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Danna Lisboa e MC Dellacroix falam sobre resistência trans no rap: "Chega de pedra na Geni"


Por Neto Lucon
Fotos: Rafael Sant’s

“Ideais” é o nome do primeiro EP da carreira da rapper Danna Lisboa que será lançado nessa semana. Produzido por Nelson D, o trabalho conta com sete músicas que vão falar sobre as reflexões da artista sobre os assuntos que discorrem a vida de uma pessoa trans, negra e periférica.

Nesta quinta-feira (03), vai rolar o show de lançamento a partir das 19h na Fatiado Discos (Av. Prof. Alfonso Bovero, 382, Sumaré) em São Paulo. E contará com duas participações especialíssimas, MC Dellacroix e a rapper Alice Gél, que engrossam o caldo da visibilidade T.

A parceria evidencia um momento fértil no rap, que começa a abordar outras realidades, denunciar a transfobia, bater de frente com o machismo e mostrar o poder do feminino e a riqueza da diversidade.

Em entrevista exclusiva ao NLUCON, Danna e Dellacroix falam sobre a carreira, dificuldades, transfobia, racismo e falam sobre a importância de se unirem – e fazerem muitas parcerias e feat - frente a uma sociedade e um mercado que a invisibiliza e as marginizalizam. Confira o bate-papo:

- Você está com um novo trabalho, Ideais. É o seu primeiro EP?

Danna: É o meu primeiro EP. Vem com sete faixas. Começou com o single Trinks, que é a primeira música que eu lancei no ano passado. Depois veio Cidade Neon. Daí as coisas foram acontecendo, eu resolvi agregar mais, compor mais faixas ao longo de um ano. Então, é o trabalho neste período em que estou como artista, MC, colocando os meus ideais. O nome do EP é justamente por isso: por mostrar que pessoas trans têm ideais.


- Sobre quais assuntos falam sobre as faixas?

Danna: Esse EP aborda vários temas, ele também é dançante e tem essa linguagem muito forte do rap. Falo sobre questões sociais na visão de uma pessoa trans ou travesti. Não só falando por mim, mas falando sobre a realidade de outras pessoas. A primeira música é Ideais, a segunda é Ecoa, a terceira Recua, daí vem Quebradeira, que tem participação da Gloria Groove, vem Cidade Neon, tem Se Sou, que conta um pouco sobre essa coisa de sermos almas e esquecer um pouco a classificação e é uma das músicas mais gostosinhas.

- Vai ter um show de lançamento nesta quinta-feira (03) com muitas participações. Considera importante essa união de outras artistas trans e negras? 

Danna: Convidei a MC Dellacroix, uma minha amiga maravilhosa, cremosa, que conheci no começo deste ano e é uma das pessoas que me inspira. Ela também é MC, então tem uma realidade parecida com a minha, as nossas conversas dialogam. Eu chamei ela e a Alice Gél, uma figura maravilhosa e linda. Eu chamei para agregar ao trabalho, trazer a referência das meninas trans e pretas que estão cantando o rap. Hoje você vê o fortalecimento das mulheres cis dentro do rap, e a gente também está criando o espaço.

Dellacroix: Eu achei muito interessante (o convite para o show), pois sempre acompanhei o trabalho da Danna desde quando ela começou. Rolava essa identificação, aí comecei a fazer rap também. E é muito importante a gente se juntar, a gente ser um coletivo. Singularmente, as pessoas que estão sozinhas elas não conseguem crescer tanto, não tem tanta voz. E quando a gente se junta e mostra que está junto numa mesma causa, a gente acaba transformando o feminino que está no nosso corpo, que é marginalizado, em potência e ecoando a nossa voz pela causa trans. O que eu geralmente busco no meu trabalho é outras parcerias com as manas trans, manas LGBT, para dar voz e se fortalecer.

- De qual maneira o fato de vocês serem trans, travestis e negras repercute na arte?

