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Erika Hilton reflete sobre ser travesti negra no Brasil: “Preconceitos ainda mais perversos”

Erika Hilton por Julia Rodrigues

POR NETO LUCON

Erika Hilton é uma militante travesti, negra, putafeminista e estudante de Gerontologia da Universidade Federal de São Carlos. Também foi a primeira travesti a ser candidata a vereadora de Itu, município de São Paulo, no último ano.

A campanha política numa cidade que carrega em sua fachada “É a cidade do Senhor Jesus” provocou os conservadores, abraçou as pessoas invisibilizadas e provocou debate. Tanto que denuncia ter sofrido um golpe às vésperas da eleição.

Preconceito, adversidades e muita resistência fazem parte de sua trajetória. Desde a infância, a feminilidade causava desconforto e era alvo de bullying. Foi chamada de Lacraia, foi catapultada para as ruas aos 14 e viu na prostituição a única possibilidade de subsistência.

Passados alguns anos, retomou os estudos, se aliou aos movimentos das travestis, do movimento negro e das profissionais do sexo. Transformou as marcas que carregava em bandeira de luta. E até passou a ver Lacraia (1977-2011) como um símbolo de resistência travesti e negra. O NLUCON conversou com ela sobre essas e outras questões: 

- Ontem (dia 25) foi o dia da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha. De qual maneira essa também dialoga com a luta das mulheres trans e travestis negras?

Esse dia e a marcha que ocorreu em São Paulo trazem consigo, talvez de forma indireta, uma marcha contra a transfobia. Sabemos que a mulher negra cis sofre muito por ser mulher e negra neste país que carrega o racismo na história, que a objetifica e que a coloca como inferior. E nós, que somos mulheres travestis e transexuais negras, sofremos esse mesmo ódio social por sermos negras, latino-americanas e caribenhas e também a transfobia, que é outro ódio específico à nossa população. Ou seja, é duplamente cruel, ainda mais violento e terrível. E, neste macro social, ainda tentam o tempo todo deslegitimar a nossa mulheridade. É por isso que eu acredito nessa luta interseccional, em que precisamos falar enquanto mulheres pretas, latinhas, caribenhas, cis, travestis, transexuais e trans... Não tem como fazer uma verdadeira revolução se nós abandonarmos qualquer grupo.


- Dizem que o racismo atualmente é mais velado e que a transfobia é descarada. Sente isso no seu cotidiano?

Não sei se o racismo é mais velado. No ambiente universitário, a transfobia e o racismo aparecem quase velados da mesma forma. Mas eles estão lá quando, por exemplo, não conseguimos acessar da mesma maneira que outras pessoas cis e brancas. Quando saio desse ambiente e do convívio de militante, às vezes sinto o racismo até mais cruel e descarado. Temos um histórico de 388 anos de escravidão, de um movimento de 130 anos lutando por reparação histórica, depois de uma falsa abolição. Ainda vemos o genocídio de jovens negros mortos nas periferias, ainda sentimos quando entramos num shopping classudo e as pessoas nos olham como se não devêssemos estar ali. Ainda sentimos a representação do negro como serviçal, como menos capaz, com menos representatividade nos espaços de militância, de arte e televisão. Então não é velado, está naturalizado. Assim como a transfobia está. Há o mesmo genocídio de travestis, há o mesmo requinte de ódio, de deslegitimação. Porque essa sociedade foi feita para matar e diminuir pessoas. Talvez o pensamento de que o racismo aparece menos deve-se porque o movimento negro é a matriz da revolução social, dos movimentos de luta. Depois é que vieram os outros. A transfobia vem se tornando algo temático, está na novela, então as pessoas querem mostrar que são politicamente corretas, mas acabam sendo hipócritas e preconceituosas.

- Conversando com o Leonardo Peçanha, que é homem trans e negro, ele disse que depois que as pessoas passaram a lê-lo enquanto o homem que é, ele deixou de ser considerado objeto para ser considerado uma ameaça. Sente que isso ocorreu depois que deixou de ser lida como homem e passou a ser lida enquanto mulher?

Sabemos que há pessoas que atravessam de calçada quando vê um homem negro a noite, porque eles ainda são retratados como vilões e assassinos. Quando fazia “cisplay”, ou seja, quando tentavam me colocar num comportamento social atribuído ao homem, eu nunca consegui ter esse comportamento que se esperavam. Sendo muito afeminada desde criança e adolescência não sentia que era uma ameaça. Ao contrário. Desde criança sofria a objetificação do corpo como mulher negra, antes mesmo de sentir que meu corpo nesta sociedade estava para ser sexualizado, para trepar, mas nunca para casar. Porque se isso já ocorre com a mulher preta cis, isso ocorre ainda mais forte com a gente. Era isso que eu escutava na prostituição: que nós travestis negras eram as que mais trepavam gostoso, que chupavam gostoso, ao mesmo tempo em que empurravam esse preconceito de que não servíamos para ser amadas, de que nossa solidão era duplamente pior, com possibilidades mais fechadas de afetividade saudável.

