Header Ads

Grupos repudiam tratamento da mídia sobre morte da universitária trans Ana Carolina Nascimento


Por Neto Lucon

A abordagem transfóbica da mídia sobre a morte de uma universitária trans provocou diversas reflexões, repúdio e nota de pesar. Isso porque, se não bastasse enfrentar a dor de uma perda, a imprensa ainda hoje desrespeita a identidade de gênero e o nome social das pessoas trans ao noticiar suas mortes.

No caso, Ana Carolina Nascimento foi encontrada morta aos 28 anos na noite de terça-feira (05) em Araraquara, interior de São Paulo. Ela estava embaixo de um carro e a causa pode ter sido um acidente envolvendo a falha de um freio de mão. Nos sites, o título: "Homem é encontrado morto embaixo do carro".

Ou seja, retrataram Ana como se fosse homem, com um nome que não condiz com aquele que ela era reconhecida e com uma identidade que pouco diz sobre ela em vida. Um desrespeito à identidade de gênero, ao nome social e a toda a luta e trajetória enquanto mulher.

O apagamento da identidade de gênero de Ana e sua verdadeira vivência não é exceção. É comum na mídia brasileira. Em diversas notícias, assassinatos de travestis e mulheres trans são noticiados como sendo de "homens vestidos de mulher", como homens gays ou com o único testemunho de uma família com pouca afinidade com as necessidades da população trans.

Representa mais uma sintoma do desrespeito à dignidade da pessoa trans e a segunda morte de quem já foi tão violada em vida. Agora também violada em morte. Além da perpetuação do pensamento transfóbico de não considerar as identidades trans como possíveis e legítimas. Afinal, o nome de Ana e seu gênero feminino não era uma fantasia, um disfarce, uma ilusão. Era de fato quem ela era.


Por conta disso, vários coletivos, fóruns e centro acadêmico da UNESP-Fclar fizeram uma nota de falecimento e em repúdio à imprensa que notificou a morte como se Ana fosse "ele". E destacou: "Ana Carolina Nascimento não era um nome em um documento. Não era apenas um corpo morto no chão. Era um corpo que carregava marcas de luta e resistência. Ela era uma pessoa com toda sua subjetividade que resistia diariamente a invisibilização e marginalização dos corpos trans. Ela merece respeito".

* Importante: após a nota, alguns sites como o G1 mudaram o título. 


Confira a nota na íntegra:

É com extremo pesar que notificamos o falecimento de Ana Carolina Nascimento, mulher trans estudante de pedagogia na UNESP-Fclar. A causa da morte ainda é desconhecida pela perícia policial local.

Ana Carolina Nascimento não era um nome em um documento. Não era apenas um corpo morto no chão. Era um corpo que carregava marcas de luta e resistência. Ela era uma pessoa com toda sua subjetividade que resistia diariamente a invisibilização e marginalização dos corpos trans. Ela merece respeito!

Contudo, cabe ressaltar que essa nota tem caráter de repudio à mídia araraquarense que notificou o ocorrido referindo-se a Ana como "ele". Costumamos dizer que as pessoas trans morrem duas vezes no Brasil, a primeira quando ocorre o óbito e a segunda, quando a sociedade (jornalismo, instituições e em muitos casos a própria família) "matam" a identidade de gênero na qual a pessoa se reconhecia, em um movimento que busca invisibilizar e apagar a história dessa pessoa.

Infelizmente, o CIStema normativo e binário do jornalismo raso não notificou apenas a fatalidade do óbito, mas sim a morte de sua luta e resistência ao anular sua identidade de gênero. Reescrever a história da morte de Ana Carolina, significa dar pelo menos a dignidade e o respeito dessa narrativa ser contada com o nome e a identidade em que a mesma se identificava. Cabe ressaltar que o Brasil tem os maiores índices de mortalidade de pessoas LBGT's. Ana, não será apenas uma estatística ou um dado, Ana transcende a realidade numérica - sua luta sempre irá colorir o nosso coração.

Lamentamos pela perda enquanto amigas e amigos da Ana e nos solidarizamos com as dores dos familiares. Nos responsabilizamos e nos disponibilizamos a auxiliar no que for preciso para que essa história não caía no esquecimento.

Diante disso, não podemos nos silenciar e coadunar com as notificações do jornalismo araraquarense. Nós, estudantes e amigos de Ana, estamos profundamente entristecidos com os noticiários e exigimos uma retratação pública e que as causas da morte sejam devidamente investigadas e explicadas, respeitando seu nome e gênero.

ASSINAM ESSA NOTA:
C.A.M.T. - Centro Acadêmico de Pedagogia
C.A.F.F. - Centro Acadêmico de Ciências Sociais
C.A.O.S. - Centro Acadêmico de Engenharia
C.A.C.I.F. - Centro Acadêmico de Farmácia
C.A.C.E.L. - Centro acadêmico de Letras
C.A.C.E.F. - Centro Acadêmico de Economia
CUCA - Cursinho Unificado da UNESP Araraquara
AKOMA - Grupo de estudos e pesquisas
Fórum Paulista de Travestis e Transexuais
Coletiva BE
Coletivo Abisogun
Coletivo Papo das Be
Coletivo LGBT Joaquinense
República Las Canelas
República Malwee

Nenhum comentário

Tecnologia do Blogger.