui para levantar a bandeira do gay, do LGBT e das mulheres (cis), pois graças a elas eu estou aqui”, disse Rogéria.

Ao ser questionada por Bial qual é a maneira correta de se referir a uma travesti, se com os artigos e prenomes femininos ou masculinos, Jane afirma que é “A” travesti. E afirma que se viu encaixada na palavra transexual recentemente, mas que o “lado masculino nunca a pegou”.

“Eu me descobri transexual agora. Eu tinha vontade de falar que queria ser mulher desde criança, mas não falava. Eu vestia o vestido da minha irmã, o salto da minha mãe. Lembro que ganhava um saco de brinquedos do meu pai, que era militar, e vinha bola, carrinho. Quando a minha irmã ganhava e vinha boneca, ferro, fogão, eu dizia: ‘eu quero aquele’. E apanhava”, lamentou.


A artista se emocionou ao falar sobre o marido, Otávio Bonfim, destacando os preconceitos que ele sofreu e afirmando que ele é o primeiro e grande amor de sua vida (saiba mais sobre essa história de amor clicando aqui).

Vale dizer que Jane e Rogéria fizeram um número musical a música La Vie en Rose em que mostraram seu talento e conquistaram a plateia.

LEANDRA FALA SOBRE MARQUESA

Leandra Leal, que dirige o filme e que tem história com as divinas divas desde quando era criança – o avó Américo Leal era dono do Teatro Rival onde elas se apresentavam – revela que aprendeu que a família não é aquela  defina apenas pelos laços sanguíneos, mas também aquela que se escolhe viver e estar junto.

Sobre o filme, ela diz que não é um trabalho antropológico sobre ser travesti, mas sobre a história das oito artistas. “Eu admiro o talento delas, a força e a potência delas em cena e na vida. Elas foram vanguarda no processo de transformação que só foi possível na geração delas por causa da medicina. O hormônio que liberou a mulher (cis) com a pílula também liberou o homem (sic) que queria ser travesti”.

A diretora afirma que o filme deve ser assistido por todos, sobretudo pelas novas gerações que devem conhecer algumas das responsáveis por fazer uma grande revolução comportamental. “O que tirei desse convívio é a liberdade de viver de acordo com o que você deseja. É viver de acordo com a sua potência (...). Vendo o filme, percebi que o que eu passo é tão fichinha”.


Ela também comentou sobre Marquesa, que morreu aos 71 anos, após as gravações do filme e que tinha total consciência de que a obra era o seu canto do cisne. “Ela era chiquérrima, falava cinco idiomas, morava muito tempo em Berlim. Quando voltou ao Brasil, voltou a se vestir de homem porque a mãe não lidava bem com essa questão. Aliás, se alguém da família estiver vendo agora, vá assistir ao filme para saber quem foi essa pessoa maravilhosa que vocês renegaram”.

Ao morrer em um hospital, Marquesa foi deixada em um canto do hospital Miguel Couto, no Rio de Janeiro, e foi Leandra quem ajudou com os gastos do enterro. O filme, que conta ainda com Divina Valéria, Camille K, Eloína dos Leopardos, Fujika de Halliday e Brigitte de Búzios, foi dedicado a Marquesa.

Assista ao Conversa com Bial na íntegra clicando aqui

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