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Conheça Tracey Normann, a primeira modelo trans negra dos anos 70


Por Neto Lucon

Cada vez vemos mais modelos trans no mundo da moda. Mas imagine como seria para uma mulher trans se inserir no mundo da moda nos anos 70. Esta conquista tem nome: Tracey Norman, hoje com 63 anos, considerada a primeira modelo negra e trans a ganhar destaque na indústria.

Por conta do preconceito, a norte-americana não revelou naquela época que é uma mulher trans (nem poderia, caso contrário seria presa ou sofreria represálias) e esteve em diversos catálogos, desfiles e revistas como Essence e Vogue Italia.

Seu grande trunfo foi ser garota-propaganda de um dos produtos para cabelos da marca Clairol e da Avon. Sim, ela esteve em uma daquelas caixinhas à venda em lojas do ramo com modelos belíssimas e com o exemplo de cabelos para as consumidoras.

Porém, ao mesmo tempo em que estava fazendo sucesso na carreira, a top afirma que vivia estressada e tensa com a possibilidade de sua história vir à público. Ela dizia que se sentia outra pessoa para conseguir emprego. A preocupação fez sentido. A carreira teve uma reviravolta quando o mundo soube por meio de uma fofoca que ela é uma mulher trans.

NOS PASSOS DA TOP

Em entrevista para a New York, Tracey afirma que desde pequena foi muito feminina e que se sentia pressionada a se comportar de uma maneira diferente em Newark, New Jersey. Como sua família estava cheia de problemas – como a luta contra o câncer do pai – ela insistia em deixar sua identidade de gênero em segredo.



Foi no ensino médio que ela teve coragem de contar para a mãe que não era um menino, mas uma menina. Ela ficou muito aliviada quando a mãe estendeu os braços e disse que sempre soube que ela era mulher. Era tudo o que ela mais queria e precisava: acolhimento.

Com a ajuda de uma amiga trans da escola, ela começou a tomar pílulas anticoncepcionais. Com o auxílio de um médico que conheceu em um clube que ela começou a moldar o corpo como gostaria por meio da terapia hormonal. Após alguns meses, ela foi em uma loja de departamentos em Newark e comprou seu primeiro vestido, passando a viver 24h com sua verdadeira identidade.

"Os policiais questionariam algumas das minhas amigas, pois sabiam que algumas eram transgêneras e prendiam", conta. "Eu tive sorte de nunca ter sido presa ou abordada pela política".

Os amigos a ensinaram se maquiar e a se portar para ser invisível. Diziam que ela só chamava atenção por ser uma mulher excepcionalmente linda. E ainda incentivavam e garantiam que ela poderia ser uma modelo. Tudo parecia bobagem até que um amigo maquiador a ensinou entrar em desfiles de moda fingindo ser estudante, o que a fez estudar muito os demais modelos. 


Tracey embarcou nesse sonho quase impossível.

O SUCESSO

Em 1975, ela observou alguns modelos negros caminhando a caminho de um hotel e resolveu segui-los. "Minha mente simplesmente continuava dizendo: Siga-os ", lembra ela. Era uma entrevista para a versão italiana da Vogue com o editor da Vogue italiana, Luciano Soprani e fotógrafo Irving Penne.


Alguns dos vários trabalhos de Tracey

Tracey não só conseguiu entrar, como se misturar e, no dia seguinte, receber um telefonema que estava contratada para um editorial da Vogue. Foi o que ela precisava para ser vista e admirada. 
Depois, assinou contrato com Clairol e foi rosto do número 512, Dark Auburn. E com a Avon, para uma linha de cuidados da pele.

"O contrato inicial era de dois anos, mas eles usaram minha caixa por seis anos. Disseram que era a caixa mais vendida", diz a modelo. "Bem, é isso que me foi dito", continua. Ou seja, milhares de clientes de Clairol estavam adquirindo o produto e reafirmando a beleza negra de uma mulher transgênera.

Ela foi contratada para vários comerciais, editoriais e figurou em importantes revistas. A modelo Pat Cleveland diz que Tracey conseguiu escapar de muitos preconceitos, dentre eles o racismo no mundo da moda, porque era muito boa como modelo. "Ela era tão profissional que conseguiu fazer com que as coisas parecessem boas e vendê-las. Era difícil para qualquer modelo negra naquele momento ser vista como comercial. Acho que Tracey escapou porque era muito boa".