- Mas como a transfobia apaga a mulheridade da travesti e da mulher transexual, essa referência de que é um “homem negro vestido de mulher” não acaba levando a essa ameaça de agressora?

De modo geral, as travestis e transexuais representam um perigo para a sociedade, quando falamos em estrutura de família. A sociedade não quer essas subversivas do gênero que “optam por mudar o gênero, mudar o sexo”. Então não somos bem-vindas a esse mundo. Além disso, temos os estigma e paradigmas de que ser travesti é marginal, a que rouba, a que dá escândalo. Agora estamos falando de uma mulher trans e travesti negra, cuja sociedade não nos respeita enquanto mulher e que nessa visão somos homens negros vestidos de mulher. E qual é a leitura? Somos consideradas um risco maior e elas sentem medo de forma mais agravante. O que quero dizer é que a leitura do que é ser travesti é extremamente cruel, mas que a leitura de ser uma travesti preta num país racista e transfóbico que endossa esse racismo e transfobia diariamente é ainda mais perverso.

Mel Gonçalves, da Banda Uó, e Erika Hilton na Caminhada Pela Paz

- Num momento em que nem mesmo nossos ídolos querem levantar bandeira, acha que é importante se firmar, ser referida e demonstrar orgulho por ser uma travesti negra?

Ser travesti é como eu me reconheço, como me autoidentifico. Ser colocada como travesti é um ato político. A figura da travesti no senso comum está associada a tudo de pior do mundo da transgeneridade. A palavra é estigmatizada, remete ao sujo, ao homem que se traveste, ao marginal. Mas quando vou para as ruas aos 14 anos, não conheço a palavra “transexual”. Só conheço as travestis que estão na rua e que se identificam assim. Então, se colocar como travesti é necessário para o momento de construção de políticas públicas, de empoderamento e de união com outras. Falar que esse é meu gênero, essa é minha sexualidade, eu sou negra é fundamental. O corpo sem falar nada já fala. O corpo negro, o corpo trans, o corpo gordo é político por si só. Mas num país de retrocesso, de apagamento de identidades, de massacres às ditas minorias, entre aspas, porque só somos minorias nos direitos, porque quando se trata de matar e morrer somos a maioria, falar sobre essas especificidades é ter senso de responsabilidade. Quanto ao Ney Matogrosso e essa polêmica que girou em torno da declaração de que é humano e "gay é o caralho", não vou falar por pura preguiça mesmo (risos).

- "Eu era tão higienizada,"contida" e nem assim a sociedade me aceitava ou legitimava". Essa é uma postagem sua no Facebook sobre uma foto em que você aparece com os cabelos lisos e um filtro que deixou a sua pele mais clara. De qual maneira a militância e o empoderamento surgiram em sua vida?

Essa postagem foi uma lembrança de Facebook e que me fez ver que naquele momento eu estava condicionada a isso. Estava passando por um processo de me embranquecer, de se cisgenerizar, de querer ser a mulher cis branca e com o cabelo liso. E nunca, nem mesmo naquele momento em que eu poderia ser lida como padrão, eu fui respeitada e legitimada. Sempre fui o traveco, a negrinha e todos os estigmas que temos na linguagem. Com o tempo, a gente vai se empoderando e se desconstruindo. Como saí de casa, saí da escola e só depois retornei por meio do EJA. É neste momento que comecei a acessar algumas militantes trans, que não eram negras, porque há poucas travestis negras nesse boom. Conheço várias incríveis, como a Daniela (Andrade), Angela(Lopes), Neon (Cunha). E várias que são referências péssimas.

- Então, a sua militância começou pela militância trans e não pelo movimento negro?

A primeira desconstrução é descobrir que sou uma mulher de peito e pau. Uma mulher com garra, que é jogada na rua aos 14 anos, que sabe o que é sobrevivência, resiliência e que sabe que o cistema quer me matar. Só que começo a perceber que há outra violência que sofro. Olho para a minha família, para mim, e percebo que sofri racismo o tempo inteiro e a minha vida inteira. Eu já vim ao mundo sendo identificada enquanto preta, já saí do útero preta e o racismo veio na mão do médico. Bem, comecei a buscar referências e fui para o meu primeiro ato político, que foi o cabelo. O cabelo que a mídia, a revista e a professora da escola dizem que não é bonito e que precisamos alisar. 

- E como foi essa transição capilar? 

