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“Policiais diziam: ‘Você quer ser homem, então vai apanhar como homem'”

Leo Moreira Sá: teatro me abriu as portas após a prisão

O ator trans Leo Moreira Sá e a travesti Verônica Bolina participaram no domingo (25) do encontro que falou sobre a população LGBT dentro do sistema penitenciário brasileiro, na Casa 1, em São Paulo. Os dois defenderam que, além das várias violações que passam dentro da prisão por serem LGBT, não há qualquer subsídio quando cumprem a pena e deixam o espaço.

“Quando saí, a minha irmã disse: ‘Me desculpe, mas não posso te receber’. Eu não tinha para onde ir, não tinha família, não tinha amigos. Tinha apenas um saco plástico na mão (...) Fui parar na minha mãe de santo, que me acolheu com os orixás”, declarou.

Ele, que foi condenado em 2004 por comercializar drogas em um clube noturno, admitiu que seria muito fácil voltar para o que fazia anteriormente. Tanto que demorou um ano para conseguir superar – embora não goste deste termo – ao que o próprio sistema o empurrava a fazer: voltar para o que era considerado ilegal. “Bati em várias portas e todas se fecharam. A única que abriu foi a do teatro. Olha que coisa maravilhosa, a arte me acolheu e transformou a minha vida”.

Verônica, que foi presa em 2015 por bater em uma vizinha e que foi solta neste ano por ser considerada inimputável, disse que é privilegiada ao sair e encontrar apoio dos familiares e dos amigos. Ela diz isso porque sabe de inúmeros casos de travestis e mulheres transexuais que não encontram qualquer apoio ou oportunidade para se reinserir em sociedade após cumprirem a pena.



“Quantas meninas e meninos que não têm amparo? Quantas saem com a sacolinha na mão, e a única coisa que tem esperando é o pensionato que ela vai ter que se prostituir para comprar sabonete? E aí o que acontece de novo: droga, bebida ou pá, a cadeia de novo”, disse. Durante o tempo em que esteve presa, Verônica viu muitas meninas serem liberadas e voltarem para a prisão novamente.

AGRESSÕES

Leo afirma que durante todo o período em que ficou preso esteve em presídios femininos. Aliás, ele defende que todo homem trans deve continuar neste espaço ou em alas especiais, uma vez que prendê-lo ao lado de homens cis no sistema penitenciário masculino seria o mesmo que condená-lo à violência transfóbica, sobretudo o estupro.

Mesmo assim, ele diz que foi muito violentado por policiais transfóbicos neste período. “Lembro dos dois homens enormes que me pegaram. Eles me batiam e diziam: ‘Ah, você quer ser homem? Então vai apanhar como homem. Eles me algemaram no chão e me torturaram”, conta.

Verônica, que foi vítima de violência policial, disse que a realidade das travestis nas cadeias é bem diferente do que sugere os direitos humanos. “Não espera que você vai chegar na cadeia e vai ser chamada de ‘Vanessa’. (Eles dizem:) ‘Ô preso, mão para trás, cabeça baixa”.

Porém, admite que como seu caso foi parar na mídia e evidenciou a transfobia institucional, tudo mudou. Vale lembrar que o caso tomou repercussão e virou a campanha #SomosTodosVeronica quando policiais publicaram uma foto de Verônica nas redes sociais seminua e desfigurada pelas agressões. Na época, ela alegou ter sido torturada e abriu-se uma investigação do Ministério Público. Ninguém foi condenado. 


Uma das imagens da campanha "SomosTodasVeronica", baseada em fotos dela após a agressão

“Depois que uma foi agredida e a mídia me amparou, começaram a mudar muito o tratamento. Antigamente, todo mundo ficava pelado e pelada na blitz. Mas quando eu fui para Pinheiros, todo mundo estava de camisetinha e cuequinha. A questão do cabelo só mudou quando cheguei. Antes era todo mundo de cabelo cortado e, hoje, algumas aparecem com o megahair”, declarou.

Na plateia, a designer Neon Cunha falou como a violência policial está marcada na história da população trans brasileira. Ela contou, por exemplo, que presenciou a Operação Tarântula, que era destinada a prender travestis e mulheres transexuais que se prostituíam nas ruas de São Paulo em 1987. Apesar de a operação ser suspensa pouco depois, a violência policial não parou. Travestis e mulheres transexuais passaram a serem assassinadas a tiros nas ruas.

MAIS HUMANIDADE

A advogada criminalista Carol Gerassi, afirmou que não dá para acreditar na imparcialidade da justiça. E ao ler as normas dos sistemas penitenciários, que afirmam respeitar a orientação sexual e a identidade de gênero das pessoas trans, mostrou várias brechas na interpretação.

Bem como o trecho em que diz que a população trans pode ir para penitenciárias de acordo com a sua identidade de gênero caso tenha passado pela cirurgia de transgenitalização. “Resumem tudo em uma vulva. Eu não estou falando daquelas que querem fazer a cirurgia, estão na fila do SUS e não fizeram. Estou falando de autonomia do corpo, da sua identidade”, pontuou.

Logo depois, Verônica voltou a falar sobre a necessidade de união para mudar a realidade da população LGBT no sistema penitenciário. E que é preciso lutar para a humanização destes espaços: “A gente tem que ser mais unido. Ser gay e ser trans não é close. É ser humano”, defendeu. A advogada pontuou que não dá para esperar do Judiciário e nem da polícia.

O bate-papo contou ainda com a presença de Anna Carolina Martins, do Grupo Mulher e Diversidade da Poastoral Carcerária, e com o antropólogo e pesquisador sobre diversidade sexual e de gênero no sistema penitenciário Marcio Zamboni


RAFAEL BRAGA

O encontro faz parte da campanha “30 Dias Por Rafael Braga”, homem cis negro que foi preso em abril de 2013 no Rio de Janeiro. Ele estava próximo às manifestações de junho do mesmo ano e foi abordado pela polícia por estar com um desinfetante Pinho Sol e um frasco de água sanitária - que foram considerados ingredientes para coquetel motov.



Mesmo após o Esquadrão Antibomba da Polícia Civil atestar que o Pinho Sol e água sanitária não poderiam ser utilizados como explosivos, o jovem de 25 anos foi condenado a cumprir 11 anos e três meses de reclusão e uma multa de aproximadamente R$ 1.600. No mesmo período, várias outras pessoas foram presas e liberadas. Posteriormente, Rafael sofreu inúmeras represálias, perseguições, abuso de poder e arbitrariedades, evidenciando o racismo institucional.

Logo após a conversa, ocorreu o Sarau Manas e Monas.

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