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Maite Schneider sobre representatividade trans: "Empregue-as, contrate-as e as deixem fazer sua potente arte"

Foto: Caio Galucci/ Divulgação/ O Príncipe Desencantado

POR NLUCON


Maite Schneider é atriz e diretora por vocação, estudos e profissão. Quando criança, seus olhos brilhavam pelas aulas de artes, onde conseguia se afastar do eu externo para ser outras personagens no palco. Ao crescer, galgou espaço como militante trans e foi convidada para algumas peças. No palco, reencontrou a paixão e fez outros olhos brilharem. Foi então que ela decidiu mergulhar nos estudos.

A carreira começou em grande estilo em Curitiba, Paraná. Em 2005, viveu uma Maria transexual na peça “JesuspraCristo”, de Alexandre Linhares. Afinal, se era possível que Maria engravidasse do Espírito Santo também era absolutamente possível que uma Maria transexual pudesse engravidar. Foi uma repercussão nacional.

Ao longo dos trabalhos, colecionou papeis diferentes, surpreendentes, ousados e atemporais. Há dois anos, estreou a peça “Escravagina”, em que aborda a questão trans sem tabus e até deixa que a plateia a toque numa tentativa de elucidar e esgotar o assunto. Trabalhou com vários diretores de Curitiba e veio em buscar de novas experiências em São Paulo.

Neste ano, ela surpreendeu a todos ao estrelar o seu primeiro musical e obra infantil: “O Príncipe Desencantado”, de Rodrigo Alfer. Ela encarna dois momentos, mendiga e rainha, indo do lixo ao luxo com maestria, encantando as crianças, adultos e promovendo a visibilidade trans. Sendo assim, Maite mostra cada vez mais que é uma artista talentosa, eclética, corajosa e sobretudo necessária.

Em conversa com o NLUCON, a atriz fala um pouco sobre a carreira, desafios e também revela sua opinião sobre a luta de artistas trans em busca de representatividade. Vale informar que o infantil será encenado neste sábado (22) às 18h e no domingo (23) às 16h no Teatro Viga (Rua Capote Valente, 1323, Pinheiros – ao lado do metrô Sumaré). No dia 29 e 30 será fechada para o público em geral.


O ator Davi Novaes e Maite no musical infantil "O Príncipe Desencantado" / foto: Neto Lucon

- Este é o seu primeiro trabalho voltado ao público infantil e um musical. O que tem recebido de retorno das crianças que foram assistir?

Tem sido incrível e verdadeiramente especial. Estes dias, quando eu contei “meu segredinho” durante o espetáculo, uma criança falou: “Pai, a mendiga era o rei e agora é rainha”. Não me aguentei, tentei segurar, mas caí na risada junto com a outra rainha (Manu Litiiéry). Estas reações naturais das crianças têm sido um grande presente. Vejo sempre elas também perguntando coisas para os pais durante o espetáculo e sempre muito atentas a tudo. Mas também é incrível ver os adultos voltando um pouquinho a serem crianças. Deixando e permitindo este lado lúdico voltar com tudo. Aplaudindo, batendo palmas, rindo, emocionando-se. Lindo de viver!


- Na peça você vive uma mulher em situação de rua que depois de muitos acontecimentos descobrimos ser uma rainha trans. Em sua opinião, qual é a importância dessa personagem em sua carreira?

Minha personagem traz esta discussão da identidade e sua busca durante o espetáculo, e é tratado de maneira muito sensível pelo diretor e autor Rodrigo Alfer. Por um lado, é interessante, pois neste processo comecei a refletir nas pessoas que são invisíveis na nossa sociedade, tais como: garis, guardadores de carro e outras. Pedintes, mendigos, pessoas de vivem nas ruas, bem como travestis e transexuais também são invisíveis no cotidiano da cidade. Criei uma ponte desta invisibilidade de ambas as personagens, para criar mais força ainda no que tange a importância da questão identitária. E que somente podemos ser felizes sabendo quem somos e indo de encontro a este nosso maior tesouro.


- Antes de a peça estrear, você contou que o maior desafio era cantar. Como está se saindo?

Estou “brincando” de cantar, mas levando sempre muito a sério, claro, pois afinal o resto do lindo elenco, canta demais e não posso constrangê-los com meu vocal (risos). Tenho buscado entender melhor minha voz, sua colocação e feito muitos exercícios com frequência. O Rodrigo Alfer passa todos os dias em que nos encontramos, todas as músicas e sempre está muito atento a darmos o melhor de cada um. Mas confesso que estou adorando demais e querendo ainda mais e mais. A água do chuveiro não está mais fugindo de cima de mim quando abro a boca e arrisco no microfone de chuveirinho de banheiro (risos)

- A peça, que fala de uma maneira bastante lúdica e tranquila sobre a população LGBT, enfrenta alguma resistência de os pais levarem as crianças. Por que você acha que isso acontece?

Creio que os pais acham que o espetáculo possa ser panfletário e que queira transformar todo mundo em gay, les ou colorido demais. Os pais pegam o jornal, dicas de sites, revistas e olham a sinopse e devem acreditar nisto que escrevi acima. Mas uma sinopse é sempre fria e sem intencionalidade real do que acontece, não é mesmo? No espetáculo, falamos de todas as possibilidades de ser e estar no mundo. Das interações possíveis e de gostar-se em primeiro lugar, independente quem você seja ou de quem você goste.

