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Adotada na infância, mulher trans Amally Remor Mossi realiza sonho de ser mãe de quatro irmãos


Por Neto Lucon

Quando era criança, se alguém perguntasse para Amally Remor Mossi qual era o seu maior sonho, ela responderia sem pestanejar: “ser mãe”. Ele era o primeiro de uma extensa lista, mesmo num país transfóbico em que tal possibilidade nunca é colocada para uma mulher trans. Parecia que ela estava prevendo o que a vida preparava no futuro.

Aos 29 anos, depois de muitas barreiras, preconceitos, demonstração de amor e responsabilidade, ela conseguiu realizar o sonho. Em Veranopolis, RS, ela é mãe adotiva de quatro crianças – todos irmãos - Maria Vitória (1 mês e 21 dias), Samuel (1 ano e 8 meses), Ueslei (11 anos) e Ruan (12anos), que entraram em sua vida como prova de acolhimento.

Eles foram adotados depois que o Conselho Tutelar de São Gabriel, no Rio Grande do Sul, fez uma visita e perguntou se Amally e o marido Mateus não queriam acolher os sobrinhos dele. A cunhada era usuária de drogas e negligenciava a educação das crianças. Caso não aceitassem, eles iriam para um abrigo. Enquanto o marido ficou preocupado com a responsabilidade, Amally passou a chorar de alegria.

Eles ficaram um ano com a guarda provisória dos dois mais velhos, outro ano com a definitiva até entrarem com o processo de adoção. “O mais lindo é que nunca pedi para eles me chamarem de mãe. Surgiu naturalmente. Um dia, o Ueslei disse: ‘É legal, porque nós precisávamos de uma mamãe e um papai, e vocês precisavam de filhos, que lindo’. Foi um encontro de almas”.

Posteriormente, ficaram sabendo que Samuel e Vitória, irmãos de Ueslei e Ruan, também precisavam ser acolhidos. O juiz entendeu que os irmãos deveriam ficar juntos e mais uma vez deferiu a guarda. Porém, neste caso, foi tudo muito rápido e o casal não tinha sequer se preparado para receber as crianças. Eles foram avisados às 8h da manhã e às 17h30 do mesmo dia as crianças estavam em casa. Amally conta que bateu o desespero, mas que em nenhum momento pensou eu não acolher.

“Na mesma hora pedi ajuda a amigas e mães do projeto Mudança, pois não tinha nada de bebê, berço, fralda, leite, nada. Graças a Deus surgiram pessoas que souberam da história e aí fizeram uma campanha. Em menos de 24h, já tínhamos tudo. Ganhamos tanta coisa que hoje doamos para as mães do projeto que precisam”, declara.

Mateus, Samuel, Amally e Maria Vitória

Doações possibilitaram que acolhimento fosse feito com suporte

MÃE TAMBÉM É FILHA ADOTIVA

Natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, Amally era a filha caçula de nove irmãos, todos dados para a adoção. A mãe biológica era usuária de drogas e em um dos seus surtos a jogou no lixo. Foi acolhida por uma vizinha, que cuidou dela por um tempo e que tempos depois a indicou para Ivanice Remor Mossi. Tratava-se de uma mulher cis que não conseguia engravidar há anos e que a acolheu. Foi sua mãe adotiva.

Desde criança, se identificava com o gênero feminino e não gostava de nada que era atribuído ao masculino. Tanto que o primeiro presente que pediu para a mãe foi uma boneca da Xuxa. Os pais não sabiam o que fazer com aquela criança “tão diferente”. Chegaram a levá-la para a igreja, mas tiveram a sorte de levá-la também a uma psicóloga, a doutora Mery Thomaseto, que logo explicou que poderia se tratar do caso de uma criança trans. 

A mãe procurou aprender muito sobre o assunto e o maior medo era que ela sofresse preconceito. Amally recorda que ela sempre a orientou estudar para ter um futuro brilhante e realizar os seus sonhos. E que sempre disse que, por meio de uma carreira e respeito aos outros, as outras pessoas também a respeitariam. “Sou grata até hoje pelo que ela me disse”.

Já o pai parou de falar com ela por anos e eles só voltaram a se falar quando ela completou 26 anos. Ela procura não o julgar e diz que sabe que ele foi criado em um ambiente extremamente machista em uma fazenda. “Quando voltamos, falei que o meu amor por ele é tão grande, que eu o amava por mim e por ele. Hoje, ele tem uma paixão absurda pelos meus filhos e ele consegue ver a mulher que sempre fui”.

SER UMA MULHER TRANS NEGRA

Na escola, Amally sofreu muito. Não especificamente por ser trans, mas por ser negra. “Eu era a única criança negra estudando em uma escola particular em uma cidade do interior, colonizada por italianos. Meus colegas me chamavam de macaca, me jogavam banana no recreio, era terrível. O que me fazia aguentar eram as minhas professoras, que me davam força para vencer na vida e retribuir aos meus pais tudo o que eles haviam me dado”.

Outro episódio que a fez ter um grande trauma foi o abuso sexual que sofreu dos 8 aos 10 anos de uma pessoa próxima da família. Amally conta que criou tanto repúdio ao sexo que só conseguiu se relacionar com alguém outras três vezes: em um namoro de seis anos, cujo namorado morreu um mês antes do casamento por conta de um tumor, um namoro de seis meses e em uma relação de quatro anos.

