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Saiba quem foi Candy Darling, a primeira artista trans a se tornar ícone pop


Por Neto Lucon

Ainda que nem toda pessoa brasileira conheça, Candy Darling (1944-1974) é considerada uma das primeiras mulheres trans a se tornar ícone pop mundial. A nova-iorquina era modelo, atriz e considerada musa do cineasta e figura do movimento pop art Andy Warhol (1928-1987).

Candy defendeu o direito de ser uma mulher trans num período em que nem falava-se sobre transgênero e que todas as pessoas trans eram repreendidas e presas. Não tinha nem 18 anos quando foi questionada pela mãe se frequentava bares com vestidos e rejeitada pelo pai, tendo que deixar a cidade e começar a vida em Manhattan.

Ela tinha extrema fascinação pelas estrelas da época de ouro de Hollywood. Quando era adolescente, chegou a pedir uma foto autografada da atriz Kim Novak pelo correio. Semanas depois, recebeu uma foto autografada da estrela – o que reforçou a sua vontade de tornar-se uma atriz bonita e admirada.

Aliás, Candy vivia se inspirando em Kim, repetindo as poses da atriz, o estilo lânguido e a voz sensual.

Trabalhou como garçonete e atuou em peças que o amigo Jackie Curtis escreveu. Chamava atenção sobretudo pelo talento de fazer papeis femininos e masculinos. Com o tempo, passou a tomar estrogênio em grandes quantidades para feminilizar o corpo. Foi em uma de suas apresentações que o cineasta e pintor Andy Warhol a conheceu quando ela tinha 23 anos.


UMA ESTRELA...

Warhol contou que ficou fascinado com seu cabelo loiro, pernas longas, voz suave e o ar de sinceridade. Ele sabia que ela estava destinada a ser uma estrela – ainda que o preconceito pudesse trazer dificuldades. Foi então que ele a transformou em musa de suas obras.

Candy foi protagonista dos filmes experimentais Flesh (1968) e Women in Revolt (1971), que Warhol gravou com a colaboração de Paul Morrisey. Candy, todavia, não recebeu qualquer remuneração pelo trabalho. O artista acha que somente o fato de estar ao lado dele era o preço.

Porém, Candy não estava satisfeita apenas em ir de festa em festa, ter acesso ao camarote de clubes de Nova York e demonstrava o mais profundo desejo de ser uma artista de cinema. Após o rompimento com Warhol, ela chegou a fazer alguns filmes comerciais, dentre eles Kute (1971), de Alan J Pakula, que conseguiu graças a sua amiga Jane Fonda.

No teatro, estrelou a peça “Pequenos Avisos do Ofício”, de Tennessee Williams (1911-1983), que ela conheceu em uma festa de aniversário e causou boa impressão. Interpretou Violet, uma jovem cativante e desejada. Porém, ela não tinha permissão para compartilhar o camarim com os demais atores e atrizes. Na crítica publicada em 3 de abril de 1972 no New York Times, ela sequer é mencionada.

Com Andy Warhol e Lou Reed

...SOLITÁRIA

A artista sentia que muitas vezes era mais tratada como uma pessoa esquisita que como artista. Seus diários, revelam uma artista extremamente solitária, incompreendida e com o constante desejo de ser respeitada e amada incondicionalmente. “Sinto como se estivesse numa prisão”.

No poema que escreveu “Lady Sings the Blues”, ela diz: “Quando você anda em uma festa e ninguém se vira para olhar para você / quando você toma um gole de Bacardí e começa a ficar vermelha / é o declínio de uma estrela”.

Em outros trechos, revelou que mesmo quando estava fazendo no auge da carreira tinha que dormir em sofás de amigos. Também escreveu que não podia levar uma vida tranquila, tampouco nadar, visitar parentes, conseguir um emprego comum ou namorar.

Apesar disso tudo, mostrava resistência para ser quem de fato é: "Não deixarei de ser eu mesma por causa dos tolos, que fazem julgamentos duros sobre mim. É preciso ser quem se é, seja qual for o preço. É a forma mais alta de moralidade”.

MÚSICA E FOTOS

Na canção “Walk On The Wild Side”, Lou Reed (1942-2013) chega a mencioná-la com muita indelicadeza em um dos trechos do seu primeiro álbum solo. A artista, que era próxima dele, minimizou o que ele cantou.

Três anos depois, Lou Reed escreveu “Candy Says”, uma música mais compreensiva e falando sobre frases que Candy já teria dito.

Ela também posou para grandes fotógrafos da época, como Cecil Beaton, Richard Avedon, David Bailey, Bruce Weber e Robert Mapplethorpe. Às vezes aparecia como uma forte mulher, em outras puramente sexy ou glamorosa. Tinha um magnetismo que a fazia se tornar única e icônica.

O RÁPIDO ADEUS

Em 1974, quando tinha apenas 29 anos, Candy foi diagnosticada com um tumor. Seu estado de saúde era crítico e fatal. Antes de se despedir chamou o fotógrafo Peter Hujar para uma série de fotografias.

Apareceu igualmente diva, reclinada sobre um travesseiro, debaixo das cobertas e olhado diretamente para a câmera. Escreveu um recado aos amigos: “morrendo de tédio”. E partiu no dia 21 de março de 1974.


Em seu velório, choraram David Bowie (1947-2016), Gloria Swanson (1899-1983) e uma legião de fãs e admiradores. Lembrada 43 anos após sua morte e com direito a uma revista voltada para pessoas trans com o seu nome, Candy conseguiu de fato se tornar uma estrela. 

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