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“Sou o elo de mudança na escola”, diz professora transexual Danye F. Oliveira em entrevista


Por Neto Lucon

Toda vez que fala que se apresenta como professora de uma rede municipal de ensino, Danye de Freitas e Oliveira observa uma surpresa como reação. Ela é uma mulher transexual de 32 anos e sabe que, ainda hoje, para grande parte da população, a empregabilidade a uma pessoa trans é tida como algo inédito.

Danye trabalha como professora de línguas – português, inglês e espanhol – na pequena Orizona, cidade de cerca de 15 mil habitantes de Goiás. Ela dá aula para estudantes do 6º ao 9º ano e, até onde se sabe, foi a primeira da cidade a ser tratada pelo nome social. Não sem antes passar por alguns desafios e até constrangimentos.

Aliás, toda vez que revela que é professora, Danye também é questionada qual é a relação com os alunos e os pais. Como se a transexualidade fosse a maior barreira de sua profissão (não é!). Mas quando se trata de preconceito, a transfobia aparece de onde menos se espera: de outros colegas de profissão que trabalham com educação.

Cartinhas recebidas pelos alunos e alunas
E é com uma trajetória com olhares “diferentes”, de surpresa e de muita superação – Danye esteve em primeiro lugar no curso de Letras - que a professora vem resistindo, ocupando espaço e que vive o processo “mágico” e “transformador”, como ela mesma diz, de ensinar. Recentemente, Danye teve uma licença médica e, ao retornar, foi recebida com cartinhas de boas-vindas dos alunos.

Confira um bate-papo com a professora:

- A presença de travestis e mulheres no mercado de trabalho ainda é visto no Brasil como algo novo. Você sente que as pessoas se surpreendem quando sabem que você é uma professora?

Sim, muito. Quando conheço alguém, a pessoa já vem me perguntar se eu faço programa e tal. Não que se eu fizesse seria algo ruim. Mas as pessoas veem isso com um lugar comum. Se você é trans ou travesti seu lugar é na rua e na prostituição. Logo que a pessoa percebe que eu sou professora começa a perguntar sobre a minha relação com meus alunos e colegas de trabalho. Elas veem isso como algum surpreendente, já que na hora percebem o próprio preconceito, como se elas se sentissem na hora inferiorizadas por eu estar num nível intelectual que às vezes elas não tem. Isso elas demonstram. Para elas, eu ser professora, é algo muito incomum. Mas na verdade é algo muito comum. Devemos ocupar os espaços. Romper com as barreiras e limites que a nossa sociedade impõe.

- Você sempre quis ser professora?

Não. Eu sempre fui muito apaixonada pelo processo do conhecimento, da aprendizagem. Sou autodidata. Aprendi inglês sozinha e assim foi com espanhol. Quando eu fazia ensino médio eu queria na verdade fazer Química industrial, mas a escolha de fazer Letras veio com o tempo, quando percebi que adorava estudar idiomas. Depois que entrei nesse mundo de “ensinar”, me vi em êxtase, pois levar o conhecimento a alguém que não tem é algo mágico, transformador. Percebemos aí o potencial da educação, do ensino. Isso me prendeu por completo. Foi o início dessa viagem. Hoje as dificuldades me fazer pensar sobre tudo que passei no início, mas quantas realidades eu modifiquei, e me sinto muito feliz com isso. Meu trabalho é algo que faço com prazer, com amor. É algo que prende magicamente. Quando estou em sala de aula com meus alunos, é um mundo que é outro, não o lá de fora.

- Como a transexualidade atravessou a sua carreira?

Eu já me sentia trans durante a faculdade mesmo, eu já era mas foi na faculdade que eu percebi do que se tratava. Quando passei no concurso em 1º lugar, assim como no vestibular, as pessoas já te olham diferente. Isso é um problema. Porque se eu não tivesse tido esse êxito o preconceito teria sido maior. Infelizmente é algo comum na nossa sociedade, há uma cobrança maior conosco, porque temos que mostrar que temos potencial pra ocupar um lugar que para as pessoas não nos pertence. Então, quando entrei na rede, eu tentava ser uma pessoa discreta, por estar ainda insegura. Então eu era andrógina, usava roupas comuns, tênis, calças jeans, camiseta. Mas já pintava as unhas, já usava uma leve maquiagem e tinha cabelos grandes. Com o tempo e a experiência eu fui me impondo como uma mulher, foi algo gradual.

- Você é respeitada com seu nome social?

Com cinco anos de carreira eu busquei o direito de usar o nome social na escola, mas só em 2013 eu consegui. Foi uma libertação. Dessa maneira eu consegui ser mais respeitada, pois as pessoas tinham que repensar o que elas tinham em mente sobre mim. Elas tiveram que me respeitar de uma maneira de ordem. As escolas onde trabalhei durante a transição demoraram mais a entender sobre isso. Mas outras onde comecei já com o direito do nome social me deram muito mais dignidade. Então, foi um processo difícil, construído com anos de trabalho e luta pra vencer os pré-conceitos do que seria uma trans na sala de aula, uma professora trans. Não sei se havia outras trans professoras no interior do estado, como eu. Mas acredito que eu fui a primeira a conquistar esse direito, o uso do nome social, no estado, sendo professora. Só havia uma resolução estadual para alunos, mas não contemplava os professores.