A transfobia bateu em sua porta, mas ela sempre deixou muito bem explicado que nunca tentou ser mulher, ela É uma mulher. Ainda assim, a soma de várias opressões vividas e os discursos que escutava de colegas de escola quase a fizeram desistir de tudo. “Justamente por ser transgênera, negra, já me fizeram fraquejar, pensar no pior, até mesmo tentar suicídio. Mal sabiam meus ‘colegas’ o que eles estavam me fazendo”.

Na maré de preconceitos, a dança foi uma válvula de escape.

Amally dançando com Anitta
Com as crianças do projeto social MuDANÇA

TRANSFORMAÇÃO POR MEIO DA DANÇA

Amally diz que sempre amou a arte da dança, porque sentia que as pessoas julgavam apenas o seu talento – não o fato de ser mulher trans e negra. Aos 15 anos, foi morar em Porto Alegre em busca de dançar profissionalmente. Estudou danças urbanas, fez faculdade de Licenciatura em Dança na Ulbra/Canoas, foi dançar em São Paulo e também no Rio de Janeiro.

“Dancei nos 25 anos do Criança Esperança, no Show da Xuxa no Morumbi, ministrei aulas no Uruguai, Paraguai, Chile, Argentina e Peru. Fiz parte de um grupo chamado Boy’z Up, do Rio, em que os bailarinos hoje dançam com a Anitta, Ludmilla e Valesca Popozuda. Atualmente coreografei a dupla sertaneja Theo e Fialho”, menciona as várias conquistas da carreira.

“Eu tive uma carreira linda até ocorrer a morte do meu primeiro namorado. Perdi o chão, parei de dançar, entrei em depressão. Após um tempo, resolvi dar uma chance ao amor e a mim mesma e acabei conhecendo o meu atual marido. Ele ajudou a me reerguer e a colocar em prática o projeto social”, conta.

A coreógrafa montou a companhia de dança afro chamada NegraEssencia, também tem a escola de dança chamada MDA Centro de Artes e o projeto social voluntário chamado Mudança, que dá aulas de dança, alimentos e roupas para crianças sujeitas à vulnerabilidade social. Hoje, o projeto atende cerca de 900 jovens em Veranópolis, que recebem aulas ministradas por Amally e sobrevive por meio de doações.

“Devemos ser e fazer a mudança que queremos no mundo”, diz ela, que também coreografa a valsa dos noivos, de 15 anos, ministra palestras e workshops. Os interessados devem procurá-la no Instagram ou Facebook

SOU MÃE

Para Amally, ser mãe é dar e receber amor, um aprendizado diário, voltar a ser criança, assistir desenho, fazer brincadeiras, ter instinto protetor. Também é ser chata, brava e educar sobre comida, brincadeiras e outros temas.

“Ser mãe é a melhor coisa do mundo. Receber o mimo dos filhos, ver as conquistas deles, escutar a frase ‘mãe, eu te amo’ e até mesmo trocar uma fralda (risos) é compreender tudo o que minha mãe sentia e dizia”, afirma.

Maria Vitória chegou antes dos dois meses no colo da mãe
"Ser mãe é a melhor coisa do mundo"

O que ela e o marido esperam ensinar para os filhos é a importância do respeito, do amor ao próximo, da determinação, da valorização da família, da educação, da fé, do trabalho e da busca por tornar realidade os sonhos. “Eles podem e serão o que quiserem ser, e sempre terão o nosso amor e total apoio”.

Dizendo ter amor incondicional por todos eles, ela conta que Ueslei é seu parceiro, dá aulas e vive grudado nela. Ruan é o seu grande protetor e vive sentindo ciúmes. Samuel é o responsável para fazê-la voltar a ser criança. E Maria Vitória é a sua princesa.

Deste aprendizado, ela diz que aprendeu a ser mais paciente, mais responsável e a dormir pouco. Como Maria Vitória tem menos de dois meses, ela ainda tem cólicas e chora de madrugada. “É tipo prova de resistência do BBB, mas no dia seguinte damos muitas risadas com nossas caras de zumbi (risos)”. Por fim, diz que aprendeu o principal: o significado das palavras Amor, Família e Para Sempre.

AS NOVAS ADVERSIDADES

Há algumas semanas, Amally estava com o marido e os filhos num ponto de ônibus, quando um homem chegou até ela e perguntou quanto era o programa. Em outro momento, recebeu a pergunta se ela não tinha medo que os filhos tornassem gays, já que ela é uma mulher trans.

“Infelizmente é essa imagem que a sociedade tem de nós, transgêneras. Neste segundo caso, respondi que meu medo é que eles sigam caminhos errados ou que sejam políticos corruptos”, minimiza.

Ela defende que o preconceito é um sentimento de pessoas pequenas, sem informação e que levam a vida de maneira medíocre. “Acredito que quando o mundo aprender a amar mais, respeitar o próximo e compreender que todos somos diferentes e que essa é a grande maravilha do mundo, aí sim viveremos num mundo melhor, com mais dignidade, amor, respeito e oportunidades”, finaliza.

Um comentário

CloneGamer disse...


<3 Melhor Pessoa, Te Amo Profe <3

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