A RESISTÊNCIA

Ao mesmo tempo que brilhava, a modelo vivia com receio de que seu passado viesse à tona e que sua transgeneridade pudesse fechar portas. Tanto que ela que fazia das fitas adesivas às suas melhores amigas nos bastidores, onde muitas vezes teve que se trocar na frente de outras modelos cis.

Certa vez, um maquiador bateu em suas costas e disse que sabia que ela era mulher trans. Ele apenas elogiou a beleza, desejou sucesso e pediu para que ela continuasse sendo absolutamente natural, caso contrário a carreira dela estaria acabada.

Em 1980, durante um ensaio para a revista Essence, o assistente do seu cabeleireiro descobriu que ela era uma mulher transexual e contou para a editora da revista. 
A notícia dada como fofoca caiu como uma bomba e ela passou a ser boicotada em diversos trabalhos. Tanto que as fotos que fez para a Essence nunca foram publicadas e ela nunca recebeu pelo trabalho. 

Persistente, Tracey se mudou para Paris com o passaporte da irmã e assinou contrato de seis meses com a Balenciaga. Ela teve alguns poucos trabalhos devido ao sucesso anterior, mas encontrou dificuldades assim que o contrato terminou. 

Do nada, diziam que seus quadris e outras medidas estavam maiores que o esperado. Mas com o tempo os comentários de que ela é uma mulher trans ficaram tão fortes que agências eram ameaçadas de "propaganda enganosa" e outras modelos cis negras começaram a dizer que ela estava roubando trabalho. 



"Eu estava chateada com o fato de ninguém me  perguntar a verdade. Acho que tinham medo de ações judiciais, mas não sei se teria estado de espírito para processar pessoas. Eu simplesmente me senti tão chateada porque era o meu pessoal e a minha comunidade que faziam isso comigo. A comunidade negra e a comunidade gay", afirmou. 


Depois, foi para Nova York e assinou com a agência Grace Del Marco. Mesmo assim, a perspectiva de brilhar novamente era baixíssima. Com pouquíssimos trabalhos, Tracey reconheceu que a carreira de modelo havia chegado ao fim. A saída foi fazer shows burlesques com mulheres trans, o que a fez sobreviver desde então. "Eu só não queria ir para a prostituição", declarou.

A VIRADA

O boom de modelos trans e o maior entendimento das identidades trans na mídia nos últimos anos, fez com que a trajetória de Tracey voltasse a ser lembrada. O que foi motivo de exclusão, tornou-se referência de luta, resistência, representatividade, orgulho e aplausos.

Em 2016, Tracey ganhou destaque no jornal London Times, esteve no prêmio GLAAD, foi homenageada na Parada LGBT de Newark e ao lado da modelo trans Geena Rocero apareceu na capa da edição indiana da Harper’s Bazaar.

E o mais surpreendente: a marca Clairol – que a empregou nos anos 70, lembra? - retomou contato e a convidou para uma campanha exclusiva e que celebra a confiança de ser quem é. Sendo assim, Tracey esteve na “Real As You Are”, da linha Nice ‘n Easy Color da Clairol.





A diretora da marca Heather Carruthers declarou que todos estão orgulhos de trazer Tracey de volta como uma mulher que não tem mais que esconder a verdade. “Sua força, espírito genuíno e autenticidade na vida fazem dela uma escolha natural para a gente”, declarou.

Hoje, ela é ídolo e referência e inspiração de ativistas como Janet Mock e atrizes como Laverne Cox. "A
lguém já esteve lá antes e fez isso, numa época em que havia muito mais violência e muito mais risco", diz Janet. 

"Fiquei fascinada pelo fato de que havia uma modelo negra nos anos 70 que conseguiu um contrato de cabelo. Isso já seria um grande negócio para modelos negras, mas para ela que é trans é incrível. Fiquei horas olhando para a foto da Clairol com a legenda Born Beautiful. Sim, somos lindas". 

Definitivamente, Tracey Normann é uma modelo para se aplaudir em pé!

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