- Embora tenha se revelado trans na vida adulta, você já tinha a consciência de que era uma mulher trans?

Tinha sim. Durante a minha adolescência, eu me sentia muito estanha. As pessoas queriam me enquadrar como gay, mas eu não me sentia fazer parte desse mundo. Eu me sentia mulher. O meu gênero era muito desconfortável, fora outras coisas. Foi somente aos 17 anos que eu pude realmente perceber o que eu era. Ou simplesmente dar um nome ao que eu era ou me sentia. Eu era trans. A partir daí decidi lutar por mim. Pelo que eu era e sou. Lutar pela minha vida, pelos meus sentimentos, por tudo que eu sou.



- Retomando aquela curiosidade das pessoas, como foi o contato com alunos e pais durante a transição?

Não foi muito fácil, mas considero como uma fase de afirmação. Acredito que eles mesmo foram percebendo o que eu era. E começaram a me respeitar pelo que eu era., pelo meu papel pra eles. Pelo que eu significava. Eu era a professora deles. Alguém que está ali pra mostrar o caminho. Claro que teve um momento ou outro em que havia comentários e outras coisas, mas nada grave ou agressivo. Com o tempo eles foram mudando o jeito de me perceber, de me olhar e de me entender. E assim eu consegui mostrar que eu era o que eu era, mas que merecia muito respeito, pois não mudava a relação que havia com eles. Hoje, tudo está mais tranquilo. Eles me percebem como eles tem que perceber, como uma mulher.

- Como avalia o contato com outros professores, direção...?

- As pessoas sempre me perguntam se eu sofro preconceito na escola, mas quando elas pensam sobre isso, elas lembram apenas dos pais e alunos. O problema está aí. Nunca tive problemas diretos com pais ou alunos, mas sim com professores e diretores. Uma diretora me negou o direito de usar o nome social e o banheiro feminino. Isso tendo professores com nome social. Por exemplo, havia a Fatinha e a Piri, que usavam o nome nos armários. Quando eu reclamei, os armários apareceram como Maria de Fátima e Maria aparecida. Isso porque a própria diretora tinha um nome social, que não era o de seu registro. A hipocrisia foi muita. Uma professora ano passado disse que me chamaria de Danye depois que ela visse minha ... (nome vulgar da genitália feminina). Como se ela precisasse ver de todo mundo, pra reconhecer a pessoa como homem e mulher. Mas como ela é uma mulher boçal, resolvi que não adiantava eu me debater e discutir com alguém como ela. Então eu a ignoro, já que ela não me vê, eu não a vejo. Pra você ver que o preconceito está do meu lado e não na minha frente.

- Tem alguma situação ou história dentro da sala de aula que gostaria de contar?

Na verdade, não. Uma história marcante, não. Apenas lembro com bastante alegria o carinho que já recebi de vários alunos. Como cartinhas, presentes, afeto. Já houve situações de comentários, mas nada que tenha sido algo marcante, apenas a curiosidade normal que alunos tem em relação a professores.

- Quais são os seus atuais desafios na profissão?

Tudo se resume em cativar. Em prender a atenção dos alunos e fazer com que eles se interessem pelo processo de aprender. Entendam que conhecimento é poder. Que a educação pode transformar suas vidas e levá-los a um estágio intelectual que pode mudar sua interação com o mundo.



- Você também já foi aluna. Como foi o período escolar para você?

Foi uma luta. Dia a dia. Bullying o tempo todo. Mas eu enfrentava e me impunha. Eu já ia pra cima. Sempre fui assim. Ensino fundamental e médio foi aquela coisa de você ser chamada de nomes mais horríveis, e lutar contra isso. Tentar ser o que não é. Já no ensino médio começou a transição, então fui um baque. Como eu sempre me sobressaí no aprendizado, tendo notas boas e conhecendo e sabendo de algumas coisas, eu pude sair viva desse processo. Risos. No curso técnico no IFG, foi quando comecei a me impor mais, a conquistar meu espaço. Na faculdade, eu fui do mesmo jeito, mas me impondo mais. Mas sinto uma pena de não ter lutado mais pela questão do nome social, desde então. Teria sido muito bom. Mas eu não tinha embasamento. A única coisa desagradável foi a questão do banheiro. Mas isso ocorreu no quarto ano. Reclamaram por eu estar usando o banheiro feminino, mas a diretora tentou contornar a situação e me deu a chave do banheiro de deficientes físicos. Naquela hora eu aceitei. Mas hoje não aceitaria isso nunca.

- Aliás, você tem alguma professora que tenha te marcado? Por qual motivo?

Sim. Eu tinha uma professora, que hoje é muito amiga. Ela trabalha comigo. Ela me dava aula de História. Ela me inspirou a estudar e buscar os meus sonhos. Me mostrou que o conhecimento é algo fantástico e transformador. Seu nome é Ivone. Isso foi no ensino médio. É claro que todos os professores marcam de alguma maneira, já sofri até bullying de professores. Mas essa em especial me faz gostar até hoje de tudo relacionado ao conhecimento.

