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Jovem trans de 17 anos relata o que mudou em sua vida após 1 ano de hormonioterapia


POR NETO LUCON

O estudante Matheus Raphael da Silva Gomes, de 17 anos, comemorou no dia 10 de julho um ano de hormonioterapia, nas redes sociais. Desde então, ele afirma que passou por grandes mudanças e que elas não se limitam apenas na questão física.

(Importante: essa história fala sobre a experiência individual do Matheus. Ela não implica que vale para todos os homens trans, nem que toda pessoa trans deseja, pode ou precisa passar pelo tratamento hormonal, ok?).

“Nos primeiros meses, o mais notável foi a voz mudando, os pelos engrossando e crescendo mais e a monstruação parou. Depois do 5º mês notei a mudança no corpo e no rosto. Minha barba desde o começo está crescendo, pois usei minoxidil um mês antes de começar a hormonização”, afirma ele.

Matheus afirma que seu humor e psicológico também mudaram. Ele alega que ficou um pouco mais agitado, que chora com menor frequência e que tem conseguido se socializar melhor. “Está sendo libertador poder ser visto da forma como me vejo pelos outros, ser respeitado pelo que sou. Antes eu me sentia inseguro e não conseguia encarar as pessoas, agora não mais”, declarou.

ME ENTENDER HOMEM TRANS FOI A ILUMINAÇÃO

Ao relembrar da infância e início da adolescência, Matheus afirma que sempre demonstrou se identificar com o gênero masculino. Nas brincadeiras com as amigas, ele sempre era o pai, o filho e o irmão. Na pré-adolescência, ele criava perfis fakes nas redes sociais e mal usava o seu próprio perfil: “Ali eu poderia ser eu mesmo”.

Matheus no final de 2015 / Matheus após sete dias de aplicação de testosterona

Mas ao mesmo tempo em que sua identidade de gênero gritava, ele não sabia da possibilidade de ser um homem trans. Tudo mudou quando descobriu que uma pessoa que conhecia de um grupo de anime era uma mulher trans e que passava pela transição. Ela o indicou para o grupo Transgêneros e Hormônios, no Facebook, e ele começou a entender o que sentia.

“Até então eu me entendia como lésbica bofinho, né, mesmo sem poder me vestir da forma como queria. Mas é aquela história: era o mais perto de ‘caber’ ao que eu sentia, mas ainda não era aquilo. No grupo, comecei a ver as histórias e transições dos meninos e me identificar”, declarou.

De acordo com ele, entender-se homem trans foi uma das experiências que mais importantes da sua vida. “Foi a iluminação. Comecei a me conhecer realmente, então a mostrar quem realmente sou para o mundo”. Ele conta que se livrou de alguns problemas psicológicos, da introversão e que consegue cada vez mais conversar e se expressar, sem ter vergonha, sem se sentir um estranho.

Matheus começou o processo de transição no final de 2015. Antes, ele falou que era homem trans para os amigos e para a mãe – a quem ele diz que, se não fosse pelo apoio dela, não teria chegado até aqui. Depois, cortou o cabelo, começou a usar as roupas que sentia mais confortável e, juntamente com a mãe, foi atrás de uma psicóloga e da transição hormonal, que começou no dia 10 de julho de 2016.

HOMEM TRANS NA SOCIEDADE

Embora o Brasil seja um dos países que mais matam a população trans no mundo, Matheus afirma que não sofreu transfobia grave. Segundo ele, os episódios que surgiram foram por falta de conhecimento e que conseguiu resolver com diálogo. “Um professor, por exemplo, ficou revoltado por eu usar o banheiro masculino do colégio. Mas a própria diretora resolveu e eu não precisei esquentar a cabeça”, minimiza.


Ele diz que durante muito tempo sentia os olhares de curiosidade, maldade e nojo, mas que atualmente é encarado como qualquer outra pessoa. “Mas essa é uma questão problemática. É péssimo você só ser respeitado estando dentro da caixinha ‘masculina’ ou ‘feminina’. Qualquer coisa fora disso é vista como de outro mundo. E quem não quer estar na caixinha por opção e quem não está por não ter condições de fazer o tratamento hormonal? Pensar nisso me entristece bastante”, pontua.

A principal mudança que ele sente é a maneira como era tratado quando era lido como mulher e, agora, que é lido como homem. Sobretudo, envolvendo assédio dentro da escola. “Quando as pessoas me liam como mulher, eu estava numa escola em que os meninos pegavam no peito das meninas sem mais nem menos. Certa vez, pegaram em mim, fiquei muito bravo e dei um soco no braço dele. Ele devolveu e doeu demais. Ficou por isso mesmo. Fora os comentários nojentos de caras na rua que querem ‘apenas elogiar’”.

Matheus afirma que atualmente não sofre assédio. “Muito pelo contrário, eu mal sou olhado, quanto menos tocado ou assediado”. Porém, ele pondera que todo homem trans também corre riscos em uma sociedade transfóbica e machista. “Pessoas más intencionadas que sabem dessa condição faz com que ser homem trans seja um tanto perigoso, como casos de estupros corretivos e violências físicas. Nunca aconteceu comigo, apesar de eu ter medo”, conta.

PRÓXIMOS PASSOS

O jovem revela que antes de se entender enquanto homem trans namorava uma garota cis, que conheceu em 2013. Ela chegou a acompanhar o processo, o apoiou, porém ele acredita que com o tempo deixou de gostar dele da mesma forma que antes. “Acredito que boa parte foi por conta dessa transição. Agora somos apenas amigos”. 

Desde então ele está solteiro, mas tem ficado com algumas pessoas. Matheus conta também passou a se sentir mais a vontade de se relacionar com homens. "Antes eu evitava, mas ainda assim me considerava bi/pan".

Matheus e amigos indo para a Parada do Orgulho LGBT

Está realizado, Matheus? “70% sim, 20% naquela vontade de mamoplastia e outros 10% querendo perder peso”. Cheio de sonhos, o estudante planeja entrar numa faculdade no próximo ano, guardar dinheiro para a cirurgia e também fazer a retificação de nome e gênero pela Defensoria Pública.

Ao fim da conversa, ele deixou uma mensagem para as pessoas que estão se entendendo agora enquanto pessoas trans.

“Vocês são fodas demais por estarem se assumindo e sendo quem realmente são. Até mesmo pros que estão se descobrindo agora. Por mais que seja difícil, não desista, galera. Por mais que o caminho pareça super fechado, tenham forças e abram ele, porque futuramente alguém vai trilhar esse mesmo caminho com mais tranquilidade, porque vocês tornaram isso possível. E assim vamos crescendo e conquistando espaço. Bora todo mundo se ajudar e orientar, nós por nós”.

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