Conversei com alguns pais que foram no espetáculo com suas crianças, e até mesmo os mais desencanados e até filhos de pais LGBT , achavam que a peça teria um teor de conduzir um pensamento para uma certa hegemonia “rainbow”, digamos assim. Mas ao assistirem, mudam totalmente a idéia. As crianças que vão amam a Princesa Lets, que é feita lindamente pela atriz Marcela Piccin), e adoram ela pelo jeito rock and roll, mesmo não casando na peça com príncipe nenhum. Tudo pode quando se trata de amor. E este espetáculo é amor no seu estado mais puro e verdadeiro.

Primeira fase da personagem no musical infantil (foto: Caio Galucci)

- Quando você era criança, existia alguma personagem que te trazia algum tipo de referência? Ou a invisibilidade era tamanha que não existiam exemplos?

Não existia não. Tenho 45 anos de idade e realmente não havia esta referência. Acabava me apegando a personagens que mudavam ou tinha algum tipo de mutação: Mulher Maravilha, She Ra e também tinha um desenho que não me recordo o nome, mas que eram dois irmãos que juntavam seus anéis e se transformavam em mutações e coisas muito diferentes (risos). Sonhava com um anel daqueles ou com um pozinho mágico de pirlimpimpim.

Mas escuto muitooo mesmo das pessoas adultas que vão assistir ao espetáculo, algumas várias, até saem chorando e visivelmente tocadas e dão um abraço muuuuuito gostoso, que desejariam ter tido este tipo de arte na infância e agradecendo pelo presente oferecido. É lindo demais de sentir isto. Impagável sentimento de felicidade – por mais personagens que reflitam a diversidade que somos em essência.

- Atualmente, muito tem se falado sobre personagens trans e a questão da representatividade. Muitas vezes, o debate parece girar apenas no direito ou não de uma pessoa cis interpretar uma personagem trans. Você acha que o fato de não vermos com frequência na grande mídia artistas trans deve-se à transfobia? Você é a favor de que personagens trans (em suas pluralidades) e outros personagens cis também devam ser interpretados por artistas trans?

Sempre achei que o lugar da arte deveria ser o de refletir seu tempo e inquietudes, sejam elas quais forem. Esta questão, que muita gente acha descabida e sem propósito vem maquiada (e às vezes, nem tão maquiada assim) de muito preconceito e estigmas: “não existem trans artistas competentes”, “pessoas trans trazem sua história muito gritante no seu corpo e trejeitos” e que dizem “prejudicar na construção de outras personagens” e por aí afora. Muito bla bla blá de achismos. Conheço excelentes atrizes e com muito potencial e que vão bem além de serem transexuais – formaram-se, fazem cursos, vivem a arte com amor e profissionalismo e não conseguem empregos e trabalho dentro da área artistica.

O problema pelo que percebo, é que vejo esta apropriação do modismo do assunto TRANS em todas as artes e isto deveria ser muito positivo. Mas apropriar-se de algo deve ser feito com cautela e um pingo de responsabilidade. Se vai falar de uma temática TRANS e sabendo que a maioria das TRANS não consegue inserção no mercado de trabalho, faça algo como contrapartida, dê algo além de somente sugar e se aproveitar do dito modismo. Vá além, faça com que esta sua arte, seja verdadeiramente transformadora da nossa realidade social transfóbica. Seja um agente desta mudança, compreende? Vá além do exibicionismo de querer ganhar um OSCAR por ter sido um ator cis que fiz lindamente uma trans. Faça algo com esta sua arte, além de mostrar sua virtuose. Faça com que sua transformação transforme as vidas das pessoas que você representou e se apropriou. Seria já um passo bem interessante. Por fim, conheçam pessoas TRANS, se buscam alguém e não conhecem, entrem em contato comigo. Empregue-as, contrate-as e as deixem fazer sua potente arte.

Alguns dos trabalhos de Maite no teatro (foto ao centro: Michelle Martins)

- Por outro lado, você se incomoda de ser definida como uma atriz trans ou atriz transexual?

Na verdade, pouca coisa me incomoda atualmente. Quando a pessoa trata com respeito a minha pessoa, não vejo problema nesta terminologia. Não gosto quando vem mascarada de preconceito e estigma negativo – só para vender matéria e gerar hits.


Ser TRANS faz parte de minha história e de como encaro e percebo o mundo. Ser TRANS faz de mim quem eu sou e de quem me orgulho de ser. Ser TRANS faz parte de minha religião, filosofia, arte, sonhos e desejos. Demorei demais para gostar da pessoa que sou. Demorei demais para encontrar que pessoa era esta dentro das muitas crises e tentativas de suicídio que tive e depressões. Demorei demais para me parir que hoje só quero saber de ser feliz e fazer felicidade.

- Depois da Mendiga/Rainha, quais são os seus próximos passos?

Estou num novo processo lindo, com uma trupe maravilhosa da CIA de Teatro sem Censura e estou sendo dirigida pelo talentoso Fabricio Castro. O espetáculo chama-se NOSSA SENHORA DAS TRANSEXUAIS e desta vez volto ao teatro adulto (mas com este espirito de eterna criança que aprendi com a mendiga/rainha - risos) . Esta peça foi escrita por Marcio Tito Pellegrini e é um texto que já foi premiado e é muito intenso e cheio de nuances e questionamentos. Traz a história de Olivia, uma transexual que aparece grávida e à partir disto, começa uma verdadeira via crucis em torno desta personagem, com perseguições, violências variadas e agressões.

Um espetáculo que está mexendo muito comigo e que com certeza mexerá em quem assistir. Ele deve estreiar em setembro na Roosevelt, mas a produção (que é realizada pela Produtora 2por1) ainda está fechando a pauta e logo poderei dar uma definição melhor. Mas será um grande prazer ter todo público que tenha grande carinho deste maravilhoso portal NLUCON, que tanto respeito e admiro.

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