Dellacroix: Repercute total. Se eu não fosse travesti, negra, periférica, pobre, eu não estaria fazendo o que eu estou fazendo. O que eu faço é uma questão de sobrevivência. Às vezes a gente acaba se perdendo no glamour de tudo e a gente esquece que só tá fazendo isso porque não conseguimos emprego porque somos travestis, porque as pessoas não nos respeitam enquanto travesti, e observando isso e estando dentro da arte essas questões acabam refletindo. Eu escrevo sobre o que eu vivo, sobre a transfobia que eu sofro, eu acabo escrevendo sobre a solidão que sofro por ser travesti, por ser negra e por não ter ninguém disposto a se relacionar comigo. Escrevo, performo e transformo tudo isso em arte.

Danna: É tudo isso que ela disse e muito mais. Acho muito importante a gente se colocar como pessoas trans e reivindicar esse espaço. Eu comecei com dança e quando entrava nos lugares querendo dançar as pessoas olhavam para mim assim: “Nós temos uma travesti aqui, o que a gente vai fazer?”. É exatamente isso que eu quero que as pessoas pensam: o que elas vão fazer? Porque a princípio daqui eu não vou sair. Se antes me negaram esse lugar, agora esse lugar é meu. A gente está vindo com essa proposta, para calar essa dor da gente, sabe? Chega! Parem de tacar pedra na Geni. E quando a gente fala sobre nossa realidade e a gente provoca essa mudança até nos caras que fazem rap. Eles podem pensar: o que estou provocando com minha letra?

Capa do EP Ideais (Foto: Bruno Fujii)

- Como é estar inserida no rap, que durante muito tempo também teve diversos artistas sendo apontados com pensamentos machistas nas lestras?

Danna: Se durante muito tempo eles bloquearam as mulheres cis, e elas tiveram que gritar “esse lugar é nosso”, então nós, travestis, dizemos a mesma coisa: “Nosso lugar são todos os lugares". O público que consome rap está começando a migrar para as mulheres, porque se você ver o conteúdo dos caras, os caras não estão falando muita coisa. Acho que as mulheres cis abriram as portas para as mulheres trans dentro do rap. Então é um salve que eu dou para todas as minas, que são guerreiras mesmo. Porque eu sou do rap, eu acompanho, eu vejo vários caras fazendo várias tretas erradas, falando merda dentro do rap, e vejo várias meninas vindo e produzindo coisas incríveis. Graças a Deus, eu posso escutar rap e me identificar com uma mina cis que fala sobre coisas que eu passo. Mesmo eu não sendo uma mulher cis, eu sei do que ela tá falando. Se o rap é revolução, que vai atacar ou atingir positivamente alguma pessoa, então porque ele não pode ser feito por pessoas da diversidade? Que haja espaço para as minas trans, as pessoas de gênero fluído, não binárias... A gente tem uma grande luta pela frente.

- Danna, você havia comentado que a população LGBT geralmente valoriza apenas uma ou duas manas e esquecem das outras que estão no mesmo cenário. Fala mais sobre isso...

Quando a gente pensa o que é pop dentro do cenário LGBT, a gente tem a Pabllo Vittar, a Gloria Groove. O que é rap dentro do cenário LGBT? Danna, Dellacroix, Alice... E a gente começa a trazer essas referências para a gente, como coisa da gente e valorizar o que a gente está fazendo. A nossa música está crescendo: temos Líniker, MC Linn da Quebrada... Mas Às vezes eu acho que o público foca apenas numa e esquece de pensar num todo. “Ai, não gosto de rap”. Gata, tem alguma coisa no meu rap que você pode gostar. A gente se permitir se identificar de alguma forma com outro artista.

- É tranquilo encontrar lugar, espaço e oportunidades para fazer a arte?

