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Mulher trans de 84 anos cria Centro para minimizar a solidão de idosos LGBT no México


A militante trans Samantha Flores, de 84 anos, resolveu dar um importante passo para a população LGBT idosa que, assim como ela, viveu décadas marcadas pelo preconceito e que ao chegar na velhice continua vivendo a LGBTfobia aliada à invisibilidade e à solidão. Ela criou um Centro de Convivência para Idosos LGBT da Cidade do México.

“Não somos casados nem temos filhos ou família. Estamos sozinhos. Precisamos formar um grupo de pessoas da terceira idade para dar conta das nossas necessidades de fato”, declarou Samantha.

Em 2010, o NLUCON escreveu uma reportagem em que mostra que idosos LGBTs brasileiros também voltam para o armário, sobretudo quando precisam de serviços assistenciais. Ali, eles são discriminados por outros idosos que fazem parte da geração mais conservadora, funcionários, além de não ter sua vida sexual ou identidade de gênero legitimadas nesta idade. 

Mas no México Samantha decidiu transformar a dor da solidão em bandeira de luta. "Os heterossexuais (cis) da terceira idade estão esquecidos, abandonados, postos de lado, segregados. Mas os idosos LGBT são simplesmente invisíveis. Ninguém sabe que nós existimos. Queremos satisfazer a mais básica das necessidades: acabar com a solidão e podermos nos reunir como uma grande família". 

Após ter sido perfilada pela revista Out, conseguiu angariar 400.000 pesos – cerca de 76 mil reais – por meio de um financiamento coletivo. Com o dinheiro, ela está prestes a abrir o Centro de Convivência LGBT e contará com o apoio da fundação Laetus Vitae (Vida Alegre, em latim).



Em entrevista ao El País, a militante afirma que o espaço será de convivência diurna e que não tem a pretensão de resolver problemas de saúde ou servir de albergue ou asilo. Ela também avisa que pretende acolher outras pessoas além da sigla LGBT.

“Trata-se de reunir a terceira idade LGBT para combater a nossa solidão. Mas se alguém disser que tem uma amiga íntima que não é LGBT, mas que quer ir lá também, será muito bem-vinda. Ou se um outro tem um amigo muito macho com quem costuma beber nos fins de semana e que diz ‘eu quero ver o que esses viados fazem ali reunidos, também lhe abriremos as portas. Fomos rejeitados durante tantos anos. Não é agora que começaremos a discriminar”, declarou.

HISTÓRIA DE RESISTÊNCIA

Samantha nasceu em 1932 em Orizaba, de Veracruz, e foi criada pelo operário da fábrica de cervejas Moctezuma, seu pai. Infelizmente, 84 anos depois, trata-se de uma das cidades que continuar a registrar crime LGBTfóbicos. “Cidade pequena, inferno grande”, contou.

Em 1957, ela ganhou a rifa de um carro e tratou logo de sair da cidade. Passou por Los Angeles e chegou à Cidade do México. Porém, a cidade também não acolhia pessoas LGBT. A ativista conta que sequer a palavra existia. Diziam apenas: “Prefiro um filho bandido a um filho bicha”.

Foram inúmeras violações que sofreu ao longo da vida, como a quebra do vínculo familiar. Jogo de cintura, sorte e resistência, marcaram a sua trajetória. A militância foi inevitável, sobretudo depois do boom da Aids, que colocou a população LGBT ainda mais marginalizada e alvo de preconceitos. Samantha tornou-se uma combatente pelos direitos das pessoas que soropositivas e com ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis).



Samantha também acompanhou passo a passo a conquista por direitos: casamento, adoção, herança, a possibilidade de retificar o nome. Aliás, foi só em 2015 que ela conseguiu retificar oficialmente os documentos antigos com o nome dado pelos pais. Foi um amigo que pagou cerca de 30.000 pesos – ou 5.700 reais – para efetuar a tramitação legal. “Se eu tivesse dinheiro, teria viajado para a Europa”, admite Samantha com bom humor. 

"Os heteroscis idosos estão esquecidos,
mas nós idosos LGBTs somos invisíveis"
SONHOS

Hoje, ela sonha que o Centro de Convivência para Idosos se espalhe pelo mundo e, quem sabe, chegue a outros Estados – “Mesmo que eu não esteja mais aqui para vê-lo”. E também já engata outro projeto: construir um albergue para idosos LGBT na Cidade do México.

Durante os eventos do Orgulho Gay, de Madri, Samantha foi homenageada por toda a contribuição, história e luta. Nada mais justo...

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