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Retrocesso: Espetáculo em que atriz travesti interpreta Jesus é cancelado pela Justiça em Jundiaí


Por Neto Lucon

A apresentação da peça “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu” foi cancelada na sexta-feira (15), no Sesc Jundiaí pela 1ª Vara Cível da Comarca de Jundiaí, em São Paulo. A diretora do espetáculo Natalia Mallo fez um post público, dizendo que a decisão demonstra a transfobia e o fundamentalismo no país. 

Escrita pela mulher transexual Jo Clifford, a peça traz a atriz brasileira Renata Carvalho, que é uma travesti, na pele de Jesus. No monólogo, ela conta de maneira extremamente sensível e respeitosa diversas passagens bíblicas, falando sobre a importância da tolerância, do acolhimento e do amor. 

Porém, a advogada Virgínia Bossanaro Rampin Paiva considerou o simples fato de a peça ser encenada por uma atriz travesti um “atentado à fé cristã” e a possibilidade de uma "guerra santa". E entrou com processo contra o Sesc Jundiaí por encenar o espetáculo.    

O juiz Luiz Antonio de Campos Júnior, que assim como a advogada não assistiu ao trabalho, determinou que a peça atenta à “dignidade da fé cristã”, “caracteriza-se ofensa a um sem número de pessoas” e que “cuida-se na verdade de impedir um ato desrespeitoso e de extremo mau gosto, que certamente maculará o sentimento do cidadão comum, avesso a esse estado de coisa”.

Renata Carvalho foi informada uma hora antes da apresentação, quando estava se maquiando, que o espetáculo havia sido cancelado. O público permaneceu no local, em apoio à peça. “Eu vivi como se estivesse em 1968. Não podemos nos calar. Hoje é uma travesti sendo calada. A travesti vai continuar lutando enquanto formos o país mais transfóbico do mundo, enquanto a vida média de uma mulher trans for 35 anos e enquanto a sociedade brasileira não tratar uma travesti com dignidade”.

Renata Carvalho vive Jesus na peça (foto: Lenise Pinheiro)

O Sesc – que até então não pode apresentar o espetáculo em nenhuma data, sob pena de mil reais - recorreu da decisão judicial. O espetáculo foi apresentado no sábado (16) no Sesc de São José do Rio Preto, e no domingo (17) no Sesc de Santo André. Haverá outras encenações no festival Porto Alegre em Cena no dias 21 e 22.

Vale dizer que, caso a advogada ou o juiz tivessem assistido ao espetáculo, saberiam que a peça não desrespeita Jesus, não atenta a fé cristã e tampouco é de extremo mau gosto. Ao contrário, trata-se de um monólogo com inúmeras passagens falando sobre tolerância, respeito e amor. Ele exalta a figura e a palavra de Jesus, levando o expectador a entender o que aconteceria caso fosse pessoa trans, refletindo como as opressões, intolerâncias e preconceitos existem ainda hoje. Exatamente o que aconteceu neste caso.

Bem como diz Jo Clifford, “isto prova a importância do trabalho e como ele se faz necessário hoje no Brasil: o país que mais assassina travestis e transexuais no mundo”.

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