Dellacroix: É bem difícil. A gente vê que muitas portas se fecham porque a gente é travesti, preta e periférica, independente do que você faça. E você começa a perceber que precisa trabalhar a sua imagem para acessar alguns espaços. Mas a gente chega numa limitação. A gente vai, vai, vai e chega numa barreira. E vejo que conectando com outras manas, voltando ao assunto, a gente consegue se apropriar de outros espaços, ocupar e hackear outros espaços. Mas ao mesmo tempo para mim a música consegue invadir todos os espaços, entrar em todos os lugares.

- O que é importante a gente falar hoje em dia sobre transfobia, negritude e arte?

Danna: A gente está num momento em que a mídia quer falar sobre a gente: coloca a gente no comercial, mostra a nossa resistência e tal. Mas quando penso nessas empresas, essas empresas estão de fato efetivando o trabalho dessas pessoas, elas estão agregando essas pessoas? Quem trabalha lá? Continuam sendo apenas as pessoas cis, as pessoas de privilégios? Então será que essa mudança será que não é só uma aparência de tela? Porque não é isso o ideal. As empresas que querem passar uma imagem bonitinha, LGBT, que comecem a colocar essas pessoas nas suas empresas para trabalhar. Eu mesma não tenho um registro na minha carteira de trabalho e sobrevivo da minha música e da minha dança. Mas quantas empresas aceitam o meu currículo? É hora de parar de falar de beleza e começar a colocar a gente para trabalhar, sim. Para mim, não importa tanto nos colocar em uma novela, pois as realidades não são iguais e a realidade daquela mana na novela não é a mesma realidade que a minha. A gente quer espaço. E quando a gente fala de espaço não é sentar aqui e ter um Neto Lucon para poder conversar comigo, ou de uma pessoa escutar a minha música. É de a gente chegar num lugar e um cis se sentir reconhecido numa pessoa trans, e não o contrário.


- Também acha que existe muita superficialidade na abordagem de representatividade na mídia?

Dellacroix: As empresas que pegam a nossa imagem e maquiam. Acabam passando para o público que está tudo ok, que está rolando bem. Mas não está. Um sentimento muito recorrente que as pessoas têm para com as pessoas travesti é dó. Mas aí elas têm dó de mim pelo que eu estou passando e elas não reconhecem que eu estou passando por isso porque sou travesti. E que tem um mar de travestis se prostituindo na Rego Freitas, que tem uma vida muito pior que a minha. É sobre isso que falo sobre imagem. As pessoas devem parar de consumir imagem e passar a consumir realidade e entender o que as pessoas estão passando. Olhar para o próximo e perguntar se a pessoa tem um prato de comida para comer. Você vai num rolê, tem bebida, tem drogas, mas ninguém se preocupa no seu amanhã, se tem o que comer, se tem onde dormir. As pessoas acham que você tá famosa e já tá rica. Tem dinheiro o caralho. Não tem nada.

Danna: Não mesmo!

- Gostaria de deixar alguma mensagem para as pessoas?

Danna: Eu vou lançar o EP e gostaria de pedir para as pessoas que escutassem todas as faixas, sem pular, e pensassem naquilo tudo que está ali. Quero que elas escutem e falem: “Eu entendi o que ela quis passar”.

Dellacroix: As pessoas podem me procurar nas redes sociais como MC Dellacroix. Vou estar com a Danna na quinta-feira no EP dela, que para mim é uma honra ter sido convidado. Eu sempre curti muito o trampo dela, tanto pelo que ela falava, me identificava e me representava. Daí quebrei essa coisa de representar. A gente tem que parar esse lugar para as pessoas famosas de representar. Ninguém tem obrigação de representar ninguém e é tanta gente para representar que não é a nossa obrigação. A gente está aqui para se identificar, para você ouvir minha música e saber o que estou passando e saber que tem outras manas passando também. Logo vou estar lançando o single Quebrada.

- Boa sorte e conte sempre conosco! 

Assista a entrevista em vídeo e curta nossa página no Youtube: 

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