Uma mulher cis fazer transição capilar é difícil, mas ela não deixa de ser mulher por estar com o cabelo curto. Mas a travesti negra nesta transição capilar é um processo extremamente doloroso, pois nossa identidade é colocada em xeque. Foi uma tortura, um sofrimento, passei por uma disforia fortíssima. Tinha o cabelo no meio das costas, comecei a colocar transas, mas o cabelo “dredou” e eu precisei fazer um corte curtinho, mas não careca. Passei a entender e a falar que cabelo não designa sexualidade, nem gênero, que é um peso do patriarcado, da cultura eurocentrada. Consegui fazer essa transição capilar como ato político e de empoderamento estético.

Erika Hilton por Gabriel Lindenbach

- Quando você era criança, tinha alguma referência de mulher trans negra?

Quando eu era pequena, sempre fui muito afeminada, espalhafatosa e muito dada. E os apelidos que carreguei foram Vera Verão e Lacraia. Eram as únicas referências que tinha além do homem cisgênero, embora a Vera era uma personagem. Mas essas referências só me serviram de humilhação, de cantarem “vai Lacraia”, de dizerem “Epa”, de me colocaram como caricata e chacota. Quando me ridicularizavam olhando para essas figuras, eu também achava elas péssimas. Porque é isso que o sistema faz: tira as nossas referências, nos coloca umas contra as outras e nos faz não avançar. Depois, estudando e me empoderando mais, vejo que a Lacraia poderia ser uma referência positiva, de uma travesti que estava sobrevivendo ao racismo e a transfobia dentro de um espaço midiático.

- Acha que está tendo mais espaço para a população trans e negra mostrar a que veio? As Bahias e a Cozinha Mineira, Mc Xuxu, Candy Mel... Essas pessoas representam a negritude trans?

Essas figuras representam, sim... Também a Linn da quebrada, Aretha Sadik, cada uma no seu espaço. Entendo que que este é um processo natural, que este é um caminho e que ele já está havendo. Quando eu saio no jornal, quando a Linn sai, quando estamos no espaço de maior visibilidade, que não no do nicho, começamos a abrir o leque de possibilidade. A representatividade tem aumentado na música, na literatura e na arte em geral. Mas ainda é pouco. Quem são as pessoas que acessam essas músicas, que veem esses programas, que acessam esse conteúdo? Qual é o público que bebe disso? Se a gente for pensar em público, também é problemático. Não é para as manas que estão nas ruas, para aquelas que não vão acessar no Youtube, para aquelas que estão lá no morro, muitas vezes estamos falando com a branquitude. Ao mesmo tempo, sinto que precisamos mostrar muito mais que as artistas brancas. Precisamos provar mais, correr mais atrás, brigar mais, gritar mais, que o tempo é menor. E conquistar essas oportunidades, porque elas não são dadas.

- Você concorreu ao cargo de vereadora da cidade de Itu. Como sente que sua candidatura e de outras travestis e mulheres trans repercutiram?

Repercutiu muito. Fui a primeira travesti negra dessa cidade, que tem na entrada a frase “É a cidade do senhor Jesus”, a se candidatar ao cargo. Só por isso já foi um afronte. Diziam: “Como essa travesti que fazia ponto ali se sente no direito de concorrer ao cargo no legislativo? Como ela se acha capaz de estar na Câmara Municipal?”. Foi assustador. Na campanha, eu não tinha direito, então comecei a ir para as ruas. Precisava dos movimentos sociais, das putas, das travestis, do povo negro, dos moradores de rua, das mães... E esses corpos têm família, isso começou a se ampliar e as pessoas a me respeitar. Tive um grande apoio, porém sofri um golpe. Na sexta-feira, a minha candidatura foi indeferida. Sobre quais justificativas, não temos respostas. Até agora rola um processo. Ele já passou por várias instâncias, o que não é normal nas campanhas eleitorais. Estamos esperando o que a justiça vai explicar. Mas de qualquer forma a candidatura foi representativa, incomodamos a polícia, a saúde e os conservadores. Mostramos que travesti tem poder e resistência, e que depois de tudo o que já passamos não vamos desistir.

- Em sua opinião, qual é o principal direito que a população trans deve ir atrás?

Tem tantos direitos a conquistar, estamos tão esquecidas pelo poder público, pela religião e pela família que é muito difícil falar sobre apenas um. Nesse primeiro momento e nessa conjuntura política atual, acho que temos que facilitar a retificação de nome e sexo da documentação. Exigir que o judiciário nos veja, que ter nome civil é direito, que ter sexo de acordo com o gênero na documentação é direito, e não um favor. Isso traz, ainda que de maneira pequena, algum alívio e algum avanço. Digo isso porque nome social, que é divulgado como uma grande conquista, é enganação. Ele não resolve e parece nome artístico, fantasioso e que ninguém está preparado. Quando você carrega um documento com dois nomes, ninguém sabe lidar, ninguém é preparado e tudo se transforma numa grande confusão e bagunça. As pessoas cisgêneras não tem nome social, elas têm nome. Nós precisamos ter nome. Talvez seja o primeiro passo para depois irmos atrás de outros, que são muitos.

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