Header Ads

Morre aos 74 anos Rogéria, a travesti da família brasileira


Por Neto Lucon

Morreu na noite desta segunda-feira (04) aos 74 anos atriz Rogéria, "a travesti da família brasileira". Ela estava internada desde o dia 8 de agosto no Hospital Unimed Barra, no Rio de Janeiro, com caso de infecção urinária, mas teve crise convulsiva e foi vítima de choque séptico.

No dia 13 de julho, Rogéria chegou a ser internada por duas semanas em uma clínica em Laranjeiras com infecção urinária. Ela teve infeção generalizada na UTI, mas conseguiu se recuperar e ir para casa. A piora ocorreu no dia 8 de agosto, quando foi internada novamente.

Enquanto se recuperava, Rogéria estava falante e feliz, querendo voltar logo com os shows. Tanto que, na expectativa de voltar à ativa, o empresário Alexandre Haddad sequer desmarcou a agenda. Recebeu poucas visitas, como da atriz Nany People, que se apresentava com ela.

A morte de Rogéria pegou todos de surpresa. Betty Faria divulgou uma foto das personagens Ninete e Tieta, vivido pelas atrizes na novela da Globo, e a frase: "Querida amiga, adeus". Walcyr Carrasco escreveu: "Rogéria se intitulava "travesti da família brasileira" e sempre fez questão de deixar clara a porção Astolfo que habitava em Rogéria, ou vice-versa. Vai fazer falta".

Taís Araújo, Lazaro Ramos, Susana Vieira, Ana Maria Braga, Lea T, Barbara Paz, Astrid Fontenelle, Leda Nagle, entre outros lamentaram. "Gratidão minha querida Rogéria. Você abriu as portas para todas nós. Sua essência vai ficar e sentiremos falta do seu lindo sorriso... você é luz", escreveu Lea. 


A atriz Leandra Leal, que dirigiu Rogéria no filme Divinas Divas, lançado neste ano nos cinemas, informou o velório: "Será no Teatro Joao Caetano. Das 11hs as 13hs só família e amigos. E das 13h as 18h, para todxs".

A TRAVESTI DA FAMÍLIA BRASILEIRA

Com 74 anos de idade e 54 de carreira Rogéria é um dos maiores ícones artísticos brasileiros. Começou a carreira como maquiadora da TV Rio e convivia com grandes atores, como Fernanda Montenegro, que a incentivava a atuar. A estreia ocorreu em 29 de maio de 1964 na Galeria Alaska, no Rio.

Além de se destacar nos palcos desde os anos 60/70, década de ouro dos shows de transformismo, ela conseguiu atingir o grande público, sendo considerada "a travesti da família Brasileira". Na TV, destacava o acolhimento dado pela mãe, as brincadeiras de Cleópatra e a postura de enfrentar os preconceituosos desde a infância. Sempre com muito bom humor. 

Participou de peças de teatro, programas de TV e estrelou novelas, bem como Tieta (1984), na pele da travesti Ninete, e mais recentemente Lado a Lado (2013) na pele de uma mãe e avó cisgênero e Babilônia (2015) como a vedete Ursula Andressa. Com muita arte, jogo de cintura e cabelão - que ela fazia questão de soltar no palco - venceu em 1979 a categoria de “melhor ator” do Mambembe pelo trabalho “O desembestado”, em que contracenava com Grande Otelo.

É preciso dizer que Rogéria nunca teve a veia militante e até dava declarações que iam contra a nova militância trans. Em uma conversa com o NLUCON, ela tentou explicar, destacando ser sobrevivente de um período em que travestis eram censuradas e assassinadas pela ditadura: 

"Passei por duas. Uma aqui no Brasil e outra na Espanha. No Brasil, o negócio era o comunismo. Vi a perseguição ao Caetano Veloso, o Chico Buarque, a Zuzu Angel com o filho... Eu calava a minha boca, pois pensava: sou transgressora por natureza, morro aqui mesmo", disse. 






Nos últimos anos, participou do filme "Divinas Divas", dirigido por Leandra Leal, em que contava sua trajetória com outras divas. E também recebeu várias e merecidas homenagens em premiações voltadas para a população LGBT. 

Afinal, Rogéria abriu portas, deixou saudades e o legado de uma travesti artista - ou melhor de uma artista travesti - de sua época. Aplausos!

Nenhum comentário

Tecnologia do Blogger.