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Pessoas trans formam grupo “Transbatukada” para arte e ativismo em Salvador


Por Neto Lucon


Durante o show de MC Linn da Quebrada na comemoração dos 10 anos do CUS (Grupo de pesquisa em cultura e sexualidade), no dia 20 de maio, na Praça Tereza Batista, no pelourinho em Salvador, um grupo de instrumentistas trans fez uma participação muito especial e chamou atenção para o projeto artevista – que mistura arte e ativismo. Trata-se do Transbatukada.

Formado por instrumentistas trans – e aberto a novos integrantes! - o grupo marca a presença em shows, performances e manifestações sobre a população trans e LGB e das mortes por transfobia no Brasil. Eles manifestaram, por exemplo, em repúdio ao assassinato de Thadeu Nascimento, o Têu, homem trans de 24 anos que foi brutalmente assassinado no dia 5 deste mês em Salvador.

“A Transbatukada existe porque nós resistimos. Estamos conseguindo dar voz às nossas existências através da música, levando conhecimento e conscientização a respeito das identidades de gênero. Estamos denunciando as transfobias, violências e desigualdades que sofremos, ao passo que nos empoderamos nesse processo”, declara o músico e integrante Bruno Santana, homem trans, ao NLUCON.

Bruno já teve contato com alguns instrumentos percussivos por conta da capoeira, como o berimbau, pandeiro e atabaque, mas é a primeira vez que que recebe aulas de percussão. Para ele, é uma experiência de troca muito rica. Outro integrante é o homem trans Vérciah, que é cantor, compositor e entrou no grupo para aprender a arte da percussão. Ele escreveu a música “Direito ao Respeito”, que já entrou para a lista da Transbatukada.

A letra: Ah, como sou tangenciado / Sou trans, sou preto, sou pobre / Excomungado por um sistema escroto / E sua rede Esgoto / Ações, devoções, raios de sanções / Tira a vida, escassez de direitos / Não vou renunciar, quero divino respeito / Eu quero direito, direito ao respeito / Ah, o direito, direito a respeito / À minha vida, direito / À nossa vida, respeito / Eu quero direito, direito ao respeito / Ah, o direito, direito ao respeito.



GRUPO SURGE DA URGÊNCIA POR REPRESENTATIVIDADE

A Transbatukada surgiu após a tentativa de organizar uma manifestação com um grupo de batucadas em repúdio ao assassinato de Leonardo Moura, jovem gay que foi espancado e morto no Rio Vermelho ao sair de um clube. Mas observou-se resistência e debates sobre a necessidade de apoiar a causa. Posteriormente, entendeu-se que a maioria dos grupos é formado por pessoas cisheteros.

O músico e ativista cis Antenor Cardoso, juntamente com a militante e integrante do CUS Carla Freitas, também observou ausência de registro ativista ou musical de batucadas que trouxesse para o debate as vivências trans. Foi então que eles lançaram a proposta de compor uma batucada trans, cuja premissa é a demanda real por representatividade, resistência e a transformação de preconceitos e tabus por meio da arte. Ela foi bem aceita.

No dia 4 de fevereiro deste ano, ocorreu o primeiro encontro do grupo, com a presença majoritária de homens trans. “Esse movimento tem sido muito importante para dar visibilidade as nossas demandas e ao mesmo tempo trazer formação profissional. Tem sido uma parceria riquíssima, tanto para nosso professor que está tendo a oportunidade de aprender e se desconstruir com a transgeneridade quanto para nós, que estamos aprendendo arte através dela”, afirma Bruno.

No texto que divulga a iniciativa, o grupo destaca que o maior desafio é garantir o processo autoral e que a gestão dessa iniciativa possa ser integralmente do protagonismo político da população trans. "É possibilitar, além de um espaço onde essas pessoas possam construir suas potencialidades musicais através de suas demandas específicas, é colaborar com um processo de fortalecimento da rede afetiva, de apoio e cuidado de si entre o grupo, pensando na potencialidade emancipadora que a música pode contribuir para essas subjetividades".



ENSAIOS ABERTOS

Os ensaios ocorrem no passeio público, aos sábados, às 14h, com os instrumentos do professor. “Convidamos todas as pessoas trans, travestis e não-binários, porém atualmente temos seis homens trans compondo. Algumas mulheres trans disseram que iriam, mas ainda não foram. Muitas ainda acham que batucada é coisa para homem. Então também queremos desconstruir essa ideia nas meninas”, diz Bruno.

Ele é aberto para todas as pessoas trans, sendo que as pessoas cis aliadas também podem se aproximar do movimento para colaborar de diversas maneiras.

Bruno afirma que, enquanto militante, vê na TransBatukada uma grande portência artística e política. Afinal toca as pessoas com amor, empatia e que, ao denunciar o extermínio diário de pessoas trans, faz com que a sociedade perceba que vidas trans importam. “Tem gente que não vai parar para ouvir o que uma pessoa trans tem a dizer pelo simples fato dela ser trans. Mas muita gente está parando para ouvir a TransBatukada. Vejo na música uma ponte capaz de unir as pessoas”.

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