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Transserviços

Professora revela como foi voltar para vilarejo de 8 mil pessoas após revelar-se transexual


Ser uma pessoa trans e viver em um pequeno vilarejo pode soar como enfrentar um verdadeiro inferno. Mas não é isso que acontece com a professora de piano Sandra de Castro, uma mulher transexual que vive em Pontedeume, município da Espanha, de 8 mil habitantes.

Ela revela ao internacional “El País” que retornou à cidade há cinco anos, depois de ter se revelado uma mulher transexual e iniciado a hormonioterapia. E afirma que, na maioria das vezes, tem se deparado com aceitação ou respeito.

“A relação com meus vizinhos é muito saudável. Sou uma pessoa que fala bastante, e quase todo mundo me corresponde. Também participo de algumas atividades, como o canto coral. E todos os domingos me reúne com meu grupo de amigas para passar. Em suma, uma vida anódina, mas plena”, diz.

Durante a semana, ela dá aulas de piano e é a responsável pela acústica das romarias e missas realizadas no povoado. “Algumas pessoas me disseram: ‘Você devia ter nos contado antes!' Puxa como se isso fosse fácil. Levei anos até reunir as forças necessárias para me submeter à transição. E também me disseram: ‘Quer sorte você tem por termos te aceitado’. Não, não é uma questão de aceitação, mas de respeito. E ponto”.

Com os documentos retificados, ela afirma que sua presença se dilui tranquilamente nos mais diversos ambientes, sobretudo os compostos por outras mulheres. “Onze anos depois de ter iniciado minha transição, os que me veem pela primeira vez se dirigem a mim no feminino”, diz. Para aqueles que têm resistência em tratá-la com pronomes femininos, Sandra desenvolveu uma regra: educar e não se estressar.

“Na primeira vez, digo a eles que isso (me tratar com pronomes masculinos) não é certo. Na segunda eu insisto que não devem agir assim. Na terceira eles deixam de existir para mim. Acho que tenho direito de exigir certa sensibilidade. Não é tão difícil compreender que sempre fui uma mulher. Mas algumas pessoas cisgêneras, ao ocuparem uma posição de privilégio, são incapazes de se colocar em outra pele”, diz.

NOS CANTOS MAIS SOMBRIOS


A professora afirma que sabe que é uma mulher desde criança. Porém recorda que, ao se deparar com a palavra “transexual” associada à palavra “desviada” em uma revista na casa dos pais, percebeu que precisava se esconder.

Neste período, todavia, ela não percebia diferenças no corpo de qualquer outra criança definida como menina. O problema começou na adolescência, quando os caracteres sexuais secundários, como os seios, desenvolviam nas mulheres cis na puberdade - e não nela.

“A puberdade foi, sem dúvida, minha época mais solitária. A menina feliz que anda de bicicleta, que come sorvete e que corre pela praia de repente se transforma numa pessoa desconcertada, incompreendida, ferida. Os moradores da cidade começam a chamar você de ‘mariquinha’”, afirma.

Escondida, ela comprava gilete, se trancava no banheiro e se depilava. Também vestia uma saia e ia escondida na discoteca da cidade – mas nunca frequentava a pista de dança, ficava apenas nos lugares mais escuros do clube. “É assim que nós transexuais vivemos durante a puberdade: abandonadas nos cantos mais sombrios”.

SENTIMENTO DE AUTOCASTRAÇÃO


Aos 17, foi estudar em outra cidade maior, teve contato com outras pessoas trans, porém continuou com o sentimento de autocastração. Até porque nessa época ainda havia uma lei que prendia LGBT, considerando-os vagabundos e meliantes.

O entendimento não vinha nem mesmo de uma sexóloga, indicada por um parente. “A sexóloga me explicou que minha transexualidade era fruto de um complexo de Édipo. Convenhamos: de sexualidade ela não sabia nada”.

Hoje, ela tenta ver o lado positivo de suas vivências, mas revela certo nó na garganta. “Com que direito a sociedade pode roubar de uma menina esses anos tão maravilhosos, tão cheios de surpresa? E, sobretudo depois de tantos anos, por que continuamos permitindo isso?”.

A vontade e a coragem para retornar à Pontedeume ocorreu quando estava trabalhando na confecção de aparelhos para deficientes auditivos, tendo que percorrer a zona rural. Ela percebeu que alguns clientes, que estavam acompanhando a transição pelo tratamento hormonal, estavam lidando muito bem. “Nenhum deles fez um comentário ruim a meu respeito. Essa experiência me ajudou a não sentir medo quando regressei ao vilarejo”.

UMA ATIVISTA FREE LANCE


Sandra afirma que, assim como muitas pessoas trans, tentou se aliar às ongs e associações de combate à transfobia. Teve contato com a Transexualia, a Chrysallis e participou de palestras, como a da XIX Jornadas de Psicologia e Saúde da Ordem Oficial de Psicologia da Galícia.

Embora não haja, nenhuma associação em sua cidade, a professora afirma ser uma ativista transexual freelance e recebe diversas pessoas em sua residência. O contato vai desde pessoas trans jovens a adultas, profissionais de saúde, até pais e mães que querem falar sobre filhos trans.

“Sei que ficam mais tranquilos ao verem que levo uma vida totalmente normal. E também lhes digo que, por favor uma vez que suas meninas e meninos tenham concluído a transição, não se esqueçam de educá-las para não perpetuarem os papéis de gênero”, afirma.

A professora também faz outro apontamento: os preconceitos nem sempre aparecem apenas por conta da identidade de gênero, mas pelo fator econômico. “Ninguém olha feio para uma pessoa transexual que gasta 600 euros num vestido. Se uma transexual visita um restaurante de luxo, será recebida como um membro da realeza europeia. Sim, o desprezo pela transexualidade também é classista”.

CADA PESSOA TRANS É UM MUNDO


Em uma vida bastante diferente do que acreditam se tratar a vida de uma pessoa trans, Sandra defende que a sociedade deve aprender que cada pessoa trans é diversa. E que cada uma, apesar da característica trans, representa um mundo completamente diferente. 

Dentre as visitas que recebeu que mais a tocou foi de uma mulher transexual de cerca de 50 anos que continua vivendo em sociedade como um homem, por conta do seu povoado e contexto familiar sem extremamente opressivo. “Me dói pensar que essa pessoa não se sentirá completa pelo resto dos seus dias”.

É por isso que ela diz que todos devem se preocupar verdadeiramente e sem preconceitos com cada um desses mundos vividos por pessoas trans. “Se o corpo pode se transformar numa prisão, pelo menos que ninguém viva em prisão perpétua”, finaliza.

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