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Militantes travestis e transexuais apontam erros em definições da novela "A Força do Querer"


POR NLUCON

A autora Glória Perez aborda na novela “A Força do Querer” as histórias de dois personagens trans: o homem trans Ivana (Carol Duarte) e a travesti Elis Miranda (Silvero Pereira). Porém, embora a trama esteja apostando na visibilidade da causa trans para todos os lares (o que é digno de muitos aplausos), a autora vem tropeçando e cometendo erros ao fazer definições.


Quem afirma são as próprias travestis e mulheres transexuais militantes, pessoas trans que ajudaram na consultoria da novela. E até a ANTRA – Associação Nacional de Travestis e Transexuais – que divulgou na última semana uma carta aberta à autora, salientando os erros e pedindo para que ela corrigisse no decorrer da novela.

Os erros aparecem sobretudo quando Glória tenta explicar o que é e as diferenças de “travestis”, “transexuais” e “transgêneros”. Em um diálogo de Elis Miranda, a personagem chegou a dizer que travestis “são gays”, “transformistas”, que não fazem mudanças no corpo, que não são transgêneros e que interpretam mulheres. Em outra, disse que pessoas transgêneros não fazem mudanças corporais, ao contrário das transexuais.

Nas redes sociais, o grupo explicou que travesti é uma pessoa que foi designada homem ao nascer, mas que se identifica com o gênero feminino, vivencia 24h este gênero, podendo fazer ou não intervenções no corpo por meio de hormonização, silicone e cirurgias. Ela NÃO é uma mera interpretação, não é um homem vestido de mulher, tampouco representa um gay (que é a orientação sexual de uma identidade masculina). É uma identidade feminina, tanto que se fala “A” travesti.

Explicam também que a pessoa (mulher ou homem) transexual é aquela que não se identifica com o gênero atribuído no nascimento, vivencia outro gênero, podendo passar por cirurgias para se sentir mais confortável com o próprio corpo e identidade. Muitas dessas pessoas querem passar ou já passaram pela cirurgia de redesignação genital (popularmente conhecida como mudança de sexo) ou nas mamas, mas nem todas conseguem, uma vez que podem ser impedidas pelo valor da cirurgia, filas gigantescas pelo sistema gratuito e questões particulares sobre a própria saúde.

transgênero é um termo guarda-chuva, que abarca todas as pessoas que transgrediram as normas de gênero impostas pela sociedade e vivenciam outras possibilidades de identidades, expressões e papeis de gênero. Ou seja, é um termo que fala ao mesmo tempo sobre travestis, mulheres transexuais, homens trans, não-binários, crossdresser, drag queen, transformistas. Mas não é utilizado por todo o ativismo trans brasileiro.  

Leia a nota da ANTRA:


ALGUMA COISA ESTÁ ERRADA 

Após as cenas que tentaram explicar as definições, mas derraparam, a militante travesti Symmy Larrat escreveu nas redes sociais: "Travesti agora é intérprete de mulher! Cansei da Glória Perez". A atriz travesti Viviany Beleboni lamentou: "Acabo de ser informada que sou um transformista #AForçaDoqQuerer". 

A militante Maria Laura dos Reis, declarou que travestis não se reconhecem como homens e muito menos interpretam ser mulheres. "No tocante da vivência travesti, A Força do Querer tem muito o que avançar nos conceitos". Rayssa Oliveira declarou: "Eu sou atriz e não sabia. Parabéns, Glória Perez, pela merda que você tá fazendo. Vergonhoso". Já Andréa Brazil diz que sempre admirou a Glória, mas declara que "não é imitação de mulher".

Até mesmo o escritor João Nery, que inspirou o personagem homem trans, comentou nas redes sociais que estava preocupado com as definições:  "Agora me preocupei com a assessoria da novela da Gloria Perez. Desde quando travesti não é transgênero? Alguma coisa está errada aí"



A assessora parlamentar e estudante de jornalismo transexual Bárbara Aires, responsável pela consultoria da elogiada série “Quem Sou Eu?” do Fantástico, chegou a fazer as críticas em sua página no Facebook. Ela também foi uma das pessoas que ajudaram voluntariamente na pesquisa feita por Glória Perez, mas disse que nem tudo o que foi repassado está sendo utilizado.

“Travestis se organizaram e criaram um movimento de luta por direitos e conseguiram a partir daí atrair visibilidade para o tema. Entre as lutas, está o fim desse estigma marginal sobre a palavra/identidade travesti e suas definições errôneas. Ah, mas o dicionário diz que é um ator que se traveste. O dicionário está errado. Ele, o dicionário não tem tal vivência para afirmar e muito menos a pessoa que o escreveu”, declarou.

Bárbara contou ainda que após pontuar as definições dadas de maneira errada na novela, foi excluída do Facebook pelo pesquisador do folhetim. “O tal pesquisador começou a fazer posts atacando a militância, a mesma que ele USOU para adquirir conhecimento gratuito e postar elogios de pessoas cis dizendo que tem gente que agradece e reconhece. Postou inclusive uma capa de revista que trata da questão trans, atribuindo a novela o fato de discutir isso. Menos, bem menos. Caso explícito de cooptar e não aceitar críticas das pessoas envolvidas na questão”.

Veja a crítica na íntegra:



CRÍTICAS CONSTRUTIVAS


Vale ressaltar que quando alguém faz uma crítica pontual, embasada e visando o crescimento da novela, não se trata de boicotar a obra ou apenas criticar. Ao contrário, sabe-se da importância do trabalho e tenta-se colaborar para que ele seja realizado da melhor maneira possível. Que a mensagem seja levada, escutada e repercutida. 

Um comentário

Lone disse...

Só queria dizer que vcs podiam começar a falar pessoas transgênerAs, são adjetivos: transgênero, agênero, bigênero, cisgênero... Us transgênerus, es transgêners/es/is.

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