- Em sua opinião, é importante falar sobre gênero nas escolas? Por qual motivo? O que as pessoas, que temem a falácia da “ideologia de gênero”, precisam saber e desmistificar ao falar a respeito do assunto?

Com certeza, sim. Existem métodos e técnicas pra você tratar sobre esse assunto nos diferentes níveis da educação. As pessoas precisam saber sobre as diferenças entre sexo biológico, identidade de gênero e sexualidade. Nem mesmo professores sabem sobre o assunto, ou não tem uma sensibilização acerca dele. A escola é o ambiente ideal pra isso. Lá é o lugar da formação de pessoas. Eu não tenho trabalhado diretamente sobre o assunto. Mas sempre que tenho margem com alguma discussão eu trato do assunto de uma maneira leve. Sou convidada às vezes pra fazer alguma palestra em escolas de ensino médio e faculdade. E vou com muito prazer e alegria. Esse é o meu lado ativista e militante. Tentar levar informações e sensibilizar as pessoas sobre o assunto.

- Muitas escolas ainda fazem divisões de tarefas, filas e atividades dentro de um sistema binário e cisnormativo (onde apenas mulheres e homens cis são contemplados). De qual maneira lida com essas questões?

- Digamos que eu já seja algo que vai ao encontro dessas divisões no sistema. De certa forma eu sou o elo de mudança. As pessoas que convivem comigo acabam tendo que repensar muitas coisas por causa da minha presença no ambiente escolar. E até mesmo eu tenho que repensar, sendo uma trans e desconstruir meus preconceitos que se originaram desse sistema binário. Não tive alunx trans não. Uma trans que já foi minha aluna, mas quando foi ainda não havia se transicionado. Eu adoraria ter um aluno ou uma aluna trans. Eu defenderia essa pessoa com unhas e dentes. Risos. Faria o que ninguém Fez por mim. Lutaria pra que houvesse muito respeito com ele ou ela.



- Sendo professora de línguas, acredita que nossa língua portuguesa é bastante machista? Existe algo que possa ser feito?

Com certeza. Por saber falar inglês, já fazemos essa comparação o tempo todo. Nossa língua sempre puxa para o masculino. Ou seja ela ilustra nossa sociedade patriarcal. Demonstra como somos no dia a dia. Acho que pra nossa língua deixar de ser tão machista, vai levar anos, e uma força coletiva. Isso vai demandar muito tempo. Porque até atingir a população inteira essa noção de uma língua machista e mudar, terá que haver uma mudança de hábitos. Pra isso acontecer, muitos pequenos detalhes e atitudes do dia a dia terão que ser mudados.

- Qual é a sua opinião sobre as ocupações que estavam ocorrendo em todo o Brasil?

- Eu acho magnífica essa articulação. Eu não era tão politizada na minha época estudantil como eu sou hoje. Os estudantes tem esse direito, pois estamos perdendo muitos direitos aos poucos. Eles estão sendo colocados como privilégios. Queremos igualdade de oportunidades, não privilégios. Nossa sociedade é muito dividida. O preconceito social está muito arraigado. Uma pena é a mídia golpista que transgride tudo que é mostrado. As pessoas estão com “cabrestos”. As opiniões delas são gerais.

- Como é ser uma mulher trans e morar em uma cidade no interior de Goiás?

Eu vivo muito bem. Tenho minha família perto. Prezo muito minha família. Isso foi o que me fez permanecer onde nasci e construir minha vida. Quando olho pra trás e vejo tudo que passou e vejo onde estou e tudo que conquistei, até me assusto. Nunca imaginei me tornar uma militante ativista dos direitos da letra T. Estou muito feliz de fazer o que faço hoje. Sou reconhecida por isso. É gratificante. Viver numa sociedade sendo ela qualquer uma, sendo uma mulher trans, não é fácil. É uma construção lenta e difícil. Há de se conquistar o espaço e mostrar pra todos que não somos pessoas doentes, não somos aberrações. Somos pessoas normais. Seres humanos tentando viver a vida da melhor forma possível. Querendo ser feliz. Ao decidir ficar onde nasci e construir minha vida, eu sabia que seria um luta, mas estou aqui vivendo essa luta todos os dias. Eu imagino que se tivesse ido embora talvez o tempo que gastaria pra me impor e conquistar um espaço teria sido menor. Mas hoje não mudaria nada. Deixaria ser como foi. Me fez crescer e acredito que mudei a realidade e a cara da educação aqui na minha cidade.

- Danye, atualmente qual é o seu maior sonho hoje?

Acho que é lugar comum dizer que quero ser feliz, pois isso todo mundo quer. Meu sonho é que todas as pessoas se aceitem como elas são. Que haja uma boa convivência no mundo. Que haja paz. Que as pessoas valorizem umas às outras pelo que elas são por dentro e não por aparências ou interesses. Que as pessoas vivenciem o amor, inclusive eu. Risos.

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