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Doc. “À Luz do Dia” aborda peleja da população trans para entrar no mercado formal de trabalho

Priscilla afirma que apanhou da mãe e foi expulsa da escola por ser travesti

Por Neto Lucon

Em uma seletiva de emprego, a ativista travesti Guilhermina Urze passou pelas três etapas para ser funcionária de uma loja de departamentos. Mas quando foi entregar os seus documentos – que ainda continham o nome de registro masculino – a diretora da empresa se chocou. Mudou o discurso e disse que a vaga já estava preenchida.

Este é um dos exemplos de transfobia, muitas vezes velada, que assola a população trans no mercado formal de trabalho. E que estão retratados no documentário À Luz do Dia, dirigido por Elaine Coutrin.

Gravada em São Paulo, a obra traz depoimentos poderosos de travestis e mulheres transexuais, que afirmam conhecer a exclusão desde cedo. E de como essa maratona de preconceitos da infância à vida adulta, da vida familiar à social, acaba acarretando falta de oportunidade, interferindo na vida profissional e fazendo com que muitas sejam marginalizadas.

A dona de casa Priscila Valentina contou, por exemplo, que foi agredida pela mãe logo na infância quando fofocaram que ela seria LGBT. “Até hoje eu carrego as cicatrizes no rosto e na cabeça”. A ativista Guilhermina diz que revelou que é travesti só aos 18 anos porque tinha receio de que os pais a colocarem para fora de casa. Já a atendente Rafaela Neves afirma que foi uma criança muito sofrida e fechada, e que já pensou em suicídio.

Rafaela Neves: infância fechada e tentativa de suicídio

"Muita gente não sabe porque tem aquele preconceito, inclusive a minha mãe não sabe porque tem preconceito. Toda família acha bonitinho a outra família porque tem uma travesti, quando tem amizade, mas quando é o seu filho homem trans ou sua filha travesti tudo muda. Ou você abraça ou você empurra. Eu falo da minha mãe porque sinto muita falta ", diz Priscilla.

PRÉ-CONCEITOS E EXCLUSÕES


A vida escolar é outro espaço em que a transfobia, a exclusão e o abandono também aparecem. A auxiliar de limpeza Alice Rocha disse que já teve que sair de uma escola por causa do preconceito e da falta de apoio. E que mesmo entre os profissionais não há acolhimento à população trans. “Fui conversar com a diretora e ela disse: Você vem ‘assim’ para a escolar e quer que eu faça o que?”.

Priscilla conta que chegou ser agredida por 15 colegas, mas que a diretora a expulsou porque se defendeu. “Fiquei sem estudar todos esses anos”. De acordo com a professora Laysa Carolina Machado a falta de discussão sobre gênero nas escolas é um dos pilares que sustenta a transfobia.

A professora afirma também que, busca por um emprego, há muita diferença entre ser uma profissional cis e uma profissional trans. “São mundos muito diferentes. Se você for homem cis e participar de uma entrevista de emprego você vai ser beneficiado pelo patriarcado, por um machismo, que diz: ‘Que bom, nós temos espaço, temos lugar no mercado, que bom que você é jovem, que bom que você nos serve’”. Já quando você é trans as portas geralmente estão fechadas.

Guilhermina diz que ao mesmo tempo em que as portas do mercado de trabalho estão fechadas, a socidade ainda empurra a população trans para a área da beleza, estética e para atividades relacionadas ao sexo. "Fui fazer uma reunião com um empresário e, depois, recebi uma mensagem no Facebook se eu não queria sair com ele e quanto eu cobraria para sair com ele. Ou seja, somos muito hipersexualidade e é como se eu não pudesse exercer qualquer função que não seja sexo".

Amara revela que escolas precisam de coragem para contratar uma professora travesti

Amara Moira, a escritora, doutoranda e profissional do sexo, aponta que sua trajetória profissional antes e depois da transição de gênero reflete a transfobia. Aos 21, quando ainda era lida socialmente como um homem, ela foi contratada logo no primeiro ano de graduação como professora de uma escola. Porém, depois dos 29, quando revelou que é uma travesti não há a mesma aceitabilidade - mesmo na pós-graduação. “Não há um colégio que tenha coragem para contratar uma professora trans”, lamentou.

INICIATIVAS

Diante das portas fechadas e do preconceito ainda latente, algumas iniciativas surgem e visam empregar ou auxiliar a capacitação de pessoas trans no mercado formal de trabalho. Dentre elas, está o programa Transcidadania, de São Paulo, que desde 2015 oferece uma bolsa para que travestis, mulheres transexuais e homens trans voltem a estudar.


As oportunidades de emprego aparecem em iniciativas como a da SP Escola de Teatro, que oferece 10% das vagas profissionais para travestis e transexuais. O Carrefour, conhecido como uma das primeiras empresas a divulgar que contrata profissionais trans sem qualquer preconceito. E a Hewlett Packard Enterprise, que também reconhece os talentos trans.

"Não podemos perder os talentos que querem trabalhar com a gente. No momento em que a gente reforça alguns vieses no processo seletivo a gente com certeza está perdendo a oportunidade de conhecer talentos incríveis. Uma empresa que preconiza inovação, não pode pensar em construir grupos heterogêneos. Se em uma mesa todo mundo está pensando igual, é sinal de que ninguém está pensando", diz Esabela Cruz, da Hewlett Packard.

Um dos resultados dessas iniciativas é o da Rafaela, que teve oportunidade de trabalhar no Carrefour e tem crescido como profissional ao longo do tempo. Ela já trabalhou como operadora de caixa por dois meses, foi promovida pra fiscal de loja e que trabalha atualmente na digital. “Já passei por três etapas e ainda fiz um curso de confeitaria aqui dentro”, diz. 

Que as oportunidades sejam dadas!

Abaixo, o documentário “À Luz do Dia”:


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